[Conto] Casa de recuperação psicológica Dra. Lee

Olá, pessoal! Hoje trago um pequeno conto para vocês. Escrevi esse texto para o amigo secreto do Clube de Autores de Fantasia no qual, além de livros, deveríamos presentear nosso amigo secreto com um conto com tema sugerido por este. Minha amiga secreta escolheu a palavra “hospício” e resolvi escrever algo mais metafórico. Eis o resultado. Espero que gostem, assim como ela gostou 🙂

 

 

Casa de recuperação psicológica Dra. Lee

 

Com passos lentos e fala mansa, o Psicólogo andava pelo salão e mostrava seus pacientes ao Padre.

Na mesa mais próxima havia um sujeito encolhido que encarava com olhar vazio seu prato de sopa, enquanto murmurava coisas desconexas:

– Demolidor, Jéssica Jones, Anchorman, Breaking Bad, Gray’s Anatomy, Lost, Pulp Fiction…

– O que este tem? – O Padre perguntou.

– Este é Josué. Sofre de Síndrome Netflix.

– Síndrome Netflix?

– Sim. Quando o paciente se vicia de forma obsessiva em séries de TV e filmes. Coitado, teve um colapso quando cortaram a TV à cabo.

O Padre virou-se e vislumbrou uma jovem fazendo pose, tirando uma selfie. Os enfermeiros vieram e lhe tomaram o aparelho.

– Não! Devolve!

A moça começou a espernear e gritar, incontrolável. Os enfermeiros tiveram que sedá-la e a levaram dali.

– E aquela moça? – Quis saber o Padre.

– Ah, aquela é Amélia. Sofre de Dependência Obsessiva de Mídias Sociais. Passava o dia inteiro no Facebook, Instagram, Twitter, WattsApp. A mãe teve que interná-la. Tsc tsc tsc.

– E aquele senhor?

O Padre apontou um homem velho, barba por fazer, falando sozinho, usando camisa de força.

– Ah, Nelson é um caso grave. Ele passava o dia inteiro discutindo política, economia e religião no Facebook e em blogs. Você sabe, Transtorno do Sabichão da Internet. Tivemos que tomar medidas drásticas!

Nelson ergueu-se e proferiu um inflamado discurso sobre a Situação Política da Nação. Enfermeiros vieram e tentaram sedá-lo, com muita dificuldade. O paciente mordia e chutava para todos os lados, uma fera incontrolável. No fim, alguém conseguiu acerta-lhe um dardo com sedativo com uma zarabatana e ele caiu. Levaram o homem dali.

Uma garotinha que trazia um coelho de pelúcia debaixo do braço aproximou-se com voz chorosa:

– Doutor! O Sr. Nelson me assustou de novo. Não gosto quando ele me assusta. Ele parece um monstro enorme sem braços! Apollo também tem medo. – Virou-se para o coelho. – Não é mesmo, Apollo? – Ela encostou o ouvi no coelho. – Hã? Ah! Sério, Apollo!? Doutor! Ele disse que Sauron está reunindo os stormtroopers novamente para atacar Winterfell. Precisamos fazer alguma coisa!

– Tudo bem, Alice – disse o Psicólogo, fazendo um cafuné. – Agora vá, está na hora da sua soneca.

A garota saiu correndo, mas parou e falou:

– Ouviu isso, Apollo? Vamos contra-atacar. Atenção, tripulação! Virar à bombordo! A todo vapor! – Ela girou nos calcanhares e continuou. – Agora mesmo, capitã!

O Psicólogo explicou para o Padre:

– Alice é um caso perdido. A garota sofre de Hiperimaginação e Fuga de Realidade, mas ela é o menor de meus problemas.

 

alice
Alice, by syriac (Deviantart)
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