[Conto] O último pecado

Olá, pessoal! Hoje trago um conto especial para o Halloween. Espero que gostem 🙂

O último pecado

Adam tragou o cigarro e tossiu.

— Merda! Não achei que a sensação fosse tão ruim.

Tossiu mais. Evanne riu.

— É sério mesmo que nunca experimentou isso antes? Nenhuma vez?

— Nunca. Já disse, Eve.

— Tá, me dá isso aqui.

Ela tomou o cigarro de sua mão e deu uma longa tragada. Adam incomodou-se com a fumaça.

— Cheguei à conclusão que fumar pela primeira vez não é a última experiência de vida mais legal. Deveríamos tentar algo diferente.

Ele passou a mão pelo ventre nu de Eve e começou a subir até seus seios.

— Não, para. Não vem com este papo de novo, tá legal? Já teve seu prazer, ok?

— Tá bem, ok. — Começou a brincar com o isqueiro, acendendo e apagando várias vezes. Sentia um frio na barriga. — Tem certeza de que quer fazer isso?

Ela suspirou pesado. Pegou a mão de Adam e apertou. Ambas estavam frias.

— Já discutimos isso, Adam. Que mais podemos fazer? Está acabado, mano. Não temos mais salvação.

Ela limpou com raiva as lágrimas que vinham ao seu rosto. Ele beijou sua testa.

— Ok, faremos isso juntos.

— À meia-noite.

— À meia-noite.

Ele olhou seu relógio de pulso: 23h35. O momento se aproximava. Os corações aceleravam.

— 31 de outubro de 2017, o dia em que a humanidade termina — ela disse, encarando as estrelas. — Chega a ser irônico.

— E a vida não é uma grande ironia, Eve? Uma puta de uma ironia. Nascemos apenas para morrer.

Ela tragou outra baforada, com os olhos fixos nas estrelas. A noite estava calma, e ela sentia a brisa noturna em sua pele nua. Jogou o cigarro fora e levantou-se.

— Está frio aqui.

Começou a vestir suas roupas.

— O quê? Está com medo de pegar um resfriado? Morreremos em menos meia hora, de qualquer jeito.

— Acho que você só está arranjando uma desculpa continuar me vendo sem roupa.

A isto ele não respondeu. Ergueu-se do colchonete improvisado e catou suas roupas.

— Sabe o que seria realmente irônico? — Adam disse, enquanto vestia sua calça. — Se você estivesse grávida. Já imaginou? A humanidade poderia renascer de nós dois.

— Não duraríamos muito tempo — ela respondeu. Caminhou até o parapeito e olhou para baixo. — Seríamos nós três contra sete bilhões. Não conseguiríamos passar nem mesmo desta centena lá em baixo.

— Tem razão — Adam disse. — Às vezes me esqueço que a esperança já morreu há muito tempo.

Eve voltou ao colchonete.

— Deita aqui comigo.

Adam assim o fez. Os dois se abraçaram e Evanne repousou sua cabeça no peito dele. Os dois choraram em silêncio.

— Estou com medo — ela admitiu.

— Eu também, Eve. Eu também.

— Se tivéssemos nos conhecido em outra situação, talvez formássemos um belo casal.

— Você não é meu tipo — ele respondeu, acariciando sua cabeça.

— E qual é o seu tipo?

— Loira, olhos azuis, bunda grande, essas coisas.

— Já teve alguém assim?

— Sim. No colégio. Não durou muito. Pedi ela em namoro no dia 28 de outubro.

— É, a vida é mesmo uma puta ironia — Eve disse. — Como ela, bem, se foi?

— Do pior jeito.

— Sinto muito.

Adam olhou no relógio. Faltavam pouco menos de quinze para o derradeiro final.

— Eu mesmo o fiz — ele confessou. — Ou quase isso. Acertei sua cabeça com uma pá e bati até rachar no meio. Vomitei depois disso. Meu pai deu o tiro final. Não importa mais. Ambos estão mortos agora. Você lembra onde estava quando tudo começou?

— Uhum. Estávamos a caminho do aeroporto, presos no trânsito. Ouvimos a notícia pelo rádio. “Novo surto de epidemia assola a China. O governo chinês declarou estado de calamidade pública. Doença ainda é desconhecida.” — Ela riu. — No dia seguinte, o mundo já estava em choque. Meu deus, quando vi as primeiras imagens na televisão, meu cérebro não quis acreditar.

— “Is this the real life?”

— Aham?

— Foi o que eu pensei quando vi. Estava no colégio. Um amigo me mostrou um vídeo no YouTube. “Caralho, fodeu, mano. Fodeu legal. É o apocalipse” era o que ele dizia. Eu pensei que fosse algum trailer de filme, sei lá, alguma coisa assim. Não a vida real.

— Eu me lembro da sensação de falsa esperança que as pessoas tinham nas primeiras semanas, sabe? Minha mãe dizia “as autoridades não deixarão o vírus chegar em nosso país”. Toda a Ásia já estavam em quarentena e então praga chegou na América. Foi quando mamãe surtou. Ela se suicidou.

— Sinto muito.

— Às vezes eu me pergunto se isso não é uma punição divina. Sabe, pelos nossos pecados.

— Eu não acredito nisso. Antes eu acreditava em Deus, mas agora… Eu te digo, Eve, se Ele existe, tem um senso de humor muito negro. — Ele virou-se e encarou as estrelas. Gritou — Está ouvindo, seu puto?! É como você mesmo! Você pensa que isto é engraçado? — Seus lábios começaram a tremer. — Não é não. Nem um pouco. Está feliz agora? Filho-da-puta!

E Adam chorou. Evanne abraçou-o forte.

— Eu não quero morrer, Eve. Não quero — ele disse, entre lágrimas. — Mas não aguento mais viver neste inferno.

Ela beijou-o e foi um beijo longo.

— Encontraremos o paraíso — ela sussurrou.

Ficaram abraçados, aquecendo um ao outro, observando as estrelas, até o momento derradeiro. O alarme do relógio de Adam tocou: 23h59.

— Está na hora — Eve disse. — Juntos, lembra?

Ele fez que sim. Os dois caminharam de mãos dadas até o parapeito. Olharam para baixo e vislumbraram uma legião de demônios lá embaixo, ávidos por carne humana.

— Estão esperando por nós — Eve disse e apertou a mão de Adam.

O relógio apitou, marcando meia-noite. Um novo dia. Uma nova era no planeta Terra, sem a humanidade. O vento soprava frio.

— É isso então — Adam disse, e seu coração palpitava rápido. — Juntos, ok?

— Juntos.

E pularam. Enfim, não havia mais pecado no mundo. Só pecadores.

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2 comentários sobre “[Conto] O último pecado

  1. Pô, Renan, muito foda! Curti muito! Acho que é uma das coisas que você escreveu que mais curti! Curto e no ponto, parabéns! Curti a simbologia também… Gostaria de ler mais nesse universo! Fica a dica! Hahaha…

    Curtido por 1 pessoa

    • Valeu, Jana 😀 Fico muito feliz que tenha gostado, eu estava meio receoso quanto a este texto. Escrevi nas pressas, tive a ideia de última hora, nem pensei muito sobre ele. Eu gostei porque nunca escrevi nada sobre zumbis, mas vou anotar tua sugestão pra expandir a história 🙂

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