As crônicas de Erys – capítulo 3

Olá, pessoal! Hoje eu trago mais um capítulo da história que estou escrevendo. Espero que gostem 🙂

Outros capítulos:

Prólogo

Capítulo 1

Capítulo 2

 


Capítulo 3 – A garota da tatuagem de serpente

O mercado estava apinado de gente. Aquele ar pesado fedido a suor e comida azeda impregnava nas narinas de Arisha. Era tanto gente que ela se sentia sufocada, apertada. Apenas mais um no meio daquele mar de pessoas. Parou em uma barraca qualquer e comprou algumas frutas. Comeu uma delas ali mesmo e seguiu seu caminho.

Atravessou todo o mercado, passando por todas as barracas. No fim da rua, havia um mendigo. Era um sujeito imundo, a barba grande e os cabelos desgrenhados. Moscas voavam ao redor dele, e o fedor que exalava era forte. Arisha desviou do caminho, indo para o outro lado da rua. Parou.

Maldição! Eu e meu coração mole!

Voltou, mas quase desistiu quando aquele odor subiu como um bafo de dragão. O indigente parecia dormir, mas quando ela chegou perto, ele ergueu a cabeça. Seu olho esquerdo era branco e cego, mas o direito era de maravilhoso tom esverdeado. Arisha colocou a sacola com as frutas na frente do homem e disse:

— Tome, é seu. Para matar sua fome.

O sujeito tossiu.

— Que outros como eu encontrem outras como você, moça. Obrigado, muito obrigado.

Ela sorriu sem jeito, levantou-se e seguiu o caminho até seu destino.

***

Quando entrou entrou no bordel, sentiu todos os olhares masculinos, sedentos e desejosos, sobre ela. O thy do ambiente era pesado, ácido, luxurioso. A sala principal cheirava a sexo e a bebida de segunda qualidade que era servida no bar.

Maldição, Inbert! Não poderia ter escolhido um local mais apropriado para esconderijo?

Ela correu os olhos pelo local e localizou Mueljen, também conhecido como Feiticeiro. Era um mulato de porte alto. Seu cabelo ela crespo, e usava um cavanhaque. Ele bebia algo, enquanto provavelmente jogava conversa fora com o taberneiro. Uma prostituta qualquer tentava algum tipo de comunicação com ele.

É inútil, querida. É preciso mais que um par de peitos para conquistar esse aí.

Arisha avançou pelo lugar, a passos apressados, entrançando entres as mesas, onde clientes e damas de prazer aqueciam seus líbidos antes de subirem para os quartos reservados. Ela tinha total consciência de que muitos ali a desejavam; o thy que ali vibrava gritava isso. Um velho barrigudo e mal-educado deu-lhe um tapa forte em sua bunda quando ela passou por sua mesa. Havia uma jovem loira nua em seu colo. Na outra cadeira, outro troglodita chupava os seios de outra moça, mas parou o ato para rir alto da cena.

— Faça isso novamente e perderá a mão — Arisha sibilou.

— Ah, eu gosto de mulheres bravas. É meu tipo. Porque não senta aqui conosco e nos divertimos um pouco?

Arisha inspirou fundo e contou mentalmente até três.

— Acho que sua companhia ficaria chateada com isso.

A moça sorriu maliciosamente.

— Eu adoro uma diversão à três. O que acha? — deu uma piscadinha.

— Viu? Estamos de acordo. E adoraria ver o que há debaixo dessas roupas.

Ele tentou levantar sua saia, mas Arisha imobilizou sua mão e atirou-a contra a mesa. A prostituta em seu colo caiu de lado e seu amigo ergue-se num pulo, derrubando a segunda puta. O sujeito gritou de dor e mais ainda de susto quando a lyasse fincou na mesa uma faca que estava escondida sob a saia.

— Eu disse que arrancaria sua mão se tocasse em mim novamente, não disse? Para a sua sorte, eu não cumpro todas as minhas promessas.

Pelo canto do olho, a Assassina viu que Mueljen observava curioso toda a cena. O assediador respirava pesado, e ela podia sentir o medo emanando dele. A lâmina estava a um dedo de distância de seu mindinho. Ela retirou a faca da mesa e sorriu satisfeita. Olhou em volta e constatou que todas as atenções se voltaram para ela. Anunciou para todo o salão.

— Não há nada para ver aqui. Eu e meu amigo tivemos um pequeno desentendimento. Mas para mostrar que não há rancor, a próxima rodada é por minha conta.

Isso arrancou alguns vivas e aplausos da plateia. Arisha seguiu seu caminho até o bar, onde se encontrava Mueljen.

— Nos dê licença, moça — ela disse à prostituta sentada ao lado dele.

A garota fechou a cara e saiu, olhando feio para ela.

— Sempre arranjando confusões por onde passa, hein pequena? — O Feiticeiro bebeu um gole do vinho. — Aceita uma bebida?

— Eu passo essa. Onde está Inbert?

— Ainda pergunta? Por que acha que ele escolheu um bordel?

— É claro que sim. E Aullys?

— Esperando por nós. Pelo tempo que passou, creio que já esteja muito impaciente.

— Não queremos que ele espere mais, não é mesmo?

O Feiticeiro assentiu. Retirou uma moeda de algum bolso secreto e atirou-a no ar.

— A garota é ruiva e você sabe como Inbert adora as ruivas. Acabaram de subir. Temos que decidir quem contará a ele que a diversão acabou. Cara ou coroa?

“Cara”, ela respondeu. Mueljen revelou a moeda. Ele suspirou, decepcionado.

— Cara. Você venceu. Tudo bem, eu faço isso. — Ele terminou o vinho com um grande gole e dirigiu-se ao taberneiro — Jöeba, leve a dama aqui até o local combinado, sim? Ah, não tente gracinhas com ela.

— Nunca, depois do que vi agora — ele riu seco.

— Agora terei que lidar com a fúria do dragão mimado.

E saiu, a passos calmos, como sempre. A Assassina retirou sete moedas de prata de sua bolsa e deslizou-as pelo balcão.

— Como eu disse, a próxima rodada é por minha conta. Fique com o troco. Mas antes, me leve até Aullys.

***

Arisha acompanhou Jöeba, que a conduziu até um quartinho nos fundos do prostíbulo. O homem aparentava ter meia idade, era meio gordo, e seu rosto era duro e cheio de cicatrizes, mal escondias por uma barba ralha. Mancava da perna direita.

— O que aconteceu com sua perna?

— É uma longa história, moça.

— Pode me contar outro dia. Ficarei até o fim do Festival.

— Receio que não. Não trabalho aqui, sabe? Estou apenas substituindo o velho Rantö, que amanheceu adoentado. Venha, é por aqui.

Seguiram por uma escada, que descia até um porão úmido debaixo do bordel. O forte cheiro de mofo misturado à fumaça das velas que iluminavam o local a sufocava.

Maldito Inbert, você me paga por essa.

— Aqui está — Jöeba disse.

Arisha logo notou Aullys. Era um homem baixo e truculento. Sua pele morena parecia mais avermelhada à luz fumacenta daquelas velas, mas seus doces olhos verdes se destacavam na penumbra. Ele estava sentado à mesa. Arisha virou-se para o taberneiro e entregou-lhe uma moeda de ouro.

— Vá e esqueça que estivemos aqui.

Jöabe girou a moeda nos dedos.

— É seguro presumir que, hã, usarão as instalações deste estabelecimento outras vezes?

— Não se preocupe, Jöabe. Temos ouro suficiente para pagar por nossa estadia e por seu silêncio. Agora vá.

Ele saiu e quando Arisha ouviu seus passos subindo a escada, voltou-se para Aullys.

— Esperou muito?

— Apenas algumas horas.

Ele levantou-se, tomo-a em seus braços e beijou-a. Ela apreciou o momento com gosto.

— Eu esperei muito para sentir esses lábios novamente.

— Ah, querida, foram apenas alguns dias.

— Pareceram semanas para mim — ela murmurou.

Ele roubou outro beijo.

— Quando tudo isso tiver terminado, — ele prometeu — faremos aquela viagem pelas Cidades Livres que tanto planejamos.

Ela alargou o sorriso, então ouviu passos vindos da escada e logo pode distinguir a voz irritante de Inbert.

— … maravilhosa, Mueljen. A ruiva era divina. E aquela tatuagem nas costas? Linda.

A porta abriu, mas Mueljen parou antes de entrar, deixando Inbert atrás dele.

— Que tipo de tatuagem?

— Ah, sabe, era tipo um anjo…

— Um anjo?

Arisha estava confusa.

— O que está acontecendo?

O Feiticeiro entrou.

— Nada demais. Apenas que Inbert se apaixonou novamente.

Inbert, também conhecido como Paladino, era o mais jovem do grupo. Ainda muito moço, mal saído da adolescência. Tinha os traços do clã Dragão. Ele entrou, ainda ajeitando as calças e trazia um largo sorriso no rosto. A Assassina retornou ao assunto.

— Mas estavam falando sobre uma tatuagem. De um anjo. Como a tatuagem de Lagrya?

O Paladino sentou-se.

— O que a preocupa? A garota é apenas uma prostituta. Ela me explicou que todas as prostitutas de Hárvyn são marcadas com uma tatuagem no cóccix, para que seus donos a identifiquem. Ela pertencia a uma dessas casas e quando conseguiu sua alforria, mandou tatuar um anjo por cima da antiga tatuagem tribal.

— Porque um anjo? — Arisha perguntou.

— Algum tipo de promessa religiosa.

— Isso não faz o menor sentido — Mueljen emendou. — Você diz que ela conseguiu alforria de um dos bordéis de Hárvyn, mas você acabou de pagá-la para trepar contigo. Qual o sentido de se libertar de uma antiga vida, se retornará a ela?

— Hã? Mas não é você mesmo que vive dizendo essas besteiras de roda do tempo e… como é mesmo? “O que já foi, há de ser novamente, e novamente…”

— Não caçoe da crença lysena, jovem. O tempo é cíclico, mas cada pessoa dita o próprio destino.

Aullys deu um soco na mesa.

— Chega desta conversa inútil — ele sibilou. — Não estamos aqui para falar sobre prostitutas ou crenças religiosas. Estamos aqui para falar de guerra.

Os três se olharam. A Assassina suspirou. O Feiticeiro puxou uma cadeira e sentou-se, e foi seguindo pela Assassina. Inbert preferiu ficar de pé.

— Muito bem, qual a situação? — Arisha perguntou. — Eu ouvi rumores de que há um grupo de bandidos fazendo tocaias nas estradas do bosque.

Ela olhou para Aullys, que concordou.

— É, encontrei dois deles quando vinha para cá. Digamos apenas que eles se encontraram com as estrelas, como Mueljen gosta de falar.

— Não são apenas dois — a lyasse observou. — Segundo o conselheiro Klëmayn, há, pelo menos, vinte. — Ela viu duas jarras sobre a mesa e ficou contente ao ver que uma delas continha leite. Aullys lembrara. Encheu um copo. — Ontem pela manhã o Conselho enviou um grupo liderado pelo Chefe da Guarda. Pelo crepúsculo, um cavalo retornou, carregando sua cabeça.

Inbert aproximou-se, encheu uma taça de vinho.

— O que temos a ver com isso?

Arisha bebeu um gole, que desceu quente por sua garganta. Adorava o sabor de um simples leite de vaca.

— Nada, na verdade — ela disse. — É só que, para lidar com a situação, conselheiro Klëmayn resolveu apelar.

— O que quer dizer com isso? — Mueljen perguntou.

— Ele enviou um cavaleiro da Irmandade da Luz para caçá-los.

Fez-se silêncio. Inbert até mesmo abortou o gole que tomaria do vinho.

— Um cavaleiro da Irmandade? Aqui em Vyzar?

— Agora entendem minha preocupação, não é mesmo? Na verdade, são dois: uma guardiã e seu pupilo. Parece que estão hospedados na casa do conselheiro Äiden. Ah, e ao que parece, o pupilo derrotou e capturou todos os vinte bandidos. Sozinho.

E nem quero imaginar o que sua mestra seria capaz de fazer.

— Então, qual é o plano? — Inbert perguntou.

— É óbvio — Aullys disse. — Temos que eliminá-los.

Inbert franziu o cenho.

— Não acho que é preciso chegar a tanto. Afinal, são apenas dois cavaleiros. O que dois nyflyns poderiam fazer contra um exército grande?

Aullys não deixou essa passar.

— Está se acovardando agora, filho?

O jovem exaltou-se.

— Está me chamando de covarde?

— Acalme-se, Inbert. Não há motivo para ficar irritado — o Feiticeiro falou calmamente. O rapaz escorou-se na parede. — Concordo que talvez seja um exagero nos preocuparmos em demasia com este assunto, mas certo grau de vigilância se faz necessário. Aullys, acredito que o real motivo de Lyuzäk o ter enviado é para rastrear potenciais nyflyns na cidade, correto?

Inbert ficou novamente confuso. “Rastrear?”

Ah, pelo Grande Dragão! Como esse idiota é lesado!

— Rastreadores de ny são nyflyns que possuem a habilidade de encontrar qualquer outro nyflyn por perto.

— Mas qualquer nyflyn pudesse fazer isso. É só sentir a vibração do ny, não?

Aullys explicou melhor.

— Acontece que para sentir ny é preciso esperar que ele se manifeste, mas então já pode ser tarde demais. Alguns nyflyns com afinidade espiritual, como eu, conseguem sentir ny em estado de repouso, sem que o outro perceba. Então o inimigo perde o elemento surpresa.

— Ah, isso é esperto.

— Não, isso é estratégia. Ainda tem muito o que aprender, meu jovem. Muito mesmo.

— Então está decidido — disse Mueljen, levantando-se. — Aullys fará o rastreamento da cidade, enquanto Inbert e eu coletamos alguma informação relevante entre os populares. Você, Arisha, continuará mantendo contato com o conselheiro?

— É o meu papel, afinal. O idiota é facilmente manipulável. Ele até me fez sua convidada especial no Festival. Eu sentarei ao lado dos conselheiros.

Aullys a olhou com legítima curiosidade.

— Porque não mencionou isto antes?

— Está com ciúmes?

Inbert riu e Aullys corou.

— Não é isso. É apenas, hã, troca de informações. O que, afinal, conseguiu obter do conselheiro?

Arisha sorriu.

— Ah, claro. O mais importante é que o rei de Kàrv está vindo para o Festival.

Mueljen sentou novamente. Inbert chegou mais perto.

—Bem, se isso for verdade, é uma oportunidade única — Aullys disse. — Se o rei de Kàrv cair, então além de Vyzar podemos ter o reino das Espadas em nossas mãos.

— Se o rei de Kàrv cair, estaremos em guerra contra o clã da Espada — Mueljen ponderou. — Acha mesmo sensato estar em guerra contra o reino que um dia já conquistou todo o continente?

— Podemos pensar nisso depois, quando Lyuzäk chegar — Arisha disse. — Podemos simplesmente fazer o rei de refém e barganhar um acordo com Kàrv.

— Essa é uma boa ideia — Inbert falou.

Mueljen lançou-lhe um olhar de desdém. Depois virou-se para Arisha e perguntou:

— E os exércitos?

— Estarão aqui antes do fim do Festival.

— Então tudo está indo como o planejado. Bom, muito bom.

— Bem, senhores — disse Aullys, se levantando. — Já sabemos o que temos que fazer. Vamos andando. Nos encontraremos aqui hoje à noite.

Arisha terminou seu copo de leite com calma, apreciando com gosto cada gole.

***

O crepúsculo lançava seus últimos raios sobre a praça de Vyzar. Um palco fora erguido lá, mas o que mais se destacava na praça era a grande estátua em honra à deusa Yzys. Tinha uns quinze metros de altura, era erguida sobre um pedestal cúbico de bronze mais alto que um homem. Era toda trabalhada em mármore branco e pintada com tinta de cores vivas. Tinha longos cabelos que desciam pelo busto cobrindo o seio esquerdo e sua única vestimenta era uma coroa de flores cobrindo seu púbis. Retratava a deusa segurando um corno do qual jorrava um filete de água que caía na fonte que rodeava o pedestal. Na outra mão, ela segurava um arco, também feito de bronze.

No lado sul da praça, fora erguida uma grande arquibancada, para o Festival. Dezenas de pessoas já ocupavam os assentos. Arisha estava no topo, de onde tinha total visão do local. No camarote, havia apenas ela, conselheiro Klëmayn e dois serviçais. “Acho que fomos os primeiros a chegar”, ele observara. Sentaram e o conselheiro logo pediu por vinho. Quando um dos empregados ofereceu uma taça à moça, ela recusou.

— Não, obrigada. Eu não bebo álcool.

Klëmayn franziu o cenho.

— É a primeira pessoa que vejo recusar um bom vinho. Mas bem… aceita então outra coisa?

— Leite seria um pedido muito estranho?

O conselheiro riu.

— Certamente que sim, mas seria uma desfeita recusar o pedido de uma dama tão formosa.

Não preciso de seus elogios, seu velho bajulador.

— Eu agradeço — e forçou um sorriso.

“Vocês a ouviram” ele disse aos empregados. Voltaram instantes depois, com um copo de leite fresco. Ela tomou um gole e fitou a estátua da deusa.

— O que essa deusa representa? Me perdoe minha ignorância sobre sua cultura.

— Rá, rá, não há o que se desculpar, milady. Yzys é a deusa das Flores e da Serenidade. Filha de Seleny, a deusa Lua, com Nuban, o senhor das Águas. A lenda diz que ela fundou esta cidade.

“Entendo” ela murmurou como resposta. Ficou a contemplar a estátua por mais algum tempo. Algo — não sabia exatamente o que era — atiçava sua intuição.

— É uma bela estátua.

O conselheiro a fitou.

— Me perdoe pela pergunta íntima, mas você é uma pessoa religiosa, Arisha?

Ela não respondeu de imediato. Ficou mais um tempo ainda contemplando a estátua da deusa. Tomou um gole da bebida.

— Não. Acredito no conhecimento, na ciência.

— E em magia?

Novamente, ela se demorou um tempo até responder.

— Eu nasci em Lyás, mas fui criada no mundo. Meu pai era um mercador viajante. Um dia estávamos numa cidade e na outra semana já havíamos partido para outros ares. Eu vi várias coisas: magos fazendo seus truques, médicos praticando sua medicina, astrônomos contemplando as estrelas, alquimistas estudando os segredos da matéria. Sim, conselheiro, eu acredito em magia. Vi magos movendo objetos sem tocá-los ou feiticeiros criando ilusões mentais. Magia é real. Não uma ilusão coletiva com o propósito de confortar o frágil ego humano.

— Não acredita em milagres, milady?

Ela já estava ficando entediada com aquela conversa.

— Eu nunca vi um milagre antes.

— Bem, milagre é um conceito relativo, milady. As forças divinas podem se manifestar de formas sutis. Quem sabe, a magia dos magos não foi um presente de Feiten? Ou Nuban cura os enfermos pelas mãos habilidosas dos médicos? Talvez a alquimia seja a forma de Asun nos contar os segredos da criação?

Ela contou até três mentalmente.

— Apenas não entendo esta necessidade humana de querer enxergar o divino em tudo.

Ele fez uma mesura.

— Eu vou te contar uma história, milady. Quando eu era criança, acho que seis ou sete anos, minha mãe ficou muito doente. Nenhum dos médicos da cidade sabia dizer o que ela tinha, ou poderia curá-la. Meu pai já estava perdendo as esperanças, meus irmãos estavam desesperados, mas eu tinha fé. Temos um Templo da Lua, mas aquela estátua era a coisa mais próxima que eu conhecia de um deus, e ainda é. Eu nem compreendia direito o conceito de divindade. Mas eu fui até lá, me prostrei perante ela, e lhe implorei, com lágrimas nos olhos, que curasse minha mãe.

Ele fez uma pausa. Arisha não queria admitir, mas estava curiosa. O conselheiro continuou.

— Eu… eu não sei explicar o quê exatamente, mas senti um calor, uma presença. Tive certeza que a divindade estava lá, ao meu lado, como se me dissesse “tudo ficará bem”. Voltei para casa com o espírito renovado. Dois dias depois, apareceu um médico forasteiro. Trouxemos ele até nossa casa. Após examinar minha mãe, ele concluiu que se tratava de uma enfermidade rara. Por sorte, ele pesquisava esta doença. Minha mãe foi curada.

— O médico a curou, não a deusa.

— Não, milady, não está entendendo. Ele só apareceu na cidade porque desviou o caminho. Estava indo para as Cidades Livre. Ele falou que sentiu-se impelido a rumar para Vyzar, como se sua intuição o chamasse para lá. A deusa, ela o enviou. Eu tenho fé.

Ela assentiu. Bebeu um pouco mais do leite e fitou a estátua. Mais pessoas chegavam à praça. Já era quase noite, e a Estrela de Asun surgira no firmamento.

— Você contou a sua história, conselheiro. Permita-me retribuir com a minha. Certa vez, em nossas andanças, eu e meu papa encontramos um velho em uma cabana. Uma chuva torrencial caia dos céus e o bom homem nos ofereceu hospedagem e sua humilde habitação. Meu papa e ele conversaram muito durante o jantar. Eu tinha uns sete anos e não me recordo muito do que falaram, mas lembro de algo meu papa falou que guardarei para a vida toda.

— O que seria?

— Veja bem, o homem da cabana era solitário. Depois que a esposa morrera, decidira viver isolado. Então ele vendeu seus pertences e construiu uma cabana no meio da floresta. Ele disse que nós éramos as primeiras pessoas que encontrara em sete meses. O velho disse que apreciava nossa companhia, mas a solidão era muito melhor. Ele gostava de contemplar o céu noturno. Sentia-se deslocado do mundo, como se não pertencesse à sociedade. Como uma ilha isolada em alto-mar.

— Muitas pessoas se sentem assim, milady.

— Com certeza. Mas meu papa lhe disse que ninguém nunca está realmente sozinho no mundo. Vivemos imersos em um mar de pensamentos, e, às vezes, estes pensamentos viajam neste mar, como ondas. Às vezes, uma dessas ondas chega a outra pessoa. É aí que reside a força das ideias, conselheiro. Elas afetam o pensamento coletivo. Quanto mais gente pensando nela, mais forte ela será e mais pessoas afetará. É por isso que as religiões são tão eficazes. Mas este não é o ponto. O que quero dizer é que uma pessoa sozinha, se tiver um pensamento, um desejo forte, pode influenciar várias pessoas ou alguém muito distante. Como alguém que deseje desesperadamente encontrar a cura para sua mãe enferma. Reflita sobre isso, conselheiro.

Klëmayn olhava para ela admirado.

— Tão jovem e tão sábia! Milady, se um dia tiver esta honra, gostaria de conhecer seu amado pai pessoalmente e parabenizá-lo pela excelente criação.

— Talvez o conheça, conselheiro. Ele está vindo para o Festival também.

Ele ergueu a taça de vinho:

— Um brinde ao seu pai.

***

Depois disso, não tardou muito para que os outros convidados aparecessem.

O primeiro a aparecer foi conselheiro Äiden. Era um sujeito baixo e gordo, além de calvo e com trejeitos um tanto afeminados. Ele se vestia de maneira simples: uma longa túnica branca e sandálias. Estava acompanhado de um homem forte, alto e pálido como mármore. Seu cabelo curto era negro, assim como seus olhos apertados. Usava roupas finas, dignas da realeza.

O rei de Kàrv!

Klëmayn fez as apresentações.

— Conselheiro, alteza, permitam-me apresentar-lhes Arisha Trum, representante de Króz no Festival. Arisha, este é conselheiro Äiden Lawys e, nosso convidado de honra, Lorde Mykhá Késhan, irmão do Rei Mytos Késhan, de Kàrv. Infelizmente o rei não pode vir à Vyzar, mas seu nobre irmão honra-nos com sua presença no Festival.

Então não é o rei, como pensara. Uma pena.

Lorde Mykhá dirigiu-lhe uma cortesia respeitosa, mas Äiden tomou sua mão e beijou.

—Devo dizer que este ano o governo de Króz fez uma excelente escolha para seu representante no festival. Como foi a viagem, milady? Espero que não tenha sido importunada pelos bandidos que rondavam o bosque.

— Nada de ruim me ocorreu. Obrigada pela consideração, conselheiro.

Ele fez uma mesura.

— Bem, sinta-se em casa. Vyzar também é seu lar.

Ah, com certeza.

— De que bandidos estavam se referindo? — Mykhá perguntou.

— Alguns saqueadores que andavam importunando os viajantes — Klëmayn interveio. — Mas não há com o que se preocupar, alteza. Enviamos um cavaleiro da Irmandade da Luz e todos já foram presos.

O lorde olhou para o outro conselheiro.

Não mencionou isto antes, Äiden. Estão se referindo à kir Lianny e seu pupilo?

— Sim, sim — ele confirmou. Virou-se para Klëmayn. — Os dois estão hospedados em minha casa. Também são meus convidados para o Festival.

—E o que se sabe sobre esses bandidos? — Mykhá disse.

— São uns idiotas, isto sim — outro homem falou.

Era um sujeito de estatura média, magro. Seus poucos cabelos já estavam ficando grisalhos e sua face era cansada. Ele vinha acompanhado de uma jovem moça, que tinha uma cara meio sonsa e um homem gordo e barbudo, que, pela maneira como arfava, não conseguia nem mesmo subir a arquibancada sem cansar. O homem de cabelo grisalho continuou a falar.

— Interrogamos alguns deles, separadamente, e a história que contam parece ser consistente. São um grupo de mercenários vindos das Cidades Livres que resolveram tentar a sorte em Vyzar. Mas parece que o lider do grupo conseguiu fugir. E dois deles estão sumidos, aparentemente.

Klëmayn perguntou por nomes. O outro balançou a cabeça.

— Se tratavam apenas por apelidos. Fora um ou outro, eles não conhecem os nomes verdadeiros de todos do grupo. Muito menos do líder. Disseram que foram contratados por um pistoleiro mulato, calvo e gordo. — O homem caminhou até a mesa e serviu uma taça de vinho, a qual ofereceu à jovem loira ao seu lado. — O tal pistoleiro coletou tudo que foi roubado, depois sumiu, pouco antes dos outros serem capturados. Estamos fazendo buscas pela cidade, mas sem sucesso até agora.

Agora ele ofereceu vinho ao barbudo gordo. Klëmayn continuou.

— Eu sugiro que reforcemos a segurança da cidade.

— Não acha que já fiz isso, Klëmayn? Mas apenas por precaução. Isso foi um caso isolado. — Ele então virou-se para a lyasse. — Você deve ser Arisha Trum, representante de Króz, estou certo?

Ela confirmou.

— Eu sou Tytösh Claws e recebi seu pedido formal de reconsideração das impostos.

— Ah, claro. Peço que pense no assunto, pois nosso povo anda sofrendo muito. Estes últimos anos foram pouco frutíferos, as colheitas….

— Sim, eu li seu pedido, não precisa repetir.

Arisha respirou fundo e contou até três. A jovem que acompanhava Tytösh tomou a palavra.

— O Conselho deverá se reunir ainda esta semana e discutir o seu pedido.

— E você é?

A loira fechou sua cara.

— Meu nome é Mëlka Artys, e sou a presidente do Conselho de Vyzar.

Arisha quase riu, mas se conteve. Não precisou pensar em uma resposta. Uma senhora de idade entrou acompanhada de um homem e, após percorrer o recinto com um olhar severo, falou:

— Ao que parece, fui a última a chegar. Mil perdões, mas sabem como é meu filho — e fez um gesto em direção ao sujeito que a acompanhava. Virou-se para o homem de Kàrv— Ah, Lorde Mykhá, como vai? Espero que tenha feito uma boa viagem.

O lorde retribuiu o comprimento. Um jovem trazendo um berrante entrou e pigarreou.

— Senhores conselheiros, já está tudo pronto.

— Excelente — Tytösh disse. — Mëlka, por favor, faça as honras.

Todos sentaram. O arauto se encaminhou a sacada e tocou o berrante. Quando a atenção do público se voltara para o camarote, ele falou, anunciando o início das comemorações. Depois apresentou os conselheiros e por fim, deu a palavra à presidente Mëlka. A moça fez um discurso rápido, que foi bastante ovacionado.

Após o discurso inicial, uma trupe viajante encenou uma peça que contava a lenda da criação da cidade. Em seguida, um grupo de dançarinos apresentou um espetáculo de dança e luz, ao som de flautas, tambores e violinos, onde bailavam e faziam malabarismos com fogo e troques de piromantes. Por fim, um bardo fechou as apresentações da noite com uma música que Arisha conhecia bem. Era uma velha canção lysena, chamada “O Andarilho chega à Taberna”, cantada em sua versão no idioma kàrveno:

Ó, viajante desconhecido!

Senta aqui e beba comigo.

Enquanto esperamos pacientemente

A morte do Rei Louco

Ó, estranho andarilho!

Sinto em você toda a dor do mundo

Por isso senta aqui e beba

Enquanto o Tempo nos mata lentamente

Ó, caro visitante!

Não te apresses em terminar.

Fique aqui esta noite fria.

Amanhã a Alvorada Prometida surgirá

Ô, estimado amigo!

Sei que duvidas do próprio caminho

Mas não importa qual estrada siga

Todas levam ao mesmo Destino.

Ó, meu amado irmão!

Acorde rápido e fuja!

A Torre da Eternidade caiu

E a Alvorada não veio esta manhã

Ó, pobre e desolada alma!

Diria para fugires para o abismo

Mas não há lugar seguro

Quando a Luz deixa de brilhar!

Por isso, ó companheiro!

Faça seu último desejo.

E bebamos até o fim dos tempos.

Que não tardará a chegar.

Após isto, todos se dirigiram para a Torre Alto, onde se daria o baile, restrito aos convidados do Conselho.

— Temos algumas charretes esperando por nós no final da praça, milady — conselheiro Klëmayn falou.

Ele estendeu-lhe o braço, e Arisha, de mau grado, aceitou. Caminharam em direção às charretes e ela observou bem os convidados dos outros conselheiros, aqueles que não estavam no camarote. Eram cinco comitivas, uma para cada conselheiro, e cada uma delas com, pelo menos, dez pessoas. Era, porém, a comitiva do conselheiro Äiden que mais chamava atenção.

O próprio conselheiro seguia na frente, conversando com Lorde Mykhá, que andava de braços dados com uma mulher baixa e roliça, com traços do clã da Ninfa. Ao lado deles, vinham duas garotas adolescentes, ambas com traços do clã da Espada, que conversavam aos cochichos. As duas eram seguidas de perto por um ilhéu forte de semblante sério, que trocava palavras com um homem de Kàrv. Ambos estavam armados com cimitarras. Mais atrás, vinha um casal singular. Uma mulher com longas tranças loiras, atadas com fita azul e um sorridente adolescente ruivo.

Logo atrás vinham a esposa e os filhos do conselheiro Äiden, e alguns guardas, mas quem mais chamava atenção era a companhia deles. Um deles era um homem e loiro e bem-afeiçoado, com ar de camponês. Ele puxava pela mão uma garota que não deveria ter mais de dez anos. A menina era sorridente, animada, e não parava de falar. Todas as atenções do grupo estavam voltadas para ela. Não era, porém, seu riso espontâneo ou seus belos olhos azuis-claros que chamavam mais atenção.

Eram os seus cabelos prateados.

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