[Resenha] Androides sonham com ovelhas elétricas?

“Claro, alguns animais deles, sem dúvida, também eram réplicas eletrônicas; Rick certamente nunca meteu o nariz nos assuntos alheios, assim como seus vizinhos nunca se meteram no real funcionamento de sua ovelha. Nada poderia ser mais deselegante. Perguntar ‘sua ovelha é genuína?’ seria, possivelmente, uma quebra na etiqueta pior que indagar se os dentes de um cidadão, seu cabelo ou seus órgãos internos eram autênticos.”

Androides sonham com ovelhas elétricas? é um clássico da literatura de ficção, que considero leitura obrigatória. Como uma grande fã de Blade Runner, o filme inspirado no livro, há muito tempo queria ler essa distopia de Philip K. Dick (que, aliás, teve várias de suas obras adaptadas para o cinema). Eu gostaria de poder evitar comparações com o filme nesta resenha, mas receio que será impossível, pelo menos para mim. Tentarei evitar o máximo de spoilers possíveis, mas aqui ou acolá vai aparecer algum bem de leve, mas nada muito importante. Então vamos nessa.

androides-sonham-com-ovelhas-eletricas-cinta

Obra:Androides sonham com ovelhas elétricas?

Autor: Philip K. Dick

Editora: Aleph

Gênero: Distopia

Número de páginas:272

O cenário da história é bem colocado logo no início do livro. Houve uma guerra nuclear mundial que dizimou o planeta, tornando-o praticamente inabitável, por causa dos resíduos atômicos (que são chamados de “Poeira”). A população passou a emigrar para colônias em outros planetas (Marte, principalmente), a fim de continuar a vida. Mas nem todos deixaram a Terra. Os que ficaram agora se amontoam em grandes metrópoles, tentando evitar contato com a tal Poeira.

Os animais foram os mais afetados pela Poeira; a grande maioria das espécies ou foi extinta ou está em extinção. Devido à sua raridade, possuir um animal verdadeiro passou a ser sinônimo de status social. Pelo menos motivo, muitos dos que ficaram na Terra possuem uma réplica eletrônica de um animal, que fingem ser um animal real. É o caso do nosso protagonista, Rick Deckard. Antes ele criava uma ovelha verdadeira, mas esta morreu, e ele teve de substituí-la por uma cópia elétrica, o que é frustrante. É tanto que ele passa grande parte do livro tentando comprar um animal real, como se sua felicidade ou o próprio sentido de sua vida dependesse disso.

Mas é claro que o livro não é sobre animais elétricos. Deckard trabalha para o departamento de polícia de São Francisco, em um cargo bem particular: ele é um caçador de recompensas. Seu trabalho? ‘Aposentar’ androides que fogem das colônias interplanetárias para a Terra e se passam por humanos. Os androides (ou andys, como são chamados no livro) foram originalmente concebidos para trabalharem nas tais colônias, mas de vez em quando alguns escapam de lá e fogem para o planeta azul, onde são caçados e mortos por homens como Deckard. Mas como esses andys são muito parecidos com humanos (até demais), é preciso fazer um teste de empatia (usando a chamada Escala Voigt-Kampff). Sim, porque, em teoria, essa é a única maneira não invasiva de diferenciar um humano de um androide, já que acredita-se que estes não possuem esta que é uma característica fundamental da psique humana: empatia.

A história começa quando oito androides (seis, no filme, se não me engano) fogem de uma colônia marciana, matando humanos no processo, e se estabelecem na Terra. Acontece que eles são de um novo modelo, Nexus-6, mais avançado e, ao que parece, mais difícil de ser detectado pelo teste Voigt-Kampff. Rick Deckard é então enviado para aposentá-los e essa é a trama do livro.

Mas a primeira grande questão da obra é justamente essa diferenciação entre humanos e androides. O que difere um humano de um andy? Seriam os androides capazes de emoções complexas? Empatia seria uma característica única da raça humana? Androides seria capazes de amar? De sonhar? Androides sonham com ovelhas elétricas? No livro, é mencionado que há um a classe bem restrita de seres humanos que falhariam no teste Voigt-Kampff, por causa de algum problema que afeta seu processamento da empatia, então eles poderiam ser confundidos com androides.

Esta questão realmente permeia todo o texto. Por exemplo, na história do livro, há uma espécie de religião bem bizarra chamada Mercerismo. Tudo gira em torno das chamadas “caixas de empatia de Mercer”, que são como interfaces que conectam as pessoas em uma espécie realidade virtual onde elas podem partilhar emoções. Elas também se conectam ao seu criador e mentor, Wilbur Mercer, e tem uma alucinação coletiva deste homem subindo uma colina e enquanto é apedrejado. As pessoas realmente sente a mesma dor que Mercer sofre e, por algum motivo, isso as faz bem. Sério, é bizarro. Mas tudo se baseia na empatia, que diferencia humanos de androides.

“— Não, é aquela empatia — Irmgard disse com veemência. Punhos cerrados, ela se dirigiu à cozinha, até Isidore. — Não é uma maneira de provar que os humanos podem fazer algo que nós [androides] não podemos? “

Mas, será que androides também são capazes de empatia?

“— Sabe o que eu sinto? Em relação a esta androide Pris?

— Empatia — ele [Deckard] respondeu [a Rachael].

— Algo assim. Identificação; como se fosse eu. “

Mais que isso: poderia um ser humano sentir empatia para com um androide?

“Ele nunca tinha pensado nisto antes, nunca tinha sentido empatia alguma em relação aos androides que matou. Sempre admitira que, em toda a sua psique, percebia o androide como uma máquina inteligente. Ainda assim, em contraste com Phil Resch, havia manifestado uma diferença. E ele sentiu instintivamente que estava certo. Empatia para com um engenho artificial?, perguntou-se. Para com algo que apenas finge estar vivo?”

Algo tão inesperado, que confunde a cabeça do protagonista:

“— Fiz um teste, uma pergunta, e a verifiquei — disse Rick. — Eu comecei a sentir empatia por androides e veja o que isso significa. (…) Nunca senti nada como isso antes. Talvez seja uma depressão, com a que você tem.”

Acho realmente muito interessante como o autor trabalha essa temática, transparecendo até mesmo nas suas descrições. Ela dá vida e emoção até mesmo aos androides.

“[a androide] olhou para ele distraidamente e, em seguida, furiosamente, tão logo o reconheceu. Seus olhos desbotaram e a cor de seu rosto esmaeceu, tornando-o cadavérico, como se já começasse a se decompor; como se a vida tivesse, em um instante, partido para algum ponto longínquo dela, deixando o corpo à sua automática ruína.”

Uma descrição bastante vívida de um ser que supostamente não tem vida.

Sobre outros aspectos do livro. A trama é muito boa e nos dá o que vendeu, isto é, uma boa distopia com ação e pitadas de filosofia. Original para a época, certamente. Ela te prende do início ao fim. A ação é rápida e descrita com frases precisas. Mesmo os diálogos e as descrições fluem muito bem. Então em geral o livro tem o ritmo muito bom. O texto traz reflexões pertinentes, que já foram até usadas em outras histórias com androides (A.I., Battlestar Galactica, O homem bicentenário, etc).

A ambientação é muito boa, escrita de maneira precisa. A meu ver, essa Poeira radioativa é mais que um agente causador da degradação do planeta; é quase um simbolismo para a degradação dos homens como espécie.

Sobre os personagens. Rick Decknard, o protagonista, tem um arco muito bem trabalhado. É visível o seu drama, seu dilema, quando ele começa a mudar sua opinião sobre os androides que costumava caçar. Dá para dizer que o maior conflito do livro não é o confronto entre androides e caçador; é o conflito interno do próprio caçador, que de repente começa a ver as coisas por uma outra perspectiva. E a sua busca por realização social, tentando comprar um animal verdadeiro, só complementa esse seu drama.

Outro personagem que merece destaque é Isidore. Ele é um funcionário de uma clínica para animais elétricos e um humano especial — mentalmente afetado pela Poeira radioativa. Humanos especiais vivem à margem da sociedade, sendo tratados como escória, lixo social, e recebem apelidos maldosos como “cabeça de galinha” ou “cabeça de formiga”. Ele vive solitário em um condomínio abandonado, no qual é o único morador, mas sua vida muda quando um dos Nexus-6 resolve usar o condomínio como esconderijo. Acho o arco deste personagem também interessante. E o autor soube como entrar na cabeça de alguém intelectualmente debilitado e dar a dose de drama necessária para este personagem.

O terceiro personagem que merece destaque é Rachael, uma androide que trabalha para a companhia que fabrica dos modelos Nexus-6. O que acho digno de destaque no arco dela é sua crise de identidade. Ela tem consistência que é uma androide e vê a si mesma como algo não-vivo, inferior à espécie humana e sente-se frustrada por isso.

Mas, e aqui vem minha primeira decepção com respeito ao livro, com exceção de Rachael, nenhum dos outros androides, os que estão sendo caçados, são bem explorados. São uns personagens meio rasos, sem muito propósito, sem graça. Não dá para se apegar a eles, e isso eu acho um ponto fraco. Não que isso tenha que ser uma regra, mas uma história em que você sente empatia pelo antagonista tem um diferencial. O livro passa muito tempo falando sobre esse tema, e não o desenvolve como deveria na prática.

Esse é um ponto em que o livro é inferior ao filme. Roy Betty é um dos personagens mais icônicos da história do cinema, um antagonista pelo qual você é capaz de se apegar emocionalmente, que te faz chorar quando recita seu memorável monólogo “lágrimas na chuva” no final do filme. Não consegui sentir nada além de indiferença pelo Roy Betty do livro, que é um completo babaca e um escroto. Dos oito androides caçados, a única pela qual é possível sentir empatia é Luba Luft.

Outra coisa, eu havia comentado que a ação é rápida e eficiente, mas, se por um lado isso acelera o ritmo e deixa o texto mais enxuto, por outro lado acaba meio que dando um anticlímax nas ações. As coisas acabam se resolvendo muito rápido. A tensão vem e acaba de repente. Quando você menos percebe, já acabou e, pelo menos eu, fiquei com a sensação de que não aproveitei o máximo o que aquela cena poderia proporcionar.

Mas o pior de tudo é o final. Eu não vou nem comparar com o final do filme, por que é covardia. Em termos absolutos, o final do livro é satisfatório, mas deixa aquela sensação de que poderia ser melhor, mais bem trabalhado. Eu li a última frase e pensei “é sério mesmo que o livro vai terminar deste jeito sem graça?”. Esta é melhor maneira de pôr as coisas. O final do livro é sem graça. Simplesmente.

É claro, devo dizer que estes aspectos que eu achei ruins não fazem o livro todo ser ruim. Como conjunto da obra, Androides sonham com ovelhas elétricas? é um romance muito bom, que merece ser lido pela trama original e envolvente e pelos temas tocados na história. Quando comparado com o filme, minha opinião é que o blockbuster do Ridley Scott é superior, mas você tem todo direito de discordar de mim. O livro é mais completo e profundo que o filme, sim; ele aborda temas que mal são tocados na adaptação (religião, materialismo, a questão da empatia). Mas Blade Runner, a meu ver, humaniza ainda mais os androides e tem um final mais digno de nota. O inegável é que as obras se completam e eu recomendo tanto ler o livro quanto assistir ao filme. Vale mesmo a pena.

Veredito final: recomendo para aqueles que querem refletir sobre a natureza humana; ou para aqueles que apenas querem ler uma boa distopia.

Anúncios

Um comentário sobre “[Resenha] Androides sonham com ovelhas elétricas?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s