[Conto] O Devorador de Mentes

Este texto faz parte de um projeto que talvez se torne um livro algum dia. Ou talvez fique apenas no conto mesmo. Ainda não sei. Mas o conto está aqui. É um terror psicológico, mas bem leve. Espero que gostem.

O DEVORADOR DE MENTES

Primeiro ato: A lembrança

Por Renan Santos

Silêncio. Estática. Ruído. Escuridão. Medo.

***

A porra daquele porão era terrivelmente frio e escuro. Lara não se incomodava muito com o escuro. Era a porra do frio que não suportava. Era glacial. Cortante. Horripilante. Infernal.
Ela tremia, em parte por causa do frio, mas não era exatamente apenas isso. O frio era parte da tortura, mas não a pior parte, ela sabia. Isso é o que lhe causava calafrios: ela sabia que a coisa estava apenas começando e que sempre pode piorar. O maldito sempre sabia como tornar a situação pior.
Muito pior.

É preciso deixar bem claro que não era do escuro que ela tinha medo. Não, não era isso. A escuridão apenas tornava a sensação mais palpável. Mais real. Mas a escuridão em si não era nada. Perdera o medo do escuro antes mesmo dos dez anos. Ao contrário da maioria das crianças, ela se convenceu de que não existem monstros no escuro, a não ser o Medo. Este é o único monstro que realmente existe, e ele é terrível. Isso é o que Lara costumava acreditar.
Quando compreendeu melhor o mundo, a garota percebeu que o Medo não é de fato o único mostro. Existem outros; alguns bem reais. Os Humanos são os piores, mas mesmo os estes temem e veneram o Medo, pois ele é o Pai de todos eles. O mais antigo monstro que a humanidade conhece.
O fato é que Lara estava com medo, não do escuro, como já frisei, mas de si mesma. Por que ela descobriu que existe um monstro mais terrível que o Medo.
Ele atende pelo nome de Loucura.

***

Silêncio. Sussurros. Dormência.

***

O que tornava aquele frio insuportável era o fato de Lara estar completamente despida. O vento gélido tocava sua pele como o beijo da morte e a fazia ter arrepios.
Também já não sentia mais seus braços, tamanha era a dormência. Estava acorrentada em pé, braços erguidos e pernas flexionadas. Não tinha a menor noção de quanto tempo estivera assim. Uma eternidade, talvez. O tempo torna-se um conceito tolo quando o medo e o desespero imperam. E aquela total escuridão não ajudava nem um pouco.
O maldito sabia como fazer uma boa tortura, isso ela tinha que admitir.
Estava apreensiva e a apreensão trazia o medo. Não do escuro, com já deixei claro. OK, talvez ela sinta pouco de medo do escuro, mas não muito. Já estava acostumada. Medo de escuro é como medo de altura. É ilógico, irracional. É instintivo. A maioria das pessoas não se atenta ao fato de que não é exatamente da altura que tem medo e sim de cair, em parte por que estão muito preocupadas com o medo. Com o escuro é a mesma coisa. Elas não percebem que o que elas temem não é a Escuridão, mas as coisas que saem dela.
Por anos, Lara acreditou piamente que Escuridão não trazia Monstros ou vice-versa.
Até que conheceu o Devorador de Mentes e é dele que ela tem medo.
O maldito sempre vem com a escuridão.

***

Silêncio. Marteladas. Choro. Ranger de dentes.

***

Sussurros. Passos. Ranger de porta.

***

Loucura.

***

Lara quase foi cegada pela luz ofuscante. A porra do porão brilhava como uma manhã bela e ensolarada. Só que não havia nada de belo ali.
Diante dela estava o demônio que a atormentava, exibindo aquele seu maldito sorriso insano e zombeteiro. Ah, como ela queria desfazê-lo às tapas! Mas seus braços estavam amarrados e dormentes.
O filho-da-puta era até bonito. Tivera a decência de assumir uma aparência atraente, daquelas que arrancam suspiros da maioria das mulheres. Era esbelto, não exatamente musculoso, mas definitivamente não um magricelo. Seus belos cabelos loiros e soltos caiam displicentemente pelo lado esquerdo do seu rosto. Sua barba estava por fazer, mas isso só dava um toque a mais naquela figura esteticamente pensada para ser belo e irresistível. Um verdadeiro galã. Teria sido perfeito, não fosse um pequeno detalhe.
Seus olhos eram vermelhos.

Na verdade, eram dois detalhes. O segundo é que ele é simplesmente um filho-da-puta que se alimenta de sua sanidade, dia após dia. O maldito dizia ser a porra de uma entidade cósmica, não exatamente do tipo que se importa com seres inferiores, como os humanos. Para Lara, ele era um demônio.
Pior que ele, só aquele frio infernal.
– Dormiu bem, querida? – Ele perguntou com um daqueles sorrisos que Lara gostaria de desfazer a tapas.
– Vai pro inferno, seu filho-da-puta! – Ela cuspiu.
Ele alargou ainda mais seu sorriso cínico e respondeu:
– Já estive lá. Muitos pensam que ele é quente, mas a verdade é que o inferno é congelado. Calor não condiz com morte. O frio provém um clima mais apropriado.
Ele aproximou-se a passos tranquilos.
– Então vá pra puta que pariu! – E ela cuspiu, desta vez no sentido denotativo da palavra.
O demônio limpou suavemente a saliva que escorria de seu rosto.
– Isso não foi nada educado, querida. – Apontou, com voz grave. Depois ele a esbofeteou repentinamente. E novamente. E novamente. Foram doze golpes, seis em cada face. Por fim, ele a socou no estômago. Ela teria caído, não fossem as correntes. – Acho que você precisa de um pouco mais de tempo para refletir.
E saiu.

***

Silêncio eterno. Medo. Dor. Ansiedade.
Ploc, ploc, ploc, ploc, ploc, ploc, ploc.
Loucura.

***

O esgotamento mental era muito pior que seu cansaço físico. Já nem sentia mais seus braços de tão dormentes que estavam, suas pernas mal lhe pertenciam, o frio era mortal, mas nada disso se comparava àquela maldita escuridão silenciosa, na qual se ouvia apenas seus pensamentos amedrontados e aquele irritante gotejar.
As gostas caiam religiosamente em sua testa. Uma. Duas. Três. Quatro. Cinco. Seis. Sete…
Ploc, ploc, ploc, ploc, ploc, ploc, ploc…
Insistentemente.
Foi isso que a quebrou, como a quebrara antes e o maldito sabia disso. Ele sempre sabe.

***

Por fim, houve novamente a luz e o filho-da-puta apareceu com seu sorriso cínico. Ele conseguira o que queria. Sua sanidade. Conseguira mais um pouco dela. Estava derrotada.
– Por favor, me solta – Suplicou, com voz miúda.
– Perdão. Acho que não ouvi direito. Pode repetir, por favor? – Ele debochou.
Aquilo era humilhação demais, mas Lara forçou-se a responder:
– Por favor, me solta, eu suplico. Meus braços doem.
Ela aproximou-se dela e afagou seus cabelos carinhosamente. Ela recuou ante o toque frio de suas mãos assassinas.
– O que deseja, querida?
Ela caiu em lágrimas. Por mais filho-da-puta que ele fosse, ele sabia fazer aquela voz mansa e sedutora, que arrepiava até sua espinha. Era um jogo, ela saiba, mas um jogo em que sempre perdia.
– Eu só quero voltar. – Ela respondeu entre lágrimas e soluços. – Voltar para a realidade.
– Então voltará, querida – Ele ergueu seu queixo. Lara desviou o olhar. A visão daqueles hediondos olhos vermelhos era por demais insana. Ele pareceu não se importar. Continuou o que estava dizendo. – Voltará para o aconchego de sua realidade mentirosa e feia. Mas antes precisará de sua lembrança. – E afastou-se.
Sua respiração parou naquele instante. A lembrança era algo que sempre tinha que levar quando voltava para a realidade, sempre foi assim, nunca houve exceção. Mesmo assim ela temia essa parte. Pois era o momento em que já não mais sabia o que era realidade e o que era ilusão.
O demônio então sacou uma adaga da bainha. A lâmina era bela e terrível. Já a vira várias vezes, mesmo assim nunca deixava de se impressionar com sua aparência. A lâmina era feita de algo que parecia vidro ou diamante, mas reluzia com feixes vermelhos e escarlates. Seu cabo era totalmente negro e o pomo era esculpido em forma de caveira, negra, e seus olhos eram duas joias vermelhas. Como os olhos do maldito demônio.
Ele apontou a arma branca na sua direção. Lara recuou, mas era inútil. As correntes não permitiam ir longe. E afinal para que resistir? Resistir era inútil. Foi a primeira e mais dura lição que aprendera com ele.
– Não temas, querida! – Pressionou a lâmina contra sua bochecha. O toque era frio e asco como a morte. – Clame pelo alívio e eu acabo com isto agora. – Ele sempre falava isso ou algo equivalente. Jamais pediria pelo alívio, mas no fundo ela sabia que não era verdade. Jamais é uma palavra que os demônios gostam de ouvir quando querem rir dos seres humanos.
– Jamais! – Ela teve forças de dizer.
E a lâmina, a dor e o sangue correram pelo lado direito do seu rosto, mas o sangue era a melhor parte. A lâmina e a dor eram frias, mas o sangue corria quente e acalentador.

O demônio afastou-se novamente e lambeu o sangue da lâmina, de forma asquerosa, revelando sua língua bifurcada, como a de uma serpente.
– Ah! O doce sabor da vida! Só não é melhor que o sabor da mente humana. Isso é o maná dos deuses!
– Posso voltar agora? – Perguntou humildemente.
– Não tão rápido, querida. Hoje é um dia especial!
Aproximou-se novamente, afagou seus cabelos e depois deslizou sua mão fria até seu seio esquerdo. Começou a brincar com seu mamilo. Lara não queria, mas não pode evitar a excitação, o desejo sexual. Aquele maldito emanava uma forte presença, um magnetismo pessoal irresistível. Do tipo que encanta as pessoas, e ele até seria um ser encantador, não fosse o simples fato do que ele era a porra de um demônio que se alimentava da sanidade das pessoas.
Isso, é claro, tornou-se um mero detalhe naquele momento.
Ele continuou, descendo sua mão lentamente pelo seu ventre, até chegar no ponto mais esperado. Seu toque, antes frio, agora era quente. Ele penetrou-a com o dedo ali mesmo e Lara não pode evitar um suspiro de doce agonia.
Então ele parou.
– Não, ainda não. Ainda não está pronta.
Aquela não era a primeira vez que o filho-da-puta deixava excitada, só para cortar seu barato. Mas um dia a porra do ato seria consumando. Ela temia este momento.
– Mas por hoje vou lhe dar alívio. Vou ficar com seu coração. – Ele disse bruscamente, apertando novamente seu seio esquerdo.
A princípio ela não compreendeu suas palavras. Mas quando viu que ele erguia a maldita lâmina contra seu corpo novamente, a compreensão veio e com ela o medo. Recuou instintivamente, mas foi, é claro, inútil. Seu coração disparou e Lara viu-se gritando como uma menininha assustada:
– Não, não! Por favor, não! – Seus olhos eram puro terror e fitavam com ansiedade a lâmina.
– Não temas, querida. Prometo que não vai doer. Muito.
Se havia outra coisa que aprendera com os demônios é que eles mentem. Descaradamente.
Quando a lâmina tocou seu seio esquerdo não pode conter seu grito de terror nem a urina que escorreu quente por suas pernas.
Lara não exatamente temia o que o Devorador de Mentes pretendia fazer com ela ali. Aquilo era uma ilusão, ou esperava que fosse. O que a jovem temia era o que poderia acontecer com ela depois que despertasse de volta para a realidade. Por que ela sempre volta com uma lembrança. Temia que aquela pudesse ser fatal. No final, ela sabia, haveria uma lembrança fatal.
A lâmina dilacerou a carne de sua mama e desta vez a dor foi além do limite da sanidade. Ela gritou loucamente. Com mais alguns movimentos cirurgicamente precisos (e muita, muita dor) o demônio arrancou sua mama e jogou-a no chão. Lara contemplou com horrendo fascínio aquela massa amorfa de gordura, carne e sangue. E vomitou.
– Agora o toque final!
Totalmente indiferente aos gritos de terror e protesto da moça, o Devorador de Mentes usou a faca e mão para atravessar carne e músculos. Quebrou os ossos da caixa torácica como se fossem pedaços de giz podres. Com um único e doloroso puxão ele arrancou seu coração. Sangue espirrou em jatos quentes em todas as direções, manchando seu rosto e seu ventre. A última coisa que Lara vislumbrou foi seu órgão ainda batendo na mão amaldiçoada daquele infeliz.
Então ela acordou.

***

Bem-aventurados aqueles que descobrem que a realidade é apenas uma questão de percepção, pois estes herdarão o Reino da Loucura.

***

Acordei mergulhando para a realidade num sobressalto. A primeira coisa que senti foi meu coração palpitando freneticamente. Isso me deu certo alívio, puta que pariu. Eu ainda tinha um coração, porra! E isso era bom.
Bem, esperava acordar na escuridão do meu quarto, então me surpreendi quando minhas pupilas se retraíram ante aquela luz trêmula e amarelada. E também por aquele estranho zumbido constante. Também estranhei aquela brisa incrivelmente fria, já que era verão e o verão carioca é quente pra caralho. Meus braços estavam dormentes, erguidos para cima. Só então percebi onde estava. Na verdade, após um segundo, minha mente estava clara como a luz do dia e percebi várias coisas ao mesmo tempo.
Primeiro percebi que estava sentada em cima de uma poça de mijo, recostada em uma porta fria. Vestia apenas uma regata branca e uma calcinha azul. Bem, a regata estava imunda, por causa do nojento vômito que ainda escorria por ela. E a calcinha estava encharcada pela minha urina, que não pude segurar naquele momento de horror. Droga! Precisava trocar de roupa rapidamente. Estava me sentindo suja por fora e por dentro.
A segunda coisa que reparei de imediato era que, apesar de meu coração estar OK, o mesmo não se podia dizer do meu rosto. Uma linha de ardor seguia pela minha bochecha direita e, é claro, eu sabia o que era. Era a minha lembrança da vez. Abaixei meu braço dormente – o que foi um esforço hercúleo – e levei minha mão ao rosto. Não me surpreendi nem um pouco quando senti a consistência leitosa do sangue quase coagulado que escorria pelo corte.
Por fim senti o bafo gelado da geladeira. Sim, pois eu estava recostada na porta da geladeira. A porra da porta estava aberta e eu estava dormindo e tendo aquelas malditas alucinações enquanto jazia quase dentro dela, com meus braços erguidos, segundo a segunda prateleira. Vá em frente, você pode rir, mas aposto que não acharia isso engraçado se visse e sentisse o que eu sinto quando o Devorador de Mentes vem. Não ia achar nem um pouco engraçado.
E, no entanto, o pensamento que tive foi engraçado, mas foi tão espontâneo e ingênuo que não pude evitar. Qualquer pessoa normal, quando posta nessa situação, acharia que estava ficando louca. Eu já nem mais me preocupava com isso. Tinha certeza que já não tinha posses de minhas faculdades mentais. O que pensei foi: a droga da conta de luz vai vir alta pra caralho este mês.

***

Respirei fundo e me esforcei para levantar. Minhas pernas estavam bambas e meus braços formigavam de dormentes. Eu sempre me orgulhei de ter bom condicionamento físico, então consegui me ergue usando apenas o apoio dos meus membros inferiores. Cada movimento dos superiores, entretanto, era uma dor fina, latejante. Empurrei a porta do refrigerador com as costas e esta fechou com um baque seco. A luz apagou, lançando um véu de escuridão na cozinha.
Caminhei quase às cegas em direção ao banheiro. Apesar de conhecer bem o trajeto, foi inevitável esbarrar numa coisa ou outra, mas o pior foi quando meu braço se chocou contra a quina da porta. Uma dor correu por ele como um raio.
– Boceta! – Eu xinguei, mas engoli a dor.
Mais alguns passos, empurrei a porta de correr – o que não foi fácil – e acendi a luz. Suportei a dormência latejante enquanto meus braços eram obrigados a executar os movimentos de tirar minha camisa. Joguei-a no chão mesmo, provavelmente nunca mais a usaria. É provável que a mancha de vômito tivesse salvação – na verdade era bem possível isso. Mas o meu código de ética pessoal não permite eu vista uma roupa que já foi maculada com o regurgito de alguém, mesmo quando esse alguém sou eu. Bem, na verdade, eu acabei de inventar isso. O fato é que nunca mais quero ver esta camisa porque me fará lembrar-se de algo que quero esquecer.
Como se fosse realmente possível esquecer.
Deixei a calcinha escorregar, mas recolhi-a do chão e joguei-a na pia. Entrei no box e não dei a mínima para o choque térmico. A sensação de água quente tocando minha pele era um alívio. Deixei que ela lavasse meu corpo e minha alma. A minha mente não. Minha mente estava fodida, mas eu podia suportar isso. Pelo menos por enquanto.
A água ajudava a me purificar e isso era bom.

***

Alguns minutos depois eu estava encarando meu reflexo no espelho. A cicatriz do corte corria pelo lado direito de minha face, indo desde a têmpora até o maxilar. Filho-da-puta, aquela cicatriz ficará visível por semanas. Ergui o braço virando um pouco de lado e observei meu seio esquerdo. Estava OK. Nenhum problema, arranhão, cicatriz ou marca. Nada que sugerisse que meu coração fora arrancado, minutos antes.
Uma brisa fria cortou o ar. Quando vislumbrei novamente o espelho, lá estava a marca do maldito, escrita com sangue:
“Eu voltarei”
– Vá se foder! – Fechei os olhos e contei até sete. Quando abri, só havia meu reflexo novamente.

Deixei a calcinha de molho na pia, mas a regata eu joguei no lixo. Não ia querer nem para pano de chão. Enrolei-me numa toalha e dirigi-me ao meu quarto. Fiquei novamente defronte ao espelho do guarda-roupa, examinando meu corpo. Vi a cicatriz de aproximadamente cinco centímetros na base de minha barriga. Vi aquela que corria pela batata de minha perna esquerda. Vi aquela entre duas costelas do meu lado direito. Vi aquela em meu pulso esquerdo. Vi aquela na palma de minha mão direita. E por fim, a mais recente, no rosto. Seis cicatrizes de faca. Vi a queimadura perto da virilha esquerda. As lembranças de minhas alucinações.
São elas que me deixam louca. São elas que me fazem ter medo.
Muito medo.

***

Peguei meu celular e olhei as horas: 2h47 da manhã. Tinha ido para cama cedo, perto das onze. Descobri que ainda tinha muito sono. Caí na cama e mergulhei em um sono pesado e sem sonhos.
Graças a Deus.

***

Como eu sou mal-educada, ainda não me apresentei propriamente!
Meu nome é Lara Bittencourt, tenho 26 anos, solteira, geminiana e louca. Sou advogada em começo de carreira e, modéstia à parte, eu sou boa no que faço, baby. Trabalho em um dos melhores escritórios de advocacia do Rio de Janeiro. Tá certo que sou apenas uma advogada assistente, mas um dia eu chego lá. Tenho mais talento no meu dedo mindinho que todos aqueles babacas de lá. Juntos. Meu pai costumava dizer que eu podia convencer o próprio diabo a pôr fogo no rabo. Levei um tempo para entender de onde ele tirara isso e quando entendi eu ri. Enfim, eu sou boa no que faço.
No colégio fui tachada de nerd e filhinha de papai. Bando de filhos da puta, hoje eu estou por cima. Eu era um ponto fora da curva, entendem? Menina bonita não combina com menina inteligente, era o que eles pensavam, aqueles machistas preconceituosos. Não que eu fosse uma top model, mas eu tinha o meu charme. Acho que tenho até hoje.

Estava novamente encarando meu reflexo no espelho do banheiro. A cicatriz ainda estava lá. Droga. Não havia maneira de escondê-la. Precisava de uma desculpa convincente. Mas fora esse pequeno detalhe, meu rosto estava impecável. Era um rosto bonito, eu gostava de acreditar e, afinal, por que não seria? Tinha traços delicados, porém firmes. Meu nariz era arrebitado e meus lábios eram finos e charmosos. Meus olhos eram um pouco puxados (herança da descendência japonesa por parte de minha mãe, que era sansei o que faz de mim uma yonsei), mas o que mais chamava atenção neles era sua cor. Eram verde-escuros, bem brilhantes. Como duas safiras verdes. Meus cabelos escuros e ondulados desciam até meu pescoço. Meus óculos de lentes grandes só dava um toque de ouro à minha beleza.
Sim, eu sou vaidosa, mas que mulher não é?
Tentei disfarçar a cicatriz com pó, mas foi inútil, é claro. Bem, o Devorador de Mentes viera na noite anterior, o que me dava pelo menos três dias de lucidez. Eu nunca sabia quando ele ia vir, mas depois de oito visitas eu notei um padrão. Posso estar completamente errada, mas nós lidamos com os dados que temos em mão. Ele nunca reapareceu com menos de três dias depois da visita anterior, então posso supor isso. Da sexta para a sétima visita foram duas semanas e cheguei a pensar que havia finalmente me livrado dele. Cheguei a desejar que tudo aquilo não tivesse passado de um sonho ruim. Mas ele veio, e daquela vez foi horrível. Pior que o da noite passada. O desgraçado me fez acreditar que estava me afogando. E de fato, eu estava mesmo. Quando acordei, estava com a cabeça mergulhada na pia do banheiro.
Esse foi o pior, mas as primeiras vezes foram as mais traumáticas. Porque era uma experiência nova. Algo desconhecido e no fundo, todos nós seres humanos temos medo do desconhecido. Somos seres racionais, gostamos de pensar que entendemos o universo, que temos controle sobre nossas vidas e nosso mundo. Gostamos de saber e quando não sabemos, nós temos medo. Nossos cérebros sempre buscam uma explicação. Nossas mentes tem uma ânsia de compreender o que se passa, e muitas vezes ela se recusa a acreditar que simplesmente pode não haver uma explicação. Ela tem medo. Nós temos medo.
Eu tive medo. Por que não compreendia. Eu sou um ser humano que particularmente gosta de compreender. Temos a ilusão de que quanto mais racional nós formos menos medo sentiremos diante do desconhecido. Eu acreditava nisso, mas agora eu digo que isso balela. A porra de uma mentira. É justamente o contrário! Quanto mais a sua mente for programada para tentar racionalizar os eventos, pior será. Por que ela dará um tilt, um bug, entrará em curto circuito, quando a coisa simplesmente não fizer sentido.
Meu maior medo é que estivesse ficando louca. Eu realmente considerei esta alternativa, de que eu realmente estivesse imaginando o Devorador de Mentes. Há casos de esquizofrenia em minha família. Mas a coisa se tornava irracional quando eu considerava as lembranças. Os cortes e queimaduras em minha pele. Não sabia como explicá-los. Cheguei a cogitar que eu mesma tivesse me flagelado, mas descarte-a, pois jamais encontrei a lâmina que supostamente teria usado para tal fim. Cheguei a pesquisar na internet e descobri uma possível explicação (pseudo)-científica. Tem um nome pomposo: efeito psicofisiológico. É basicamente a habilidade de nossa própria mente causar alterações físicas em nosso corpo. Não é tão absurdo quanto parece à primeira vista.
Mas no fundo eu sei que não. Não quero admitir, mas bem lá nos recantos escuros de minha mente eu sei que é real. De alguma estranha maneira.

***

Eu moro sozinha em um apartamento no Botafogo. Dinheiro não é muito problema, porque como diziam os meus ‘colegas’ de turma, eu sou filha de papaizinho. Não deixa de ser verdade, embora daquele velho eu prefiro manter distância. Não, eu não uso o dinheiro dele. Eu consigo me sustentar sozinha.
Infelizmente para manter o apartamento, alguns sacrifícios são necessários, e ir de ônibus para o trabalho é um deles. Não que eu me importe muito. Até gosto. Ajuda a espairecer a mente. E eu preciso espairecer, senão vou surtar. Ponho meus fones e começo a curtir a música. Está tocando Under pressure do Queen. Nada mais propício.
It’s the terror of knowing what this word is about...”
Eu fechei meus olhos e tentei esquecer meu próprio terror.

***

Estava indo animada para mais um dia de trabalho. Só que não. Mas enfim, é a vida. O trabalho é um saco, apesar de eu ser boa e até gostar. Sim, eu gosto do meu trabalho, mas é um saco, e não há nenhuma contradição nisso. Evanescense tocava em alto e bom som nos fones de ouvido. Ah, como eu adoro a voz a Amy Lee. E Imaginary, cara, é simplesmente perfeita.

In my field of paper flowers
And candy clouds of lullaby
I lie inside myself for hours
And watch my purple sky fly over me

Isso meio que me descreve algumas vezes.

***

Desci em minha parada e caminhei por algumas quadras.

Catch as I fall

Eu assobiava a música alegremente quando uma cena chamou minha atenção. Havia um casal de mendigos que quase sempre estava por ali. Acho que eram dois irmãos, na verdade. Não que eu me incomodasse com eles. Pelo contrário, eu até meio que simpatizava com a garotinha. Devia ter uns seis ou sete anos, e seria muito bonita se estivesse arrumada. O irmão era mais velho, devia ter uns quinze anos. E era cego. A garotinha sempre cuidava dele, vigiando.
Foi então que o garoto se levantou num sobressalto e apontou.
– Não!
A irmã gritou:
– Ela vai pular!
Nem passou pela minha mente naquele momento o absurdo da cena. Um rapaz cego apontando para algo que estava vendo, mas não deveria.
Olhei para onde ele apontava. Em um prédio comercial, do outro lado da rua, uma mulher estava na sacada da janela do sétimo andar. Ela ameaçava saltar! Alguém gritou em desespero.
Existe uma força universal, maior que todos nós, que nos impele a contemplar a desgraça alheia, independente se sentimos pena ou não da vítima. Essa força tomou conta de mim e da multidão ao redor, é claro. Me vi correndo, atravessando a rua – por sorte o sinal estava vermelho para os carros – juntamente com toda aquela gente, em direção à eminente tragédia.

Don’t turn away

Ela saltou.
Suicídio, uma voz sussurrou em minha mente.
Como pode alguém tirar a própria vida? Era algo incompreensível para mim. E no entanto, hoje isso é claro como a luz do dia. Eu não sabia ainda, mas o maldito já estava lá. Correr naquela direção foi o maior erro que cometi em minha vida. Foi lá que tudo começou.
À medida que eu avançava pela faixa de pedestres, aquela pobre alma avançava em direção ao chão. Indo de encontro ao seu destino. Cheguei ao outro lado da rua instantes após o baque seco.

Eu esperava encontra-la já morta, mas estava errada. Por algum milagre – ou maldição – a mulher ainda estava viva. Ou perdendo sua vida, seria mais preciso.
– Alguém chame a ambulância – ouvi algum filho de Deus falar, mas era em vão. A mulher já estava condenada, mas sua expressão não era de medo ou tristeza. Era serena, como se sentisse algum alívio. Como se algum fardo finalmente saísse de suas costas.
Como se estivesse finalmente livre.
E ela me encarava, fitava, olhava fixamente em minha direção. Comecei a ficar desconcertada. Nossos olhares se cruzaram, e vi suas forças vitais escorrendo através de suas órbitas taciturnas. Ela ergueu a mão em minha direção. Hesitei por um momento, mas não pude resistir. Algo em seu olhar gritava por urgência e causavam algum tipo de transe hipnótico. Seu olhar chamava. Pensei mesmo acreditar que eles ficaram vermelhos em certo momento.
Aproximei-me, agachei-me ao seu lado. Ela continuava a estender sua mão, então eu a segurei, como um último gesto de bom samaritano que ela receberia em sua vida.
– Sente dor? – Perguntei em sussurro.
– Não mais. Terei o alívio. – Sua voz não era mais que uma brisa leve, quase inaudível. Supôs que ela estivesse completamente quebrada por dentro, com seus ossos estraçalhados e cheia de hemorragias internas. Observei melhor e notei várias cicatrizes por seu corpo, de cortes e queimaduras.

Death before my eyes

Então a expressão de seu olhar mudou. Não era mais um olhar distante e até mesmo reconfortado. Era um olhar insano, trágico.
– Ah, não! Vô… vô…
Ela gaguejava muito, de modo que aproximei o ouvido de sua boca e escutei. Sua respiração quente tocava minha orelha. O que ela disse ficou gravado em minha mente até hoje e continuará até meu último suspiro. Foi uma frase curta, simplória, suspirante, mas de grande impacto, dita em uma voz que nem parecia ser humana:
– Você é a próxima.
Então deixei de sentir sua respiração e ouviu-se apenas silêncio.

Never sleep, never die

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Imagem meramente ilustrativa e sem correlação com o texto. Se bem que esta ilustração me lembrou um pouco aquilo que seria o segundo capítulo desta história, intitulada “O campos de flores de papel”. Então, acham que devo postar o segundo ato? | Crédito da imagem: Alice madness return (on Pinterest)
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