[Conto] Quarenta e dois

Olá, pessoal! Hoje trago a você um conto que escrevi ano passado, a pedido da galera do Clube de Autores de Fantasia. Isso foi por ocasião do Dia da Toalha, que queríamos comemorar em grande estilo. Entre outras coisas, rolou este conto, o qual me diverti muito escrevendo. Ele foi postado originalmente no site do CAF e depois no Wattpad. Mas como meu amigo Ariel Ayres (um grande fã de Adams) nunca o leu, resolvi revisá-lo (a revisão estava horrível) e postar aqui no blog. Agora não tem desculpa para não lê-lo, Ariel.

Bem, é isso. Espero que gostem. Ah, aviso logo que vai ser textão (7.467 palavras). Apertem os cintos, pois vamos ligar nosso motor de improbabilidade infinita.

Quarenta e dois

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Encontro marcado, no Milliways

Existe uma teoria que diz que se uma dia alguém descobrir exatamente para que serve o Universo, e porque ele está aqui, ele desaparecerá instantaneamente e será substituído por algo ainda mais estranho e inexplicável. Existe uma segunda teoria que diz que isso já aconteceu.

E existe ainda uma terceira teoria, defendida por um jovem físico da conceituada Universidade de Maximegalon, que diz que isso acontece toda quinta-feira, na hora do almoço.

Não que a hora do almoço seja um conceito absoluto. Na verdade, a hora do almoço é algo tão irreal e mutável quando a inflação ou a dívida externa. O que realmente importa, e os Frades Almoçadores de Voondon já sabiam disso, não é quando mas onde o almoço é feito. Estudiosos do Departamento de Cybercultura, Desing Exterior e Retropsicologia Reversa da Universidade de Maximegalon, após anos de estudos de campo pesados e sérios feitos em festas nas casas de praia de Santraginus V regadas à Dinamite Pangalática, chegaram à conclusão de que:

a) Do ponto de vista puramente fisiológico, filosófico, sociológico ou metafísico, não interessa quando a refeição é feita desde que

b) Seja feita em restaurantes ricamente decorados, com garçons-robôs altamente educados e com direito à um showzinho de cortesia.

Thienk Sharkubyvizt evidentemente estava a par disto e por isso mesmo estava apreciando sua refeição – a qual, meia hora atrás, havia praticamente implorado para comê-la – no Milliways, o Restaurante no Fim do Universo. Nas temporadas passadas, o espetáculo costumava ser apresentado por uma figura excêntrica que atendia pelo nome de Max Quordlepleen, mas ele se aposentou depois de um incidente envolvendo o Grande Profeta Zarquon e resolveu dedicar o resto de sua vida ao artesanato. Ele tivera de ser substituído por um grandalhão ainda mais excêntrico, que vestia umas roupas espalhafatosas e ostentava um topete fora de moda. Este se autodenominava “O Rei”.

– É isso aí, gente. Estamos prestes a presenciar o fim derradeiro, o término de todo o universo e toda a existência, mas para que se estressar? Deixa fluir!

Thienk estava deixando fluir, apreciando sua refeição. Um garçom-robô montado em um monociclo se aproximou de sua mesa. Trazia uma bandeja cheia de garrafas e taças, a qual tentava equilibrar enquanto oscilava de um lado para o outro em cima daquele estranho veículo.

– Deseja alguma bebida, nobre cavaleiro? Temos uma variedade muito grande delas. Se quiser algo para explodir sua cabeça, nosso bartender prepara a melhor dinamite pangalática de todo o universo. – Sua voz metálica era irritantemente polida. – Ou se quiser algo menos forte, eu sugiro aguardente Janx.

Alguém na mesa ao lado gritou:

– Ah, não me dê mais dessa Aguardente Janx!

Mas Thienk não se importava com isso. Olhou para o robô-garçom-malabarista por debaixo de seus óculos escuros e falou entre dentes:

– Quero apenas água sem gás.

Os olhos azuis do robô piscaram, como se não houve compreendido a mensagem, como se o nobre cavaleiro sentado à sua frente tivesse perdido a sanidade ou algo assim. Quem, em sã consciência, preferiria beber água sem gás quando se pode tomar dinamite pangalática e explodir a cabeça?

– Perdão, senhor?

– Água sem gás – ele repetiu.

– Com todo prazer, senhor. Vou ter que buscar na cozinha.

E saiu. Retornou, logo depois, trazendo uma garrafa de água sem gás.

– Aprecie sua bebida, senhor – falou como se isso não fosse possível. Quem, por Zárquon, apreciaria uma simples água sem gás?

Em trinta minutos o universo como o conhecemos chegaria ao fim. O apresentador brindava a todos com uma canção lamuriosamente brega.

Mas eu não posso evitar de me apaixonar por você – ele cantava com sua voz de locutor de um desses programa de rádio que passam na madrugada.

Thienk não se importava. E os outros cliente na verdade nem desconfiavam de que aquele homem vestido um terno preto listrado feito sob medida, de óculos escuros, cabelo cheio de gel, sentado sozinho, no canto do restaurante, com uma maleta recostada na mesa, era na verdade um Agente Ultra-Secreto do Serviço de Espionagem da Associação Galáctica. Uma agência tão secreta que ninguém jamais ouvira falar dela.

Faltando apenas vinte minutos para o fim derradeiro do universo, uma mulher que também se vestia de uma maneira que não faria ninguém desconfiar que era uma agente ultra-secreta, sentou na mesa de Thienk. Seu nome era Amélev Vluskarvj e ela iniciou a conversa:

– Temos um novo serviço para você.

Thienk fitou-a por trás de seus óculos escuros, tomou um gole de sua água sem gás e depois perguntou:

–Para onde eu vou?

– Um planeta insignificante, nos confins inexplorados da região mais brega da Borda Ocidental da Galáxia. Um pálido ponto azul, praticamente inofensivo.

– Praticamente inofensivo?

– Sim. Os habitantes de lá ainda acham que relógios digitais são uma grande ideia.

Os dois riram, como se aquela fosse a piada mais engraçada do universo. Alguns clientes olharam desconfiados, mas depois voltaram suas atenções novamente para o Rei. Ele agora cantava uma música ainda mais brega que a primeira:

Você estará sempre em minha mente

– Qual o alvo?

Amélev abriu sua maleta super-discreta de agente ultra-secreto e retirou alguns papéis. Dentre eles havia a foto de um dos habitantes desse insignificante planeta.

– Seu nome é Douglas Noël Adams. Ele é um estudante em uma universidade local.

– Ele não parece ser perigoso. Na verdade, parece inofensivo.

– O problema – ela disse, compassadamente – é que o Sr. Adams vive em um universo na qual se sabe a Pergunta.

– E qual o problema?

– Ele é uma singularidade. Ele sabe a Resposta.

Aquilo era uma informação importante. Aquilo mudava tudo. Como todos sabem, não pode haver um universo no qual se conheça, ao mesmo tempo, a Pergunta e a Resposta. Se as duas um dia se encontrarem seria um caos.

– Considere feito – Thienk respondeu.

– Ótimo.

Ela foi embora. Thienk tomou mais um gole de sua água sem gás e também saiu.

– Ei, veja aqueles dois ali. Parecem dois Agentes Ultra-Secretos do Serviço de Espionagem da Associação Galáctica – disse uma iguana.

– É – respondeu uma segunda iguana. – Acha que devemos avisar aos Caçadores?

No palco, o Rei cantava uma versão acústica de Love me Tender.

Quinta-feira fatídica, em um pub inglês

Como qualquer pessoa minimamente informada sabe, o universo é na verdade um amontoado de universos conectados uns aos outros, num conjunto conhecido pelo nome técnico e altamente sugestivo de Mistureba Generalizada de Todas as Coisas (MGTC, para os íntimos). Nessa mistureba de universos, todas as infinitas possibilidades se aglutinam sob um único véu da verdade e, por mais improvável que seja um evento, certamente existe uma versão do universo na qual ele aconteceu.

Muitos não compreendem isso, mas realmente não se pode esperar que qualquer ser abaixo do nível Deus Avançado entenda toda a abrangência do conceito. Entretanto, os mais céticos e puritanos duvidavam piamente da veracidade desta teoria. Alguns dos mais proeminentes caluniadores dela chegaram a organizar um workshop em um luxuoso planeta-hotel a fim de discutir o tema. Após sete dias de debates, chegaram à conclusão de que a teoria era falha. Eles elaboraram um relatório de três mil páginas dissertando sobre o assunto. O principal argumento era de que é impossível que exista um universo na qual uma história de um romance adolescente com vampiros que brilham no sol se torne um best-seller.

Eles não poderiam estar mais enganados.

É nesta versão particular do universo, num pequeno planeta no canto mais brega da borda ocidental da galáxia, que um jovem calouro da Universidade de Cambridge (não tão famosa quanto a Universidade de Maximegalon) estava bebendo em um pub local. Este jovem atendia pelo nome de Douglas Adams e ele sabia a Resposta, embora não soubesse que soubesse. Mas descobriria isso em instantes. Era uma quinta-feira perto da hora do chá e Procol Harum tocava na jukebox.

Douglas não estava atento a isso, mas o que ele imaginava ser um inseto voador era na verdade um micro-robô espião, observando seu alvo. E o que parecia ser um grande caminhão de mudanças estacionado a três quadras dali, era na verdade uma central de inteligência e rastreamento. Uma ruiva observava atentamente pelo monitor as imagens transmitidas pele micro-robô espião, enquanto comia um cachorro-quente tamanho família. Havia pouco espaço no caminhão, por causa do equipamentos, mas principalmente por causa de Héctor, que era bem grande, e de Rex, que era ainda maior.

As coisas estavam bem tranquilas – no melhor estilo inglês de ser – até que algo no monitor chamou atenção da ruiva.

– Héctor, prepare-se para a ação – ela disse.

Todo aconteceu muito rápido – ou pelo menos para os padrões ingleses.

Um homem alto e estranho entrou no pub. Entrou sem causar grande estardalhaço, mas fora muito bem notado pelos presentes. Douglas não soube o que lhe chamou mais atenção: a cor azul-pálida de sua pele ou seu ridículo terno listrado fora de moda. Não houve, entretanto, nenhuma reação de pânico. Estava tudo fluindo muito bem.

– Ei, amigo! Perdeu a convenção? – gritou um dos clientes, que desatou a rir.

O Sr. Azulado não deu a menor importância para isso. Passou rapidamente a vista pelo recinto e achou quem procurava.

Como todos sabem, existem bilhões de idiomas falados em todas as versões do universo e comunicação foi sempre um problemas para as bilhões de civilizações que falam esses bilhões de idiomas. A coisa toda foi basicamente resolvida depois da descoberta do peixe-babel. Todos ficaram muito felizes com isso, excetos os tradutores instantâneos, que perderam sua utilidade. Isso causou grandes problemas para a Receita Intergaláctica, que agora tinha bilhões de desempregados reclamando sua aposentadoria.

Na época o Presidente da Galáxia (que era apenas uma fachada para o verdadeiro poder) teve uma ideia para contornar a situação. Ele mandou trazer do futuro uma famosa banda chamada Desaster Area e convocou uma reunião com todos os tradutores desempregados em um gigantesco planeta. O Presidente fez um discurso emocionante sobre a importância do trabalho deles e lhes garantiu que estava trabalhando em uma solução razoável para ambas as partes. Como prova de sua generosidade, ele disse que lhe proporcionaria o maior espetáculo musical de todos os tempos.

Então o Presidente fugiu apressado do planeta e o show começou. Depois disso, não houve mais reclamações por parte dos tradutores desempregados. E a Era dos Peixe-Babel começou. Hoje é possível comprar um por apenas 1 dólar altariano e desfrutar de todos os bilhões de idiomas do universo. Mas para quem não possui um peixe-babel, os idiomas alienígenas podem soar um tanto estranhos e mesmo algumas coincidências fonéticas podem acontecer. Para o azar de Douglas, nenhuma loja na terra vendia o tal peixe.

– Ph’nglui mglw’nafh Adams wgah’nagl fhtagn – disse o estranho, apontando para Douglas.

Ele, é claro, não entendeu nada. O estranho Sr. Azulado aproximou-se a passos rápidos, tirando do bolso de seu terno algo que parecia ser um saquinho com um peixe dentro dele. Ele retirou-o, segurando-o em sua mão, depois com um gesto rápido levou a mão ao ouvido de Douglas que teve a sensação nada agradável de ter um peixe se contorcendo dentro de seu ouvido.

– Ei! O que está fazendo?!

– Não importa – respondeu o estranho. – Consegue me entender agora? – Sim, ele entendia. Estranhamente ele entendia. – Sr. Adams, preciso que me acompanhe. Tenho algumas perguntas a lhe fazer.

– Perguntas?

– Sim. A Pergunta. E tenho motivos para acreditar que você sabe a Resposta.

– Escuta aqui, Sr. Terno Listrado, não sei do que está falando. Acho que prefiro ficar aqui tomando minha cerveja. E tenho um relatório da faculdade para entregar na próxima segunda-feira. Ainda tenho que começa-lo.

O Sr. Azulado aguardou seu braço.

– Não há tempo para isso, Sr. Adams! Me responda, você sabe a Resposta?

– Resposta? Que Resposta? Será que dá para você soltar meu braço. Está me machucando.

Apesar disso, não havia pânico. O bartender aproximou-se e interferiu polidamente, com aquela voz mansa que só os bartenders sabem simular.

– Acho melhor deixar o garoto em paz, cara.

O Sr. Terno Listrado sacou uma ainda mais estranha pistola do bolso do terno. Apontou para o bartender. Apesar disso, não houve pânico.

– Não interfira, terráqueo.

E disparou um curto raio azul. No instante seguinte o bartender estava flutuando acima do balcão, como um balão de hélio. Ainda assim, nem sinal de pânico.

– Uaau! Deus salve a Rainha! – exclamou em êxtase. Parecia chapado – Estou voando!

As outras pessoas do bar simplesmente olhavam abestalhadas para o homem que subia e subia até atingir o teto. Não havia pânico, porque, embora elas não soubessem, o Sr. Azulado tinha um dispositivo eletrônico que emitia pulsos bio-magnéticos que as fazia entrar em um estado de paz induzida. Em outras palavras: sem pânico. O próprio Douglas olhava com cara de idiota o pobre homem que parecia dançar pelo telhado cantando o hino do Manchester United, quando o Sr. Terno Fora de Moda o puxou pelo braço novamente.

– Hora de irmos.

– Não, espere!

Neste momento, um cyborg mexicano entrou no pub, gritando “Hasta la vista, baby!”. E começou a disparar.

Então houve pânico.

Os caçadores exploradores intergalácticos

Douglas teve pouco tempo para compreender o que se passava. Num instante estava tudo bem, e no outro um robô de uns dois metros de altura, usando um sombrero e um poncho, estava atirando nele. Na verdade, ele estava atirando no Sr. Azulado, mas dada sua proximidade com este, não fazia muita diferença. Por sorte, todas as balas foram paradas por algum tipo de campo de força. Mas para ativar o campo de proteção, o campo bio-magnético de paz teve de ser desativado automaticamente para poupar a bateria. As pessoas agora corriam em pânico – exceto, é claro, o garçom que continuava sua exploração pelo teto, cantando uma versão desafinada de Le nozze di Figaro.

O Sr. Azulado atirou com sua pistola anti-gravidade no robô muchacho e este começou a flutuar, e seu sombrero foi levado pelo vento. Porém, o cyborg também conseguiu atingi-lo de raspão, e ele caiu no chão, soltando seu refém.

Douglas aproveitou a deixa e fez o que todos, exceto o homem-balão no teto, estavam fazendo: fugiu. Correu pela rua feito um louco – mas sem perder a compostura, como todo bom inglês. Quase foi atropelado duas vezes. Um feixe azulado passou raspando por ele. Olhou para trás e constatou que o Sr. Terno Fora de Moda o perseguia e agora estava atirando. Outro feixe, e este quase o atingiu. Então seu perseguidor quase foi atropelado. Isso lhe deu tempo para ganhar uma vantagem. Douglas virou a esquina e quase morreu de susto.

Em sua direção vinha uma mulher que parecia uma elfa saída do Senhor dos Anéis. Era ruiva, de profundos olhos verdes e tinha orelhas pontudas. Era até uma bela visão, e Douglas achou que seria até uma visão bem vinda, não fosse o fato de que ela vinha em sua direção montada em algo que parecia ser velociraptor. Ela parou ao seu lado e estendeu a mão.

– Venha comigo se quiser viver!

Douglas ficou sem reação. Aquilo era ação demais para um único dia.

– O quê?! O que está acontecendo?!

Outro raio azul passou de raspão pela sua cabeça.

– Não há tempo para explicações. Suba no dinossauro – a ruiva gritou.

Ele subiu.

De algum modo o Sr. Terno Listrado conseguiu roubar uma motocicleta e agora uma inusitada perseguição acontecia pelas ruas e avenidas de Cambridge. Não é todo dia que se vê uma elfa e um legítimo britânico montados em um dinossauro sendo perseguidos por um cara azul numa moto. Este continuava tentando atingi-los com seus raios azuis, mas errava todos. Eventualmente estes raios atingiam transeuntes ocasionais, que deixavam de ser transeuntes que andam pelo chão para se tornarem transeuntes que flutuam pelos ares, enquanto ficavam altos como se tivessem tomado LSD.

– Hoje deve ser quinta-feira. Detesto as quintas-feiras – Douglas queixou-se.

– Cale a boca e jogue isso – a elfa falou, tirando da bolsa um objeto que parecia uma caixa com um fone.

– O que é isso?

– É uma Bomba Gangnam Style. Héctor prefere a Bomba Macarena, mas esta é mais eficiente. Agora jogue isso naquele cara azul que está atirando em nós – ela ordenou aos gritos.

Douglas quis perguntar quem era Héctor ou o que era Gangnam Style, mas realmente não tinha tempo para isso. Virou-se e atirou a caixa na direção do cara com a pistola. A caixa explodiu em luz e som assim que o Sr. Azulado passou por ela e Douglas fechou os olhos. Ele começou a ouvir uma estranha música eletrônica cantada no que parecia ser japonês. Quando abriu os olhos, todos os transeuntes – até mesmo os que estavam flutuando – juntamente com o Sr. Azulado estavam executando uma coreografia um tanto cômica. Pareciam imitar cowboys girando um laço imaginário.

– Definitivamente, detesto as quintas-feiras.

A inusitada dupla chegou em um campo aberto.

– Chegamos – disse a ruiva.

– Mas não há nada aqui!

De fato, não havia nada além de grama em um raio de pelo menos dois quilômetros, mas a realidade é apenas uma questão de percepção. Só vemos aquilo que queremos ver.

– A minha nave está logo ali – ela disse, apontando para o meio do nada.

Douglas forçou a vista.

– Não vejo nada.

A alienígena que parecia uma elfa sorriu.

– Este é exatamente o ponto. A nave está protegida por um campo POP.

– Um campo o quê?

– Um campo POP. Problema de Outra Pessoa. Vamos, não há tempo para explicações.

Avançou rapidamente pelo campo. Douglas ficou parado algum tempo, sem reação. O dinossauro fungou em seu cangote e ele deu um salto para frente, de susto. A elfa riu.

– Acho que ele gostou de você.

E seguiu adiante. Douglas também seguiu, vendo que não havia outra opção.

Ao se aproximarem, o campo POP foi desativado revelando a nave.

– Uau! – Douglas exclamou. E depois, como se fosse preciso reforçar a ideia, disse novamente – Uau!

– Chama-se Coração de Ouro II. Eu peguei emprestada do meu tio.

Entraram na nave. Encaminharam-se para a ponte de comando, com o dinossauro atrás.

– Olha, obrigado pelo passeio de dinossauro e por ter salvo a minha vida, – ele disse – mas eu ainda quero muito saber o que está acontecendo aqui. A começar pelo seu nome.

– Meu nome Gilly. E este ai ao seu lado é o Rex – disse, apontando para o dinossauro. – Venha, vou lhe apresentar os outros.

Chegaram na ponte de comando. Havia mais dois sujeitos igualmente estranhos. Havia um velho com aparência humana, mas com a barba branca tão grande que parecia o Gandalf, o Cinzento. O outro era definitivamente humano, mas se vestia como um caçador de recompensas, daqueles que matam androides e sonham em ter uma ovelha real.

Gilly fez as apresentações:

– Jharmitvakz, mas nós o chamamos simplesmente de Velho. E Johnny, o Mercenário. Há também Héctor, o cyborg. Você o conheceu no pub. Ele deve estar voltando agora. Somos os Caçadores Exploradores Intergalácticos – concluiu com orgulho.

– Foi por este cara de pastel que arriscamos nossas vidas? – disparou Jhonny.

– Ele não é um cara qualquer. Ele sabe a Resposta. Precisamos levá-lo para um lugar seguro. – Virou-se para Douglas – Não se incomode, ele tem esse jeito chato mesmo.

– OK. Vamos partir imediatamente – Jhonny disse.

– Não! Precisamos esperar Héctor voltar – ela retrucou.

– Por mim, deixaríamos essa lata-velha nesta planeta fodido.

Mas esperaram mesmo assim. Héctor voltou em menos de dois minutos.

– Desculpem a demora. Mas eu tive que procurar meu sombrero – explicou, com sua voz metálica.

Então partiram.

– Toma! – Gilly falou a Douglas, jogando um objeto retangular. – Vai te ajudar a entender as coisas. Ai tem as respostas para as suas dúvidas – Fez uma pausa, franzindo o cenho. – Ou pelo menos para quase todas elas.

Douglas observou o objeto. Parecia um livro. Havia a frase “Não entre em pânico” escrito em letras garrafais. Gostou dessa parte. Mas quando ele o abriu, parecia a tela de um computador.

– O que é isso?

– É o Guia do Mochileiro das Galáxias. Basta apertar este botão aqui. Pronto. Agora é só pesquisar o termo que quiser. Ah, outra coisa. Não temos muitos quatros disponíveis, então você terá que dividir um cubículo com o Rex.

– Com o dinossauro?!!

– Não se preocupe. Ele não morde.

Douglas duvidava dessa parte.

– OK. Mas ainda não entendo o que está acontecendo por aqui. Por que aquele cara azul estava atrás de mim?

Ela explicou:

– O nome dele é Thienk Sharkubyvizt. Ele é um Agente Ultra-Secreto do Serviço de Espionagem da Associação Galáctica. Ele está a sua procura por que você sabe a Resposta para a Pergunta. Fomos contratados para leva-lo para um universo alternativo onde ninguém saiba qual a Pergunta.

– Não estou entendendo nada. Não sei qual é essa Pergunta da qual tanto falam. E quem contratou vocês?

– Ora, o Presidente da Galáxia. Quem mais seria? – ela disse, levantando os braços.

Uma voz foi ouvida nos autofalantes da nave. Era a voz do Velho:

– Estamos prontos para ativar o motor de improbabilidade infinita. Preparem-se.

Toda a realidade se contorceu e perdeu o sentido, e todas as possibilidades colapsaram em um único ponto. Quando tudo voltou ao normal, estavam do outro lado da galáxia.

Douglas passou o resto da viagem lendo o Guia e aprendendo sobre as maravilhas e estranhezas do universo. Por fim, resolveu dormir. Ou tentou dormir. A presença do dinossauro no quarto incomodava-o em um nível mais que psicológico. Tentou convencer-se de que aquilo não passava de um sonho maluco ou alguma alucinação causada pela cerveja. Sim, tentou acreditar que aquilo era algum tipo de alucinação, que ele adormecia e que tudo estaria magicamente explicado quando acordasse. Sim, quando ele acordasse estaria deitado confortavelmente em sua cama, o dinossauro não mais estaria lá e ele teria certeza de que tivera uma alucinação. Adormeceu com este pensamento e estranhamente sonhou com Gilly. Foi um sonho bom.

Confronto no espaço, ao som de Jimi Hendrix

Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá. Suspirou, decepcionado.

Foi para a ponte de comando e chegou perguntando:

– Alguém sabe onde posso conseguir chá?

Todos estavam debruçados sob os controles, observando as telas.

– O que aconteceu? Há algo de errado?

– Problemas – Gilly respondeu, em tom seco. – Sabe aquele pessoal que estava atrás de você? Pois bem, eles trouxeram a cavalaria.

Douglas vislumbrou as imagens nos monitores. Uma dúzia de naves espaciais estava em rota de colisão com a Coração de Ouro II. O Velho olhou para o mercenário:

– Jhonny?

– Nem precisa dizer duas vezes. – Virou-se para Héctor e disse – Vamos, hermano. É hora do show.

O mercenário e o cyborg correram para a ponte de lançamento e cada um deles entrou e uma nave que pareciam caças de guerra.

– Ei, velho. Abra a escotilha – gritou Jhonny, pelo rádio.

O cara barbudo de nome impronunciável apertou um grande botão vermelho e a escotilha foi aberta, lançando os dois caças no espaço. Douglas estava nervoso.

Ainda deve ser quinta-feira, pensou.

Virou-se para Gilly:

– O que eu faço?

– Dê de comer ao Rex. Ele fica com fome quando está nervoso.

Douglas piscou, incrédulo. Pensou em dizer “E eu? O que eu faço quando estou nervoso?” Mas desistiu. Por fim, virou-se e saiu.

– Eu preciso urgentemente de um chá – ele resmungou.

Da ponte de comando da frota inimiga, Amélev coordenava tudo.

Se quiser fazer algo bem feito, ela pensou, faça você mesma.

Pelos monitores, ela observava a aproximação de dois pequenos caças, saídos da Coração de Ouro II.

– São muito tolos se pensam que vão derrotar doze caças com apenas dois. – murmurou para si mesma. Virou-se para seu imediato e deu as ordens – Capitão! Abrir fogo!

Então o show começou.

– Gilly? Consegue hackear o sistema deles? – Jhonny perguntou, pelo rádio.

– Não há nenhum sistema que eu não consiga hackear, baby. Já estou dentro.

– Então pode começar com a interferência!

Em todos os canais de comunicação das naves inimigas começou a tocar “All along the wathtower”, na versão do Jimmy Hendrix.

– Por Zarquon! Mas que música é essa?! – Queixou-se Amélev.

– Comandante, alguém está interferindo em nossas comunicações. Requisito ordens – disse um dos líderes de esquadrão, mas é claro, a comandante não ouviu.

Os caças inimigos ficaram confusos e quebraram a formação. Começaram a atacar aleatoriamente, disparando raios laser em todas as direções. Jhonny e Héctor desviavam com maestria do ataques, penetrando cada vez mais no flanco inimigo.

– Acionando os canhões de raio de improbabilidade – Jhonny informou à Gilly. Héctor fazia o mesmo. – Estaremos prontos em 3, 2, 1… Héctor, disparar!

Os dois caças começaram a disparar estranhos e difusos raios cor-de-rosa contra as naves inimigas. Quando eram atingidas, estas se contorciam loucamente no tecido da realidade e então se transformavam em algo totalmente aleatório. A primeira se transformou em uma banana-split gigante. A segunda foi substituída por um guarda-chuva. Uma terceira virou uma cafeteira e uma quarta passou a ser um bule de chá voador. A quinta tentou uma manobra evasiva, mas foi atingida mesmo assim e transformou-se em um monstro em forma de spaguetti, com as almôndegas inclusas.

– Lider vermelho, deve haver um meio de sairmos daqui. Há muita confusão aqui – gritou o líder azul por cima da música.

– Não há nenhuma razão para ficar excitado, líder azul… – Mas a comunicação foi cortada quando o caça do líder vermelho transformou-se em trator amarelo.

Agora os caças restantes estavam batendo em retirada, voltado para a nave mãe. Esta, entretanto, estava muito ocupada executando sua própria fuga. Mas não foi rápida o suficiente. Jhonny estava em seu encalço, enquanto Héctor cuidava dos últimos caças, transformando-os em coisas aleatórias. Surgiram um salame, uma cabine de telefone, um sanduiche (feito de carne de Bestas Perfeitamente Normais), um DeLorean, um vogon (que recitou uma poesia por trinta segundos, antes de sufocar) e um colchão falante. Por fim, Jhonny alcançou a nave-base e disparou o terrível raio cor-de-rosa.

– Oh, não! – foi a última coisa que Amélev disse antes de virar um vaso de petúnias.

– Urrú! É nós que voa, bruxão! – Jhonny comemorou.

– Missão cumprida – relatou Héctor em sua voz robótica.

– Bom trabalho, rapazes! – disse Gilly, pelo rádio.

Neste momento, Douglas retornou a ponte de comando, com o pé esquerdo descalço:

– Gilly, o dinossauro comeu o meu sapato – foi tudo que disse.

Parada estratégica em Maximegalon

O restante da viagem foi tranquilo. Usaram novamente o motor de improbabilidade infinita e depois viajaram em velocidade sub-luz por dois dias. Gilly, que tinha excelentes dotes culinários, resolveu preparar uma refeição especial, tipicamente terráquea: peixe frito. Foi bem simples, mas Douglas sentiu-se bem comendo algo conhecido.

– Obrigado pelos peixes – ele agradeceu.

Nas horas vagas – que eram muitas – ele lia o Guia e quando não entendia algum conceito, Gilly estava sempre lá para lhe explicar. O universo era realmente fascinante.

– Aonde estamos indo, afinal? – ele perguntou, em certo momento.

– Estamos indo para o planeta Maximegalon.

– O mesmo daquela famosa Universidade?

– Este mesmo. Mas não vamos fazer uma visita a ela. Precisamos levá-lo para outro universo paralelo, um no qual não se saiba qual é a Pergunta. Assim, você pode viver tranquilo com a Resposta.

– Eu já lhe disse várias vezes, eu não sei qual é essa Resposta da qual estão falando.

– Ah, você sabe sim. Só não sabe que sabe. Mas enfim, não é tão simples assim viajar através da Mistureba Generalizada de Todas as Coisas. É preciso uma nave com um motor especial. Vamos arranjar uma neste planeta.

– Ah!

Pousaram no espaço-porto. A equipe de solo – Gilly, Héctor e Douglas – desceu. Para seu alivio, o dinossauro ficou na nave, junto com o Velho e Jhonny. O espaço-porto ficava em cima de uma grande torre flutuante. Eles desceram direto para o primeiro andar, onde ficava um lugar chamado Bar da Alvorada. Gilly levava uma maleta preta.

– Pessoas de todos os universos e tempos veem até aqui para se encontrarem – ela explicou. – Se há um lugar onde podemos encontrar uma nave para sairmos deste universo em particular, é aqui.

Mas que lugar mais estranho, cheio de criaturas estranhas, Douglas pensou. Depois mudou de ideia. Não, para eles, eu é que sou o estranho.

Havia um sujeito que parecia um besouro barbado sentado no canto. Ele estava reclamando de sua vida para um sujeito de capuz:

– Então o maldito Jedi tomou o meu escravo.

– Aquele que se chamava Anakin?

– Esse mesmo. Aquele era um garoto prodígio!

Do outro lado, havia duas iguanas. Uma delas apontou para Douglas:

– Olha só, aquele sujeito estranho.

– A vida é um troço estranho – respondeu a segunda iguana.

– Vamos, Douglas! Não podemos perder muito tempo aqui. – Gilly o arrastou pelo braço.

– Vida longa e próspera! – disse um cara orelhudo em outra mesa, propondo um brinde. Douglas tinha a impressão que já o vira em algum lugar, mas não lembrava de onde.

– Assim dizemos todos! – respondeu um sujeito que parecia o comandante de alguma nave.

Foram até uma mesa onde havia um sujeito alto, magro e esverdeado. Gilly tomou a frente da conversa.

– Então, Wowbagger. Conseguiu o que eu lhe pedi?

Ele sorriu.

– Foi tão fácil quanto enganar uma Besta Voraz de Traal. – Apontou para Douglas – É este o terráqueo idiota?

– Sim, é ele. Agora, vai me arranjar o Módulo de Desdobramento de Tessitura ou não?

– Você trouxe que eu lhe pedi?

– Claro.

Wowbagger passou-lhe uma maleta preta. Gilly verificou o conteúdo. O Módulo estava lá. Tudo OK. Ela passou-lhe a sua maleta. Wowbagger verificou o conteúdo. Tudo OK. Fizeram a troca. Depois se separaram.

– O que tinha na sua maleta? – Douglas perguntou, depois que cara verde foi embora.

– Uma Bomba de Hárdrons Hiper-Excitados – ela respondeu em tom casual.

Douglas não entendia realmente de física, mas achava que uma Bomba de Hárdrons Hiper-Excitados poderia fazer um verdadeiro estrago, do tipo que o seguro não cobre.

– Para que ele quer isso?

Ela deu de ombros.

– Ah, você sabe. Ele está apenas tentando se matar. – Fez uma pausa. – Só espero que ele tenha a perspicácia de explodi-la bem longe daqui.

Tiveram que esperar algum tempo, pois o velho precisava instalar o Módulo no motor da Coração de Ouro II e fazer uns ajustes. Gilly e Douglas esperaram no Bar. Ele experimentou uma aguardente Janx, mas não gostou.

– Você não teria um chá por aqui, teria? – perguntou ao garçom.

– Desculpe, senhor, você disse o quê?

– Chá.

– Não conheço esta bebida.

Douglas pensou em perguntar-lhe de que planeta ele veio, mas desistiu. Era óbvio que não era da Terra. Resolveu sair para a varanda, respirar um pouco de ar puro alienígena.

Gilly aproximou-se.

– O Velho disse que terminará em meia hora, e então partiremos para seu novo lar.

Douglas não estava exatamente ansioso para ver seu novo lar. Na verdade, não estava nem um pouco desejoso. Gostava do seu antigo lar, tal como ele era. Gostava de sua vida tal como ela era, mas as coisas sempre mudam sem a nossa permissão.

– Não sei se estou realmente preparado para isso. Sabe essa… essa mudança foi muito rápida.

– Demora mesmo um tempo para se acostumar, mas você acaba se acostumando. Também foi um choque para mim. Meu planeta é pequeno, como o seu, e no geral, não sabemos que existem outros sistemas com vida inteligente. Me senti relutante no começo, mas depois vi o quanto isso é o máximo. – Ela apontou para o céu estrelado – Outros mundos, outras culturas, outra civilizações. Pense em todas as infinitas possibilidades que todos os infinitos universos nos proporcionam. Tantas coisas a serem exploradas, lugares para serem visitados, pessoas novas a conhecer. – Ela parou e sorriu – Apesar de tudo, eu gostei de conhecer você. Você é um cara legal, Douglas. Um dupal mingo.

Douglas estava realmente tocado – ou talvez fosse a friagem. Olhou para o céu e contemplou as luas – Maximegalon era orbitada não por uma, mas por sete luas. Naquela época do ano, era possível ver apenas quatro delas. A prateada era a maior e mais bela e fornecia o cenário perfeito.

– Também gostei de conhecer você, Gilly. Ah, eu nunca agradeci por ter salvo minha vida, então obrigado.

– Não há de quê – ela respondeu.

Seus olhares se cruzaram. Suas mãos se entrelaçaram, timidamente. Houve um sorriso sincero em seus lábios. Seus corpos se aproximaram, as respirações ofegantes. Seus olhos se fecharam, e seus lábios estavam se procurando.

Então a lua prateada explodiu, sem nenhum motivo aparente.

O sistema de contenção quântica

Depois dessa, o clima morreu e o planeta Maximegalon ganhou um novo anel de poeira cósmica. Não é necessário dizer que Wowbagger sobreviveu ao incidente, embora não se possa dizer o mesmo da pequena tripulação de exploradores que estavam em missão cientifica no satélite natural.

Gilly e Douglas voltaram para a nave bem quando o velho acabava de sincronizar o Módulo de Desdobramento de Tessitura aos sistemas da Coração de Ouro II. Todos se reuniram na ponte de comando e ficaram a fitar os novos controles com cara de idiotas. Após um longo momento de silêncio constrangedor, Hector perguntou:

– Muito bem, qual o protocolo?

É claro, ninguém sabia. Houve outro silêncio constrangedor até que o Velho tomou a dianteira.

– Talvez se apertássemos esse botão aqui. – E apertou um botão.

Os painéis acenderam. A voz de um computador disse:

– Este é o computador central do Módulo de Desdobramento de Tessitura. Status: falha no sistema de contenção quântica. Repetindo: falha no sistema de contenção quântica. Digite a senha de administrador em um minuto ou entraremos em modo de autodestruição. Iniciando contagem: 1 minuto para autodestruição. Digite a senha de administrador. Falha no sistema de contenção quântica. 55 segundos para autodestruição. Digite a senha de administrador…

Todos se entreolharam em pânico.

– Como assim falha no sistema de contenção quântica? – Douglas repetiu debilmente.

– Algo deu errado quando você instalou o módulo – Gilly apontou para o Velho.

– Mas eu instalei corretamente – o Velho defendeu-se.

– Tem certeza?

– Sim. Bem, teve aquela peça ali que eu não sabia para que servia.

E indicou uma pequena peça metálica jogada no conto da sala. Gilly correu até ela e virou-se incrédula para o velho.

– Por Zarquon! Este é o fusível de contenção quântica! Como você esqueceu de instalá-lo?!

– Eu pensei que fosse uma peça sobressalente.

Ela olhou como uma mulher em TPM e atirou-se em cima do velho.

– Seu velho idiota! Vamos morrer por causa disso!

– 30 segundos para autodestruição. Digite a senha de administrador. Falha no sistema de contenção quântica…

Jhonny e Douglas andavam de um lado para o outro, nervosos. Hector tentava se comunicar com o computador do Módulo, sem sucesso.

– Por que ninguém digita a droga da senha?! – gritou Douglas.

– Ninguém sabe qual é a senha – Gilly falou. – Acho Wowbagger esqueceu de nos dizer este detalhe.

– Nós temos apenas 15 segundos! – Douglas lembrou-lhes o óbvio. – Você não pode digitar qualquer coisa?

Ela não respondeu.

Douglas correu para os controles. Encarou o teclado.

– 5 segundos para autodestruição.

Digitou a primeira coisa que veio à sua mente: 42.

Apertou enter.

A contagem parou, no último segundo.

Douglas olhou para o espaço, aliviado.

– Deu certo?

– Parece que sim – Gilly respondeu, checando os dados enviados pelo computador. Ela pulou em sua direção de deu-lhe um beijo no rosto. – Douglas, você é um gênio!

– Eu sou? – perguntou com cara de idiota. Depois se recompôs. Um sorriso tomou sua face – Sim. É, sou um gênio.

– O que faremos agora? – Jhonny perguntou.

– Preciso calcular as coordenadas do universo para o qual iremos. Isso levará um tempo – Gilly falou.

Em vinte minutos, o computador calculou as coordenadas do salto.

– Muito bem. Aqui vamos nós.

A ruiva digitou os as coordenadas: 1123 6532 5321. A tessitura da MGTC se contorceu loucamente como uma pessoa tendo uma convulsão. Um redemoinho se abriu na estrutura do espaço-tempo-possibilidade e eles foram sugados por um vórtice insano. Passaram por vários universos paralelos como se passa por água no fundo do oceano. Chegaram no universo designado. Contemplaram a Terra, pelos monitores. Mas aquela não era a Terra de Douglas. Era um versão diferente dela. Seu novo lar.

– Lar doce lar – ele disse, suspirando.

Entraram em órbita.

Nenhum deles percebeu, mas Thienk, também conhecido como Sr. Azulado, estava indo para lá também.

Um deus ex machina maroto

Eles pousaram a nave no mesmo descampado, mas em uma Terra diferente.

– Espere um pouco – disse Douglas. – Se estamos em um universo paralelo, então eu não vou encontrar com uma versão de mim mesmo? Algo ruim não pode acontecer, se eu encontrar comigo mesmo? Tipo, o colapso da galáxia?

Gilly o tranquilizou:

– Não se preocupe. Nós fizemos algumas pesquisas e nos asseguramos de encontrar um universo em que você não tenha nascido.

– Ah!

– Vamos, precisamos comprar algumas coisas.

Foram direto para o centro da cidade e entraram em uma loja de departamento. Precisavam comprar roupas novas para Douglas.

– E toalhas – Gilly completou.

– Toalhas?

– Sim. Você não leu o artigo sobre toalhas no Guia?

Não, não lera. Compraram a toalha.

Eles passaram em uma banca de jornal e Douglas comprou a edição do dia do Times. Mas não houve muito tempo para lê-lo com cuidado. Ele apenas viu uma nota sobre um urso e um leopardo que escaparam do Zoológico Municipal. Foi quando a bomba de fumaça explodiu.

Douglas não conseguia ver absolutamente nada através da densa fumaça cor-de-rosa. Ouviu Gilly gritar:

– Douglas! Onde você está?

– Aqui!

Seus olhos estavam lacrimejando e uma crise de tosse já se iniciava. Douglas pegou a sacola, retirou a toalha e enrolou-a ao redor da sua boca e nariz, para proteger da fumaça. Saiu correndo através daquele véu cor-de-rosa. Pessoas corriam feito loucas em todas as direções, crianças choravam procurando por suas mães e as mães gritavam desesperadas porque aquilo poderia estragar seus penteados. Por fim, Douglas conseguiu escapar, mas viu-se encurralado em um beco. Quando deu meia volta, deparou-se com o Sr. Terno Listrado.

– Olá, Sr. Adams. Há quanto tempo.

Douglas instintivamente pegou sua toalha, enrolou-a em forma cilíndrica, esticando-a na sua frente.

– Não se aproxime! Eu tenho uma toalha e não tenho medo de usá-la.

– Quer dançar? – E retirou dois chacos do terno – Eu quero uma polca!

Douglas engoliu em seco. Thienk fez uma curta demonstração de habilidade com os chacos e depois avançou feito uma porra louca. Douglas usou sua toalha para defender o primeiro golpe e se abaixou na hora certa, desviando do segundo. Fez uma finta girando nos calcanhares e acertou uma toalhada no traseiro de Thienk.

– Rá! Jamais duvide do poder da toalha!

Então sentiu uma pancada na sua cabeça e desmaiou.

Pela primeira vez em três dias ele se sentiu mal quando acordou e não viu o dinossauro. Pior ainda, se sentiu mal por que acordou não em uma cama confortável, mas amarrado a uma cadeira com as mãos atadas para trás, dentro de um banheiro público fedido – como sempre são os banheiros públicos. Para completar, sentia uma terrível dor de cabeça e não tinha nenhum analgésico por perto.

Olhou em volta. A porta estava entreaberta e notou algumas latas de tinta, algumas tábuas encostadas na parede e uma escada. O mais estranho, porém, era o velho arquivo abandonado dentro de um dos banheiros.

– Então, Sr. Adams. – Thienk falou, surgindo das sombras. – Está pronto para me dizer qual é a Resposta?

– Eu já lhe disse, eu não sei qual é esta Resposta que vocês tanto querem saber. Eu não sei qual é a Resposta para a Pergunta.

– Eu não acredito. Talvez você precise apenas de algum incentivo para falar.

Thienk pôs uns fones de ouvido em Douglas conectados a um velho toca-discos. Pegou um vinil.

– Este é especial. Uma coletânea das piores poesias vogon de todos os tempos.

Colocou o vinil no toca-discos e pousou a agulha. Douglas começou a ouvir a odiosa voz de um vogon recitando lixo poético.

Depois de meia hora, Douglas ainda não falara qual era a Resposta. Estava se contendo para evitar convulsões epiléticas, e seus olhos já estavam quase saltando das orbitas, mas não dissera qual a Resposta, simplesmente por que não sabia qual era. Mas no fundo, mesmo que soubesse, ele desconfiava que não diria. Thienk já havia perdido a paciência. Desligou o toca-discos e iniciou seu monólogo digno de um blockbuster hollywoodiano:

– Por que, Sr. Adams? Por que? Por quê? Por que faz isso? Por que continuar lutando? Acredita que esteja lutando por alguma coisa relevante? Maior que sua sobrevivência? Ao menos sabe o que é? Diga-me a Resposta, Sr. Adams, e eu posso acabar com seu sofrimento agora mesmo.

– Eu já disse, eu não sei a Resposta! – E um olhar de medo se formou quando ele viu a criatura se esgueirando pela porta do último banheiro.

– Por que, Sr. Adams? Por quê?! Você não tem nenhuma garantia, ninguém virá lhe resgatar, nem mesmo seus amigos. Então por quê? Por que você persiste?! Por que está me olhando assim?

– Tem um leopardo atrás de você.

– Está louco se pensa que eu vou cair nesse truque. Não há nenhum leopardo…

Sentiu o bafo da criatura nas suas costas. Thienk se virou apenas para ver um grande felino saltar em cima dele.

– Nãoooo!

Douglas deu uma cambalhota para trás e caiu no chão com cadeira e tudo. Arrastou-se como se sua vida dependesse daquilo. Atrás de si, Thienk lutava corpo-a-corpo com o felino – um esporte nada saudável.

Crianças, não tentem isso em casa, Douglas pensou.

Quando saiu do banheiro fedorento, recostou-se na parede e conseguiu pôr-se em pé. Olhou em volta avaliando rapidamente o ambiente. Estava em um porão escuro e poeirento.

Foi neste momento que a cavalaria apareceu. Héctor chegou explodindo a porta do porão e metade da escadaria de acesso. Logo depois surgiu a ruiva.

– Douglas! – ela gritou.

Nunca antes em sua vida ele sentiu tanta felicidade.

– Gilly! Rápido, antes que o leopardo venha atrás de mim.

Ela saltou do alto e cambaleou até ele. Espiou para dentro do banheiro e viu a estranha dança entre Thienk e o leopardo.

Ai está sua polca, Sr Azulado, Douglas pensou.

A ruiva correu até a porta e puxou-a. Depois trancou-a com algumas correntes e pôs um cadeado. Em seguida voltou-se para Douglas e desamarrou-o com as mãos trêmulas. E depois o beijou.

– Douglas, você está bem?

– Acho que estou agora.

E os dois riram, tentando ignorar os gritos dentro do banheiro.

– Vamos, precisamos ir – ela disse.

Mas havia algo que ele ainda precisava ser feito.

– Espere!

– O quê?

Douglas pegou uma velha tábua, abriu um lata de tinta vermelha e escreveu com os dedos:

“Cuidado com o leopardo”

Pendurou a placa na porta do banheiro.

– Você sabe. Só por precaução – disse, quando Gilly lhe lançou um olhar questionador. Ela deu de ombros.

Foram embora.

Epílogo: a vida, o universo e tudo mais

O resto do dia foi tranquilo. Eles arranjaram um apartamento onde Douglas passaria a morar. Não era bem a vida que ele imaginava, mas era melhor que ser perseguido pelo universo por um bando de lunáticos. Se bem que ele até poderia relevar isso, desde que Gilly estivesse ao seu lado. Mas depois pensou melhor e viu que isso significaria uma vida cheia de turbulências e reviravoltas e – o pior de tudo – sem chá.

– Tem certeza de que ficará bem? – a ruiva perguntou. Agora que a hora chegara, achava difícil se separar.

– Acho que sim. Amélev é agora um vaso de petúnias e Thienk… bem virou comida de leopardo. E qualquer coisa eu tenho minha toalha comigo. – Ergueu sorrindo sua toalha suja.

– O que vai fazer da vida?

– Não tenho certeza ainda. Acho que vou seguir carreira no rádio. Sempre tive vontade de trabalhar no rádio. Ou escrever um livro. Uma vez alguém que disse que um homem deve plantar uma árvore, casar ou escrever um livro. Acho que não e uma má ideia. Quem sabe eu fico famoso.

Ela assentiu.

– Bem, acho que nos separamos aqui – ela disse e depois deu-lhe um beijo. – Vou sentir saudades.

– Eu também.

Gilly se afastou e Jhonny também se despediu.

– É isso aí, bro. Te cuida, pois da próxima vez talvez não estejamos por perto para salvar teu traseiro.

– Pode deixar.

– É isso ai. É nós que voa, bruxão!

Depois foi a vez de Héctor, que falou com sua voz metálica:

– Foi uma honra tê-lo em nosso time, terráqueo.

– Foi divertido, Héctor.

Ele retirou seu sombrero e estendeu para Douglas:

– Quero que fique com isso.

Douglas aceitou, emocionado.

Por último, foi a vez do velho.

– Ó Grande Apreciador de Chá – ele disse. – A vida na nave será muito menos estranha sem você.

– Sabe, essa foi a coisa mais tocante que alguém já me disse na vida.

Quando já estavam indo, Rex apareceu na porta da nave e saiu trotando em direção a Douglas. Ele abaixou a cabeça e Douglas fez um cafuné. O dinossauro urrou de alegria.

– Nunca pensei que iria dizer isso, mas vou sentir sua falta também.

E ali se separaram. Douglas observou a Coração de Ouro II alçar voou e depois sumir, quando o seu novo motor de dobra de tessitura foi ativado. Ele voltou para casa – sua nova casa – e seguiu com sua vida. Nunca mais os viu novamente, mas toda noite ele olhava para as estrelas e ficava horas sonhando com elas, pensando sobre os mistérios da Vida, o Universo e Tudo Mais.

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Um comentário sobre “[Conto] Quarenta e dois

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