[Resenha] A Menina Submersa

 

Obra: A Menina Submersa: Memórias

Autora: Caitlín R. Kiernan

Editora: DarkSide

Gênero: Terror psicológico\ Dark fantasy

Número de páginas: 317

Sinopse:

Acho que qualquer tentativa de escrever uma sinopse deste livro não será 100% eficaz. Sério mesmo.

 

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OK, é o seguinte: não sei o que escrever. Na verdade, não sei como começar esta resenha. É sério. Sinto que esta será a resenha mais dura que escreverei e se manterá neste posto por um bom tempo. Preciso de alguma inspiração para começar a falar sobre este livro. Então decido que ouvirei Imaginary, do Evanescence. Não a versão do Origen; é a versão do Fallen que eu quero. É mais impactante.

Sei que estou enrolando. Sei muito bem disso. Então vamos aos fatos:

A Menina Submersa não é um livro fácil. Não mesmo. Li o primeiro capítulo e tive que dar uma pausa. Este não é um livro para ler em uma sentada só. Ele é denso e trata de temas delicados de uma forma tão simbólica e metafórica que você tem que parar algumas vezes. Também há muitas referências e analogias. E, devido à forma como a autora escreve, o ritmo se torna lento. Até demais.

‘Vou escrever uma história de fantasmas agora’, ela datilografou. ‘Uma história de fantasmas com uma sereia e um lobo’, datilografou mais uma vez.
Eu também datilografei

Eu disse agora pouco que tentar fazer uma sinopse é complicado. Mas terei que tentar, senão avançaremos pouco nesta resenha. Vamos por partes. Quais são os personagens deste terror psicológico? Temos India Morgan Phelps, ou Imp para os íntimos, que é uma garota mentalmente instável e assombrada pelos seus fantasmas. Não que esteja falando de fantasmas como talvez você esteja acostumado, ectoplasmático; uma assombração. Se há algo que aprendi com Imp é que fantasmas são memórias ou pensamentos que voltam para atormentar a mente das pessoas. Ou, nas palavras dela:

Fantasmas são essas lembranças fortes demais para serem esquecidas, ecoando ao longo dos anos e se recusando a serem apagadas pelo tempo.

Imp é assombrada pelas suas memórias fantasmas. O fantasma de uma sereia. O fantasma de um lobo. Não que haja sereias e lobisomens na história. Não no sentido que estamos acostumados. Como eu disse, é tudo muito figurativo. Há também o fantasma de sua mãe Rosemary e sua avó Caroline, ambas loucas. Ambas tiraram a própria vida – talvez por não mais suportarem seus próprios fantasmas. E há o fantasma de um quadro (A menina submersa de Phillip George Saltonstall). Mas principalmente o fantasma de uma mulher chamada Eva Canning. À sua própria maneira, esta mulher também é uma menina submersa.

Imp é louca e esquizofrênica. Mentalmente desequilibrada, ela meio que encontra refúgio em sua arte. Ela pinta e escreve, embora ela se considere pintora, mas não escritora e na verdade não se sustenta com nenhuma dessas atividades. Também encontra refúgio em sua namorada, Abalyn Armitage. Ela havia aprendido a conviver com sua fragilidade mental de forma razoável; estava tudo caminhando mais ou menos bem. Até que o momento em que ela encontra Eva Canning em uma estrada, nua e molhada, perto de uma represa (ou rio, não me recordo precisamente agora; memórias são falhas). Como qualquer pessoa normal, Imp obviamente decide levar a estranha para dentro de sua casa. Então o barraco desaba.

Acho que isso está bom o suficiente para uma sinopse. Falar mais seria spoiler, ou pelo menos falar da maneira que eu sei fazer.

Como eu já disse, este não é um livro fácil de ler. Uma narrativa escrita em primeira pessoa na qual Imp nos conta suas memórias, os eventos que aconteceram entre Julho e Novembro de 2008. Nos fala sobre as duas Eva’s. Tem a Eva de Julho e a Eva de Novembro e não fica claro o porquê. Nem ela confia nas próprias memórias. A porra toda é louca mesmo e se nem a narradora sabe direito que está acontecendo, quanto mais os leitores confusos.

A narrativa é totalmente não-linear. É, na verdade, a antítese de ser linear. Imp é uma narradora absurdamente não confiável e ela mesmo sabe disso e ela avisa isso aos leitores. Sua confusão é a nossa confusão também. Sua inquietação e hesitação em contar a história, embora seja agoniante, só faz aumentar nosso desejo de saber que caralhos está acontecendo na trama. Mas mesmo diante deste caos psicológico, a autora consegue tecer uma história fascinante e, acredite, coerente no final.

Gente morta, ideias mortas e supostamente momentos mortos nunca estão mortos de verdade e eles moldam cada momento de nossas vidas. Nós os ignoramos e isso os torna poderosos.

Posto em outras palavras: o livro é confuso, pois a narradora não pode confiar nas próprias memórias e tem medo de expô-las. Por isso, ela hesita e ao fazer isso, divaga e filosofa sobre vários assuntos. Isso acaba tornando a escrita muito arrastada e o ritmo é lento de uma forma hesitante.

O fragmento solto da minha mente que está agindo como A Leitora está ansioso em saber o que acontece depois, embora ela deva compreender que somente tornarei pública a narrativa no meu próprio tempo, conforme ganho coragem para fazer isso.

Essa imprecisão na narrativa, essa falta de informações, esse adiamento do clímax é realmente inquietante. Por isso é preciso paciência com este livro. Mesmo assim, não posso deixar de observar um ponto que me incomodou. Não exatamente o fato de nunca termos certeza do que está acontecendo, do que é real ou ilusão, do que é memória verdadeira ou falsa. Isso para mim é o charme da história. Não, o que me incomodou foi o conflito. Não há conflito na história. Não há um momento em que o leitor pare e diga “ah, agora começa a ação”. Não, o livro inteiro é arrastado e segue sempre o mesmo ritmo lento e agoniante. Os capítulos longos também não ajudam muito neste quesito.

Olhando de cima, agora que terminei a leitura, talvez seja até possível afirmar que o livro inteiro é o conflito. Em certo sentido é mesmo. A luta de Imp de exorcizar seus fantasmas na forma de memórias e se livrar do peso delas. Por esse motivo, acredito que este livro não é para qualquer um. Não é todo mundo que irá apreciá-lo.

Nas palavras da própria autora:

Este livro é o que é, o que significa que ele pode não ser o livro que você espera que seja.

O que me encantou, porém, foi o simbolismo do texto, como já disse. A carga simbólica de sua alegorias é genial. Não consigo e nem irei enumerar todas as associações figurativas que Caitlín fez em sua obra. Gostei muito mesmo de suas metáforas. As referências também são muitas, desde Lovecraf até Lewis Caroll. A maneira como a autora conduziu a história é fascinante. Ela nos joga em uma espiral psicológica difícil de sair e você mergulha dentro da mente insana de India de uma maneira incrível. É quase como se soubéssemos que estamos enlouquecendo junto com ela. Há sempre um canto de sereia que nos leva ao naufrágio.

O que mais tememos não é o conhecido. O conhecido, por mais horrível ou prejudicial à existência, é algo que podemos compreender. Sempre podemos reagir ao conhecido. Podemos traçar planos contra ele. Podemos aprender suas fraquezas e derrotá-lo. Podemos nos recuperar de seus ataques. Uma coisa tão simples quanto uma bala poderia ser suficiente. Mas o desconhecido desliza através de nossos dedos, tão insubstancial quanto o nevoeiro.

Outro ponto interessante e importante é o relacionamento de Imp com sua namorada. Abalyn é transexual e esse tema é explorado muito bem no livro. É inserido de maneira leve, mas profunda. Está nas entrelinhas, nas suavidade das palavras, na sutileza das comparações figuradas (a parte em que Abalyn descreve seu sonho foi uma das minhas favoritas). A autora nos mostra um relacionamento maduro entre as duas. O que me incomodou um pouco foi o fato de o relacionamento ter acontecido muito rápido, e para mim pareceu um pouquinho irreal. Mas no geral eu gostei do casal. E os melhores diálogos são entre elas. Percebo agora que o livro na verdade não tem muitos diálogos e a forma como eles são postos me incomodou um pouco; mas eles são bons mesmo assim.

A autora não apenas se preocupou em construir suas personagens (muito bem construídas, por sinal), como devotou um tempo arquitetando o próprio universo do livro. Ela mesclou elementos de nossa realidade como a conhecemos com elementos saídos de sua imaginação fantasiosa. O elemento mais importante, sem dúvidas, é o quadro A menina submersa, pintado por Phillip George Saltonstall, em 1898. Essa foi a obra que Imp vislumbrou quando visitou um museu aos 11 anos e cuja lembrança se fixou como um fantasma em sua memória enevoada. Ela descreve com tal riqueza de detalhes a tela e cita informações relevantes sobre a vida do artista como tanta propriedade que chegamos mesmo a acreditar que aquilo tudo realmente existe. Mas não existe. Tanto a obra quanto o artista são criações da autora.

Existe sim um quadro chamado  The Drowning Girl, assinado por Michael Zulli. Pintado em 2011, o artista americano (que já inclusive trabalhou com Niel Gaiman em Sandman) usou sua arte para dar vida à tela que tanto assombrou a mente de Imp. Eis o resultado:

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The Drowning Girl, by Michael Zulli (ou Phillip Saltonstall), 2011 (ou 1898)

 

Além deste, há também The Girl on a River, do mesmo artista (Saltonstall ou Zulli, à escolha) que também é citado no livro.

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The Girl on a River, by Michael Zulli (ou Phillip Saltonstall)

Esses dois quadros tem relação direta com a história de Imp e Eva (a primeira, a de Julho). Tem a ver com sereias. Já com respeito à segunda Eva (a de Novembro), o tema lobo é mais relevante. E um segundo artista é mencionado como fonte dos horrores que tiram o sono da protagonista. Trata-se do quadro Fecunda Ratis, de Albert Perrault, ambos fictícios. O artista (real) Matthew Jaffe também deu vida à obra imaginária em uma gravura de uma das edições do livro.

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Fecunda Ratis, by Matthew Jaffe (ou Albert Perrault)

Bem, olhando para este quadros não é difícil de imaginar porque Imp se sentiu assombrada por eles.

 

Juro que estou acabando esta resenha, que levou alguns dias para ser finalizada. Preciso acabá-la hoje, ou sinto que jamais terminarei. Só quero lembrar outro aspecto do livro: ele é feito em camadas, digamos assim. É como se fosse uma história dentro de outra história. Há pelo menos duas vozes de narrador (de Imp e de Caitlín) e às vezes não ficava claro quem estava falando. Mas dá para notar que são duas vozes (“Imp datilografou. Eu também datilografei”). Além disso, dentro dos livros há dois contos escritos por India Morgan Phelps (A Sereia do Oceano de Concreto e O Sorriso do Lobisomem). Gostei mais do primeiro, mas ambos são bons por si só, mesmo desconsiderando todo o contexto da história do livro (mas claro, só dá para apreciá-los por completo se levarmos em conta o contexto).

 

Considerações finais: A menina submersa é uma leitura diferente. É um livro que vai te arrancar de sua zona de conforto e te jogar bruscamente dentro de uma mente insana e uma narrativa psicodélica e te fará mergulhar em um mundo sombrio cheio de simbolismos. Mas no final terá valido à pena. Como já disse, não é um livro para todos. Não direi que gostei de todos os aspectos do livro. O texto é confuso demais e já comentei sobre o conflito da trama. Mas se você aprecia histórias repletas de simbolismo ou narrativas psicodélicas ou procura por algo diferente, eu recomendo este livro.

 

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3 comentários sobre “[Resenha] A Menina Submersa

  1. O livro parece ser realmente interessante, gosto de tramas em que o psicológico do personagem é o foco. Mas parece o tipo de livro para ler com a mente descansada, em um fim de semana prolongado ou nas férias. Não é uma leitura de ônibus ou que faz descansar a cabeça depois de um longo dia. Ainda assim, fiquei muitíssimo interessada.

    Curtido por 1 pessoa

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