As crônicas de Erys – capítulo 1

Olá, pessoal! Trago hoje mais uma amostra do livro que estou escrevendo. Não pretendo postá-lo todo aqui, talvez só os primeiros capítulos. Já postei o prólogo outro dia. Leia também os capítulos 2 e 3, aqui e aqui. Espero que gostem 🙂


Capítulo 1 – O homem do castelo na colina

Província de Lüpho, noroeste do Império Nyskar

04/05/2392 EL

A estrela de Asun surgira no céu, anunciando uma nova noite, com seu brilho azulado. Mryv’ seguia por uma estrada no meio da floresta. À sua frente, o sol se escondera por detrás das montanhas, não mais ofuscando sua visão. As grandes montanhas ainda estavam a vários dias de viagem, mas já poderiam ser vistas, em toda a sua grandiosidade. O destino de Mryv’, porém, era algo mais alcançável: uma colina que se erguia no meio da vegetação. Estava chegando; já era possível vislumbrar em detalhes o castelo negro no topo da elevação.

Hum, parece maior do que da última vez.

Ele notou uma movimentação atrás da carroça. Virou-se e, com uma voz doce, falou:

— Ei, querida, acordou? — Apontou para o castelo — Veja, já estamos chegando.

A menina pôs-se sentada, coçou os olhos, bocejou e disse:

— Estou com fome, papa. Posso pegar alguns biscoitinhos?

— Você comeu os últimos deles hoje de manhã, querida, não lembra?

A garota fez um gemido de frustração.

— Mas eu tenho fome, papa. Eu quero os biscoitinhos!

— Poderá comer quando chegarmos no castelo de lorde Moha’ra, querida.

Ele sentiu uma perturbação no thy. Parou a carroça. Dois homens surgiram, um de cada lado da estrada. Estavam escondidos detrás das árvores. O primeiro tinha uma espada de uma mão na bainha e o segundo tinha uma pistola no coldre. Mryv’ olhou de lado e viu que um arqueiro estava posicionado na linha das árvores, pronto para disparar sua flecha. A menina veio até ele e apertou seu braço.

— Isto é uma propriedade particular, forasteiro — o espadachim falou. — Pedimos que retorne por onde veio.

— Eu sei que é. Pertence ao lorde Juän Moha’ra — Mryv’ respondeu. Virou-se para o arqueiro. — Eu gostaria que, se possível, você abaixasse este arco, amigo. Não vê que estou com uma criança aqui comigo?

O arqueiro olhou para os companheiros e abaixou a arma. O espadachim perguntou:

— Quem é você?

— Meu nome é Lyuzäk, e desejo falar com lorde Moha’ra.

O outro respondeu:

— Lorde Moha’ra não recebe estranhos.

— Eu não sou um estranho.

— Pode provar isso?

— Não sem estar cara a cara com o lorde.

O pistoleiro cuspiu no chão e respondeu:

— Então temos um impasse.

— Podemos resolver isso fácil — Mryv’ falou. — Algum de vocês vai até o castelo e conversa com lorde Moha’ra. Tenho certeza que ele me receberá.

Os guardas se olharam. Depois o espadachim disse:

— Quem é a garota?

Mryv’ olhou para criança, que permaneceu o tempo todo quieta, sua mão segurando seu braço.

— Minha filha.

— O que quer falar com lorde?

— Negócios, jovem. E acredito que os negócios do lorde não lhe dizem respeito.

O homem ficou vermelho. O pistoleiro cochichou ao seu ouvido. O arqueiro continuava com o arco abaixado, mas Mryv’ sabia que estaria preparado para qualquer ação.

— Muito bem. Lavaremos vocês até a entrada do castelo, onde poderá conversar com o castelão — o espadachim disse. — Até lá, o lorde já deverá estar ciente de sua visita. Se fizer algo estúpido, não nos responsabilizamos pela sua segurança. Ou de sua filha.

— Muito justo, meu jovem. Agora vamos.

***

Após atravessarem um pátio, entraram no imponente castelo. O castelão conduziu-os por uma intricada rede de corredores que mais pareciam um labirinto. Ao contrário da noite quente de verão, o interior do castelo era frio e silencioso. Mryv’ pegou sua filha no colo após vislumbrar as escadarias e seguiu o velho homem. Subiram três lances de escadas, atravessaram uma antessala, caminharam por um longo corredor decorado com fina tapeçaria colorida. A menina estava admirada com as gravuras nos tapetes.

— Eu reconheço essas imagens — Mryv’ falou. — A guerra dos sete clãs, estou certo?

O castelão virou-se e ofereceu-lhe um sorriso.

— Impressionante, não é mesmo? Lorde Moha’ra mandou trazer de Lys, especialmente para as comemorações de sua quinquagésima primavera, há dois anos. Ali vemos um retrato da Queda de Ewón, depois a Batalha de Nüra. Mais adiante vemos Jyrah, o Justo, lamentando a morte de Amäné, sua amada.

— A famosa Batalha dos Campos Verdes.

— Você parece conhecer a história bem. Sim, é isso. Veja como o verde dos campos e o vermelho do sangue contrastam lindamente. O reino de Gouja foi reduzido a cinzas. Um reino tão próspero!

— Nenhum reinado é eterno. Tudo está fadado ao pó e à ruína.

O castelão lançou-lhe um olhar taciturno.

— Tão jovem e já perdeste a fé na humanidade? Não acha que valeria a pena crer em um futuro luminoso, pela sua filha?

A garota parecia não se interessar nem um pouco pela conversa. Estava distraída, contemplado as tapeçarias.

— Que ela decida como enxergar o mundo quando tiver maturidade para isso.

O castelão deu de ombros.

— Bem, a seguinte retrata a assinatura do Pacto de Myr. E a outra mostra a viagem de Jyrah pelos doze clãs. Vê as doze joias?

Ele fez que sim, acomodando a menina melhor em seus braços. Já estava ficando cansado.

— E a última seria a criação da Irmandade da Luz, certo?

— Na época se chamava Ordem dos Cavaleiros da Luz Sagrada. Como deve saber, foi fundada por Jyrah, o Justo, Hakön, o Bardo, e Kätelyn, a Maga, em honra à princesa Amäné de Myr.

Mryv’ meneou a cabeça. Seguiram o resto do caminho apreciando o silêncio.

Chegaram ao fim do corredor, e depararam-se com uma enorme porta de madeira nobre, vigiada por dois guardas armados com lanças. “Chegamos ao salão principal”, o castelão anunciou. Ele ordenou, em seguida, que os guardas abrissem a porta e entrou. Mryv’ pôs sua filha no chão e acompanhou o homem, puxando a menina pela mão. Ela olhava fascinada em todas as direções.

O salão na verdade era uma sala oval, coberta de puro luxo. As paredes eram pintadas com grandes afrescos que, Mryv’ notou, retratavam outras batalhas. No teto em abóboda, um gigantesco lustre oscilava calmamente. Percorrendo o salão de uma ponta a outra, havia uma larga mesa de madeira. O viajante contou quarenta e dois lugares. Na ponta mais afastava, Lorde Juän Moha’ra apreciava seu jantar. Ao seu lado, duas copeiras lhe serviam. Escorado próximo à outra porta, estava um homem que Mryv’ julgou ser um guarda-costas.

Moha’ra olhou na direção da entrada e, antes que o castelão dissesse algo, ergueu sua magra mão em um aceno convidativo. Os três se encaminharam a passos comedidos até ele. O lorde vestia uma suntuosa túnica branca e seu corpo estava adornado com várias joias, desde anéis e colares até brincos de pérola. Era tão alto que mesmo sentado era imponente. Seu rosto era magro e seus olhos, ágeis. Tudo nele inspirava elegância, desde os penteados e bem cuidados cabelos grisalhos até as unhas limpas e aparadas.

O castelão fez a apresentação:

— Lorde Moha’ra, este homem afirma…

O lorde cortou-o com um gesto brusco, porém amigável.

— Eu sei perfeitamente quem este homem é, meu caro Shimes — ele disse, exibindo um largo sorriso. — Lyuzäk, do Vale Cäbim, não é verdade?

Mryv’ assentiu. Moha’ra alargou seu sorriso.

— Ah, sabia. Graças aos deuses, minha memória ainda me é útil. — Ele indicou uma cadeira. — Por favor, faça as honras. Sirvam-se.

Mryv’ sentou-se e ajudou sua filha a acomodar-se na cadeira ao lado. Uma das copeiras pôs um prato de cerâmica e um jogo de talheres de prata à sua frente. A outra pegou uma taça, mas quando ela fez menção de pegar o vinho, Mryv’ fez uma mesura.

— Ah, não. Sem álcool, por favor. Obrigado. Não teria, por acaso, leite?

A empregada assentiu e saiu.

— Ah, os velhos hábitos! — Moha’ra suspirou. — São como árvores: suas raízes vão cada vez mais profundas, certo? — Voltou sua atenção para menina. — E você, coisinha pequena, tem um nome?

Ele lhe ofereceu seu melhor sorriso. Mas a garota parecia concentrar toda sua atenção em um bolo no meio da mesa. A copeira serviu a Mryv’ um avantajado pedaço de carne nobre, cujo aroma fez sua entranhas gritarem em júbilo.

— Filha, lorde Moha’ra fez-lhe uma pergunta.

Ela respondeu, ainda sem tirar os olhos do bolo.

— Ah, Arisha — o lorde repetiu. —É um belo nome.

A pequena apontou para o quitute.

— Eu quero aquele bolo.

— Tenha modos, filha — Mryv’ a censurou. — Bolo é sobremesa; pode comê-lo depois.

A garota fez cara feia, mas resignou-se. Mryv’ apreciou o sabor da suculenta carne. A outra copeira voltou, trazendo leite. Mryv’ agradeceu.

— Lorde, esta carne aqui… Divino, divino.

— Não é verdade? O mais nobre corte de gado nyscari, cozido com ervas élficas e temperos de Myr. Agora, meu caro Lyuzäk, você sempre me surpreende. Da última vez que o vi, você tinha uma filha a menos.

Mryv’ estava cortando a carne servida à Arisha em pedaços menores.

— E tu, milorde, tinha algumas tapeçarias a menos no castelo, que, aliás, é maior do que eu recordava.

— Acho que isso é o que chamam de progresso, meu jovem. — Virou-se para o castelão. — Shimes, como vão os preparativos para a apresentação de hoje à noite?

— Verei como andam, milorde.

Fez uma reverência e saiu. Mryv’ esperou que as copeiras e o guarda-costas também se ausentassem, mas não o fizeram, nem o lorde deu ordens para tal. Resolveu tocar em um assunto aleatório.

— Eu notei que tem um gosto peculiar para decoração, milorde. Não se sente mal jantando em meio a pinturas que retratam guerras?

— O jantar é um momento para contemplação. Eu gosto de refletir sobre a natureza humana retratada nesses afrescos.

— Eu preferiria contemplar a beleza das estrelas.

— É uma opinião justa. Oh, Lyuzäk, as sementes de telna que você trouxe das Terras do Fogo da última vez que me fez uma visita não germinaram.

— Sim, imaginei que o clima não fosse apropriado. Eu trouxe mais algumas sementes, de gëuba. Mas também acho que não germinarão aqui.

— Bem, não custa nada tentar, não é mesmo? — Moha’ra disse. Comeu um pedaço da carne. — Eu sempre maravilho-me com a natureza, Lyuzäk. Veja, em meus bosques, há árvores que chegam cinquenta metros. Mas a maior é uma mosha imperial. Uma vez a medimos. Cento e oito metros, do chão até a copa.

— É realmente impressionante, milorde — Mryv’ concordou. — Arisha, não faça isso com a comida, por favor. Seja educada.

— Desculpa, papa.

— É sim, meu caro Lyuzäk. E ainda assim, quando você vê a semente de uma mosha… — Moha’ra disse, pensativo. — Dá para botar três delas em cima da unha do meu polegar. E uma semente tão pequena se transforma numa árvore tão imponente.

— Mas leva anos para isso, milorde. Depende de vários fatores. Clima favorável, solo com os nutrientes corretos. A terra tem que ser muito boa, para que as raízes possam ir fundo. Por isso que penso que as sementes de gëuba não dão frutos aqui.

Moha’ra concordou. Chamou uma das copeiras, a mais jovem e disse:

— Querida, procure Vysëja e peça-a para preparar dois quartos para os nossos hóspedes, por favor. — E, voltando-se para Mryv’, perguntou — Onde conseguiu estas sementes?

Mryv’ terminou de engolir e respondeu:

— Consegui algumas nas terras de Lyás. Comprei direto com a fonte.

— Terras de Lyás? Vejo que suas andanças o levaram longe, meu amigo — o lorde disse, e lançou um olhar para a menina. — Como estão as terras do dragão?

— Quentes. Fervilhantes, na verdade.

— Oh, eu ouvir falar sobre isso. Outra revolta, hã? Contra a capital.

— A segunda em menos de um século. Eles chamaram de segunda revoada dos dragões. Mas, como a primeira, não levou a nada. Os revoltosos não tem força contra Vyzar.

— Dragões que não conseguem matar uma ninfa! Quase poético. Algo digno de um escrito de Deméon Shüny.

A copeira retornou. Arisha engasgou-se com um pedaço de carne.

— Oh, querida, coma devagar — Mryv’ falou. Deu palmadinhas nas costas da menina. Ela continuou tossindo. — Oh, deuses! Arisha, respira, amor, respira devagar. Tussa, com força.

A menina já estava ficando vermelha, e com lágrimas nos olhos. Mryv’ levantou-se, pegou-a pelos braços, abraçou-a pelo abdômen e pressionou a boca do estômago. A garota cuspiu o pedaço de carne.

— Arisha, quantas vezes eu já disse para comer devagar? — Mryv’ falou. — Olha o susto que você me deu!

A menina começou a chorar.

— Desculpa, papa. Não fique zangado comigo.

Mryv’ abraçou-a.

— Não, não estou zangado com você, amor. Só fiquei preocupado — ele disse, e beijou-a na testa. — Desculpe por isso, milorde.

— Oh, não há pelo que se desculpar, meu amigo. É a sua filha.

A qual provavelmente você deixaria morrer engasgada, e assistiria tomando vinho, não é mesmo?

Uma das copeiras apressou-se em limpar a mesa. Mryv’ sentou-se e passou o copo de leite para a menina.

— Aqui, beba isso, querida — ele disse. Arisha parou de chorar e bebeu. Ao lorde, Mryv’ falou — Falando em filhos, como anda o seu, milorde? Não o vejo aqui.

— Oh sim. Tokën está em Lys, agora. Entrou para a Academia. Está estudando Ciências Naturais.

— Bom para ele. Aposto que está muito orgulhoso, hã?

— Tokën tem a mente afiada. Puxou a mãe, que repousa nas estrelas, como os lysenos dizem.

— Posso comer o bolo agora? — sua filha interrompeu. — Eu quero bolo.

— Fique à vontade, pequena — Moha’ra respondeu. — Minha casa é sua casa.

A serviçal mais jovem adiantou-se e cortou um pedaço do quitute para Arisha. Moha’ra continuou a conversa anterior:

— Você chegou a conhecer minha esposa, não é mesmo Lyuzäk?

— Sim, milorde. Era uma bela e inteligente mulher. Uma pena ter partido tão cedo. Deve sentir-se solitário neste enorme castelo.

— Há sempre algo a se fazer, meu caro. Um bom livro, um bom vinho, animais para caçar. O segredo é manter a mente ocupada.

Arisha comeu com gosto, e deu a palavra final sobre o assunto:

— Obrigada, lorde Moha’ra. O bolo estava delicioso.

Ele fez uma mesura:

— Não há de quê, pequena. — Fez um sinal para a copeira. — Mande chamar Vysëja — Voltou sua atenção aos convidados. — Bem, está na hora dos negócios. Eu mandei preparar quartos para a sua estadia. Vysëja acompanhará a pequena Arisha aos seus aposentos.

A serviçal surgiu logo em seguida, quase como uma aparição. Todos se levantaram. Arisha aproximou-se de Mryv’ e agarrou sua mão.

— Não, eu quero ficar perto de meu papa.

Mryv’ agachou-se ao seu lado e pegou sua mão.

— Filha, não pode entrar. Eu e lorde Moha’ra temos assuntos sérios para discutir.

— Mas e se as serpentes voltarem? — ela disse, com voz chorosa.

— É apenas um sonho ruim, querida. As serpentes não irão te machucar. Eu prometo. — Ele beijou sua testa. — Agora vá com Vysëja. Eu estarei logo naquela sala.

A menina abraçou-o forte. Depois, a muito contragosto, foi com a tal Vysëja. Mryv’ seguiu Moha’ra até outra sala. O guarda-costas acompanhou-os, mas o lorde o barrou.

— Está bem, Brakud. Eu cuido disto.

Sem dizer uma palavra, o guarda deu meia volta e saiu. Moha’ra entrou e Mryv’ o seguiu.

***

O lorde fechou a porta e foi até a escrivaninha. A sala era escura, iluminada apenas por uma vela numa mesa. Mryv’ contemplou o bailar de sua chama por um instante. Via com clareza o calor que dela emanava.

— Sente-se — Moha’ra disse-lhe, enquanto enchia uma taça de vinho. — Eu te ofereceria, mas sei que não aceitaria mesmo.

— Como você mesmo disse, velhos hábitos.

O lorde virou-se e fitou Mryv’ com seus cansados olhos púrpuras. Degustou o vinho em silêncio por um tempo depois aproximou-se. Ao menos tirara seu sorriso cínico do rosto e mantinha uma expressão dura. Mas quando falou, as palavras saíram suaves e compassadas como sempre.

— Quem é a garota?

— Minha filha, já disse.

— Sua filha, hã? — Tomou mais uma dose do vinho. — Por acaso envolveu-se com uma humana em suas andanças.

— Arisha não é minha filha de sangue, sabe disso.

— Sei? Não tenho certeza. Talvez sejamos realmente compatíveis, nós e os humanos. Embora me parece ser uma ideia repugnante misturar nosso sangue com os deles.

— Você acha os humanos repugnantes?

— Bem, são claramente uma raça inferior. Então me pergunto porque alguém que é sangue do meu sangue perderia seu tempo criando uma humana.

Moha’ra lançou-lhe um olhar fulminante, embora seu tom de voz permanecesse o mesmo: calmo e frio.

— Ela é órfã.

— Isso é uma desculpa? Diga-me, Mryv’…

— Não use nossos nomes verdadeiros…

— Não ouse me interromper! — ele sibilou. Pigarreou. — Desculpe, acho é o vinho. Me deixa irritadiço. Diga-me, Lyuzäk, e os pais de garota?

Mryv’ abaixou o olhar.

— Eu os matei — murmurou.

— Desculpe, eu não ouvi.

— Eu os matei! — disse, mais alto. — É isso que queria saber, não era?

—Relaxe, não precisa se exaltar — Moha’ra falou. Começou a caminhar em direção à mesa. — Eu só quero que me ajude a entender a situação. Então, você matou os pais da garota e tomou-a como filha? Me desculpe, mas não vejo uma lógica aqui.

— Eles se opuseram a mim. Foi necessário.

— Então, eles eram dispensáveis? E a garota não?

— Quê?

— Você matou os pais da garota, mas poupou a vida desta. Por quê? Seria a vida dela mais valiosa que a dos pais?

— Ela era um bebê de colo!

— E como isso responde minha pergunta? — Fez uma pausa, encarando Mryv’. Seu desprezo saltava aos olhos e permeava o ar como um odor podre. — Eu digo como, jovem. Você está ficando sentimental! Está nutrindo simpatia por esses humanos, é isso que está acontecendo! Primeiro foi, como você chama mesmo, ah, a Trupe Celestial. Agora tem essa garota que você teima em chamar de ‘filha’.

A taça de vinho quebrou-se, espalhando a bebida pelo carpete. Moha’ra não dispendeu muita atenção nisso. Contornou a escrivaninha e sentou, pousando o que restou da taça sobre a mesa e continuou.

— Que se passa contigo, Mryv’? Estou começando a duvidar de sua lealdade.

O visitante precipitou-se sobre a mesa, mas conteve-se.

— Você me ofende com isto, Moha’ra. Minha lealdade sempre esteve com o Mestre. E sempre estará.

— Então prove.

Mryv’ retirou um anel do bolso e empurrou-o pela mesa. O lorde tomou a joia nas mãos e contemplou-a por um momento. Era banhada a ouro e tinha uma pedra escrutada, um cristal vermelho rubro.

— É o que eu penso que é?

— Sim. É a Relíquia do Dragão.

— Magnifico! Onde a encontrou?

Mryv’ sentou-se defronte ao velho e explicou a história.

— No deserto Lyás. Vaguei por aquelas terras áridas, seguindo uma pista. Após algumas buscas, descobri a Relíquia do Dragão em uma das tribos do deserto. Os locais a adoravam como se fosse um objeto sagrado. Diziam uma estrela caiu dos céus, e no local da queda estava o artefato. Eles achavam que era um presente dos deuses draconianos. Sabe como é, quando os humanos não entendem algo, inventam as religiões para explicarem.

— Quem os pode culpar por isso, não é mesmo? — disse o lorde, ainda admirando o anel. — Isso explica sua aparição depois de tantos anos. Mas não explica a garota.

— Os pais de Arisha eram os guardiões do templo onde estava a Relíquia. Tive que matá-los.

— E depois tomou a garota como própria filha. Porque não a ignorou?

A imagem de uma mansão em chamas veio à mente de Myrv’. Você nunca entenderia isso mesmo, Moha’ra, ele pensou.

— Ela é jovem. Posso treiná-la nas artes de combate e nas artes mágicas. A Trupe tem nos sido útil, mas eles podem não ser totalmente confiáveis. Arisha pensa que sou seu pai, jamais questionaria meus atos. Eu tenho a sua lealdade.

— E a tua lealdade é minha, certo?

— É do Mestre.

Moha’ra voltou a sorrir. Era aquele sorriso falso que Mryv’ gostaria de desfazer a tapas.

— É a mesma coisa.

Não, não é mesmo, seu sádico miserável.

Mryv’ viu então um semblante de incomodo no rosto do lorde. Este atirou-lhe o anel de volta, dizendo:

— Fique com ele. Se conseguiu pegar a Relíquia, quer dizer que ela o aceitou. Ao que parece, não sou digno de usá-la. O anel ficou tão quente que não pude mais segurá-lo. Mas com essa já temos três Relíquias.

—Três? Acharam mais outra.

— Sim. Tua irmã encontrou a Relíquia do Caos há alguns anos, em uma praia ao sul de Krujã, bem a leste de Nova Nyskar. Na verdade, pescadores a encontraram, junto ao, bem, como posso descrever? Um cemitério de sereias.

— Sereias? Nestes mares?

— É uma longa história, para outra noite. Aliás, Sónë’a deve chegar a qualquer momento.

Sim, mais uma louca para eu ter que tolerar.

— Isso é ótimo — Mryv’ disse. — Reunião de família.

Moha’ra fitou-o por um tempo, talvez apreciando a cinismo das palavras de seu visitante.

— E quanto às joias de Jyrah? — o lorde perguntou. — Sua irmã encontrou a joia da Torre.

Mryv’ remexeu-se na cadeira.

— Eu encontrei a joia da Espada.

Novamente, a imagem de uma mansão em chamas veio à sua mente.

— Isso é ótimo! — Moha’ra disse. — Como a encontrou?

— Estava em posse da filha de um aristocrata de Myr. Eu roubei dela.

E incendiei a mansão, matando um bebê inocente com isso. Carregarei esta culpa até meu último suspiro.

— Onde ela está? — Moha’ra perguntou.

— Guardada, em lugar seguro.

— Muito bom. Então, contando ainda com o brasão do Grifo, temos três joias. Bem, agora que você tem uma, será mais fácil encontrar as outras.

Mryv’ franziu o cenho. Perguntou o motivo. O lorde explicou.

— Quando Sónë’a me trouxe a joia da Torre, notamos algo maravilhoso.

— E o que seria?

— As joias reagem, quando estão próximas uma da outra. Já que tem uma delas, perceberá quando houver outra por perto. Agora, infelizmente ainda não descobrimos para que elas servem. Tem alguma ideia?

Mryv’ deu de ombros.

— Eu sou apenas o sujeito que as procura, milorde.

Houve uma batida na porta. Lorde mandou entrar, e o castelão informou-lhe que já estava tudo pronto para a apresentação. Moha’ra agradeceu, dispensou-o, e voltou-se ao convidado.

— Acho que deveria ver isto. É um espetáculo — disse, já se levantando. — Um bardo viajante muito talentoso está aí, para tocar sua harpa. E amanhã, teremos luta livre.

— Você disse que as joias reagem uma as outras. Como assim?

— Existe muita coisa que ainda não sabemos sobre elas. Para que servem, por exemplo. Mas eu te mostrarei isso amanhã. Temos ainda muito que conversar. Tenho novas instruções do Mestre para você. Já adianto que é uma tarefa grandiosa, mas tenho confiança em seu tato.

— O que seria exatamente?

— Os detalhes discutiremos amanhã, quando formos caçar. Pelo que me recordo, aprecia uma boa caçada, não é mesmo? As florestas daqui são muito ricas. — Mryv’ lançou-lhe um olhar impaciente. — Ah, estes jovens. Tudo bem, já adianto que se trata de guerra.

— Guerra? O Mestre pretende trazer os exércitos?

— Não fui claro o bastante, meu amigo. Não começaremos guerras entre nós e os humanos. Incitaremos guerras entre seus reinos.

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