[Conto] Libertação em três atos

Olá, pessoal! Este pequeno texto é uma resposta ao desafio lançado por Fábio M. Barreto e Rob Gordon em seu podcast Gente que Escreve (por sinal muito bom, todos deveriam ouvir). Espero que gostem.

Libertação em três atos

– Mas que porra é essa, Júlia?

Ângelo segurava furioso um pequeno pedaço de papel, no qual estava esboçado um simples desenho em tons cinzas.

Júlia tremia. Inspirou profundamente e tentou falar com voz equilibrada.

– Ângelo, é apenas um desenho.

– Pro caralho com esses estúpidos desenhos! Vá fazer minha janta, estou morrendo de fome. Uma vagabunda dessas, não faz nada que preste nessa casa!

– Não me chame de vagabunda!

Júlia recuou ante o olhar de ódio do homem. Não deveria ter falado aquilo e agora todo seu corpo temia.

– É vagabunda sim! – Rasgou o papel em vários pedaços.

– Não!

Jogou os pedaços no chão.

– Limpe esta porra agora e faça minha janta.

– Júlia, que é isso?

– Hã?

– Isso!

Lara apontou um hematoma no rosto de Júlia.

– Não é nada. Escorreguei no banheiro.

– Ah, não, Ju! De novo não com essa história. Te conheço há treze anos, desde o ensino médio e você vai mentir pra mim?

– Não é nada, já disse.

Lara segurou seu braço.

– Ju, isso que você faz não é certo. Vamos numa delegacia, denunciar esse filho da puta. Você não merece esse canalha.

Júlia hesitou:

– Eu… eu. Não, Lara. Tenho medo.

– Estou aqui contigo, Ju. Vai ficar tudo bem.

Lara envolveu-a com seus braços e o abraço foi demorado e quente.

– Sabe, Lara, já se passaram sete meses e nunca te agradeci pelo que fez comigo.

Júlia não olhava para a amiga, apenas se concentrava em sua criação. Lara terminou de tomar um gole de sua água.

– Não precisa, Ju. Só de ver você feliz já basta.

Ela espiou por cima dos ombros de Júlia e vislumbrou o desenho que ela fazia, em aquarela, colorido e sublime.

– Você melhorou muito sua técnica.

Júlia parou, fitou o rosto de Lara e voltou a se concentrar em seu trabalho.

– Quando vivia com Ângelo, sentia como se meu mundo fosse cinza. Como se estivesse presa dentro de um mundo de agonia. Eu tinha medo. Precisei matar o demônio dentro de mim e libertar minha inspiração. Por isso melhorei minha técnica. Meus desenhos são reflexo de minha alma. Ela agora é livre para viver plenamente.

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