[Conto] A verdade no fundo do oceano

E naquele momento crítico, em que nada parecia fazer sentido, ou na verdade, não parecia haver sentido nenhum em sua vida, ela resolveu investigar, pensar, analisar sistematicamente sua vida, seus conceitos, suas crenças, seus gostos e desgostos, seus defeitos e qualidades. Resolveu repensar sua essência. E para isso, precisava fazer uma análise profunda de si mesma, olhar sem preconceitos para seu eu interior e sentir verdadeiramente sua alma.

E assim o fez.

Mergulhou profundamente no oceano de sentimentos e ideias abstratas que existia dentro de si. Após muito tempo, chegou ao mais profundo, escuro e gélido nível, onde habitava a mais pura e simples verdade. Viu sua alma desnudada, como fora concebida, imaculada, sem impurezas e preconceitos; sem trajes mundanos ou máscara de sentimentos. Apenas sua alma, pura e simplesmente, o ser humano em si, em sua essência mais primordial e divina. Aquilo que viu foi ao mesmo tempo belo e assustador; simples e complexo; misterioso e revelador. Totalmente universal e geral, mas ao mesmo tempo estranhamente particular.

Aquilo era a verdade há muito tempo esquecida. Divina. Iluminadora. Purificadora.

Sentiu-se bem com sua descoberta e toda dúvida fora expurgada de seu espírito.

Desejou gritar, escrever um poema, cantar a antiga canção.

Desejou amar, em todos os sentidos do conceito.

Quis compartilhar com o mundo sua descoberta, para que todos os outros também sentissem a verdade em seus corações.

Mas ninguém a escutara. Estavam cegos, estavam surdos, estavam loucos. Estavam corrompidos e maculados com a dúvida, a dúvida que dilacera o espírito e apaga a luz que brilha dentro de cada ser. A dúvida que congela a chama que nos mantém vivos. A dúvida cruel.

Perguntou-se por que não a escutavam, por que não entendiam, por que não queriam entender.

E então compreendeu que não poderia mostrar-lhes o caminho. Cada um tem seu próprio caminho. Cada um deve trilhar seu próprio caminho para a verdade, porque a verdade no âmago de cada espírito é única e intransferível.

Compreendeu que cada um deveria mergulhar no próprio oceano e vislumbrar a sua verdade particular.

por Renan Santos

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