As crônicas de Erys – capítulo 2

Como eu sou muito lesado, da última vez que eu postei um capítulo do meu livro, eu postei o capítulo 3, dizendo ser o capítulo 2. Para remediar este mal, agora sim eu postarei o verdadeiro capítulo 2. Espero que gostem 🙂

Leiam os outros capítulos

Prólogo

Capítulo 1

Capítulo 3


Capítulo 2 – O bêbado, o feiticeiro e a pupila

Barhend estava sentado no canto mais escuro da Taberna do Dragão Solitário, numa mesa ao fundo do salão, quase escondido na penumbra. A noite era fria, mas o ar ali era caloroso. De onde estava, via todo o recinto. Na mesa mais próxima, um casal comia em silêncio uma refeição simples. Poderiam ser pai e filha, não fosse tão distintos fisicamente. O homem era alto e magro, pele pálida e cabelos pretos desgrenhados. Trajava roupas escuras e um casaco negro. Aparentava ter meia idade. Já a garota devia ter uns nove ou dez anos. Era baixa e tinha os traços do Dragão: pele morena e cabelos castanho avermelhados.

As outras mesas estavam apinadas de camponeses e peões que trabalhavam nas plantações dos campos quase inférteis da região. A taberna estava movimentada, e Barhend observou por alguns instantes o andar macio de Kassandry, a taberneira, bailando entre as mesas. Um grupo de músicos se preparava para subir ao palco, enquanto um bardo solitário tomava um drinque no balcão. O cheio de álcool e suor impregnava no ar, assim como o sabor seco da poeira do deserto.

Eram quatro músicos: um trazia a rabeca, outro um violino e o terceiro se encarregava de um tamborete. A quarta era uma dama jovial, que ergueu sua mão e, quando se fez notar por todos na taberna, falou:

— Boa noite, povo de Króz! Meu nome é Sein, e esta é minha banda, os Saltimbancos de Goshá. Como veem, viemos de longe, então gostaria de agradecer ao senhor Rives, o dono da taberna, por gentilmente nos convidar para alegrar esta noite. Bem, espero que aprecie a música e — neste momento ela soltou um grito alegre — vamos dançar muito!

A multidão deu vivas a isto. A música começou. Sein tinha uma bela e cadenciada voz. O povo se animou, e logo vários pares de pés estavam se arrastando pelo salão, seguindo o ritmo da música. Os casais dançavam colados, rebolando seus quadris com excitação. A noite pareceu menos fria e aqueles que não dançavam aplaudiam alegres de suas mesas. Barhend acompanhava as palmas e viu que até mesmo o homem de preto da mesa ao lado, que tinha um ar sério, juntou-se à multidão no ato. Quando a música parou, o homem comentou com Barhend:

— O povo aqui é muito animado, hein?

— Demais — disse, após sorver um gole da cerveja, que desceu quente. — A música é a cura para o cansaço da labuta diária.

— Sim, verdade. É impressionante como uma boa música é contagiante.

— Concordo, meu amigo.

Ele ia perguntar mais sobre o homem e sua filha, mas a música recomeçou e Kassandry veio em direção à sua mesa, perguntado se queria mais cerveja. Ele ergueu a caneca em resposta e a taberneira a encheu com uma espessa cerveja preta.

— Porque não larga esta bandeja e vamos dançar um pouco — Barhend falou, por cima da música.

— Eu estou trabalhando, se não percebeu ainda.

Ela saiu, mas não antes de piscar para ele.

***

 

Após os Saltimbancos de Goshá, o bardo ficou responsável pela música, mas sua harpa tinha um tom mais melancólico. Barhend tomava os últimos goles de sua bebida quando seu irmão Jurhent adentrou no recinto.

Ah, desgraça! Caiu na bebida novamente. Maldita puta do Oeste!

O primogênito trazia um par de cimitarras na bainha e uma caneca nas mãos. Tomou um gole, esvaziando-a. Jogou-a no chão, aproximou-se de uma mesa aleatória, tomou uma caneca de um dos consumidores e bebeu.

Ah, isso é ruim.

— Isso é meu!

Os homens da mesa ergueram-se, e um deles sacou uma faca. A música parou, o harpista deixando uma última nota fúnebre vibrando no ar seco.

— Aqui não! Lá fora! — gritou o dono da taberna.

Barhend já ia levantar-se, mas conteve-se.

— Desculpe, companheiro! — o bêbado respondeu. Virou-se para a garçonete, que estava atrás do balcão. — Kassy! Traga mais uma caneca para o companheiro aqui! Não! Duas! Para ele. E duas para mim. Tudo por minha conta!

Atirou duas moedas de ouro para o “companheiro” as quais pagavam com grande folga as duas taças de cerveja. Este pegou-as no ar.

Já chega desta cena.

Levantou-se num supetão, arrastando a cadeira. “Jurhent!” ele chamou. Só então o bêbado notou a presença do irmão.

— Ah! Barhend, meu irmão! Junte-se a nós em nossa comemoração.

Bebeu mais um gole da taça roubada do “companheiro”.

— Você desonra o nome de nossa família.

“Como se ainda tivesse alguma honra” alguém zombou. Barhend ignorou o comentário.

— O nome de nossa família? — Jurhent repetiu. — O nome de nossa família, irmão, foi desonrado há quatro mil anos quando aqueles usurpadores de Kàrv roubaram a nossa terra por direito.

De novo essa conversa!

— Arr, isso é história do passado, Jurhent. Pare de dar atenção às conversas loucas de nosso avô e esqueça isso.

Ele o ignorou. A cerveja falou por ele.

— Como se não bastasse roubar a terra que é nossa por direito, milhares de anos depois, aqueles putos de Vyzar resolvem se apoderar do que sobrou do nosso clã. Eles sugam de nossos irmãos o que não tem, enquanto se deleitam com vinho doce. As taxas são caras, o fardo é grande e que ajuda recebemos deles? Nenhuma, eu digo. Esquecer? Não! Não podemos esquecer. Não podemos esquecer a glória e a majestade do antigo Império do Dragão, que um dia reinou da Baía Grande até as Montanhas de Kàrv! — Virou-se para a sua “plateia” — Não percebem, companheiros? Por que viver nesta terra seca, quando podemos viver na terra que um dia fora de nossos antepassados? — Virou-se para o seu “companheiro” e falou, bem na sua cara. — Não sente isso em seu coração, companheiro?

— Sinto o teu bafo em minha cara. Companheiro.

Uma rajada de risos cortou o ar. Até Barhend esboçou um sorriso nervoso.

— Por que riem de coisa tão séria? Por acaso o sangue do Dragão virou areia em suas veias? Precisamos tomar o que é nosso por direito. Precisamos tomar Vyzar!

Houve um breve silêncio, que foi aos poucos morrendo e dando lugar a vozes. Algumas diziam “louco”, outras “bêbado”, “idiota”, “vá embora”. O companheiro ainda tentou argumentar, claramente em tom de chacota.

— E como pretender fazer isso, companheiro? O “glorioso Império do Dragão” foi hoje reduzido a centenas de tribos rivais no deserto.

— Precisamos juntá-las, então. Uni-las sob o mesmo estandarte.

— Quem fará isso? Você?

— Esse discurso está indo longe demais — o homem de preto comentou a Barhend. A voz era suave e comedida, mas Barhend captou a urgência na fala. — Pode gerar um caos facilmente.

— Está certo — Barhend falou.

— Se for preciso, sim! — Jurhent disse. — Cavalgarei o deserto de Lyás de ponta a ponta e unirei as tribos sob este mesmo ideal. Eu, Jurhent Deslyn, filho de Thuren, da última linhagem real do clã do Dragão — neste momento alguém gritou “a tua família tá acabada, seu puto” — levarei o nosso povo à terra prometida nas canções…

Seu discurso parou abruptamente quando Barhend lhe deu uma forte pancada na cabeça, derrubando-o inconsciente sobre a mesa.

— Não. Você vai para casa, irmão. Eu mesmo o levarei.

***

 

Cavalgaram por algum tempo, Jurhent caído por cima do cavalo. Desceram lentamente as ruas de Króz. Passaram pelo Palácio de Mármore e cruzaram a praça principal, de onde era possível ver, ladeira abaixo, o Arco dos Dragões, na entrada da cidade. Seguiram à esquerda. A madrugada estava calma.

Não há ninguém nas ruas.

Uma brisa fria cortou os ares secos, arrepiando os pelos da nuca de Barhend.

Parado do outro lado da rua estava o homem que vestia preto, aquele que sentara na mesa mais próxima. Barhend descreveu um meio círculo com o cavalo e notou que na outra esquina estava parada a garota. Cercado pelos dois lados. Virou-se e gritou ao sujeito:

— Quem são vocês? Ladrões? Assassinos?

Levou a mão à bainha; estava a um movimento de sacar a adaga.

— Guarde a lâmina, Barhend, filho de Thuren — disse o homem, com o inconfundível sotaque do Oeste. — Não somos ladrões ou assassinos. Quero apenas conversar e, se estiver interessado, fazer uma proposta.

— E se eu não estiver interessado?

— Então pode ir embora. — Mostrou-lhe o caminho atrás de si. — Mas não fará a desfeita de recusar-se a pelo menos ouvi-la, ou vai?

Deu alguns passos, aproximando-se. Barhend desembainhou a adaga.

— Alto lá!

O homem parou, mas não parecia intimidado, a despeito de estar desarmado. Ou, pelo menos, aparentava estar.

Estou perdendo meu tempo aqui. Posso simplesmente galopar e passar por cima dele.

Mas uma espécie de intuição o obrigou a ficar parado.

— Garanto que não há razão para ficar apreensivo, rapaz — o homem de preto falou amavelmente. — Guarde a lâmina.

Barhend apertou o cabo da adaga com força.

— Não confio em você.

— Compreendo sua desconfiança. Eu sentiria o mesmo em seu lugar. — Começou a caminhar. — Mas quero apenas conversar. Garanto que, se quisesse matá-lo, você já estaria morto.

— Ah, é?

O estranho fez um movimento brusco. Uma grande cortina de poeira ergueu-se no meio da noite, e Barhend sentiu uma forte rajada de vento cortar a rua solitária. Seus olhos se irritaram devido ao pó.

“Sim” disse o homem de preto, bem à sua frente. Com um movimento rápido, ele desarmou Barhend, roubando-lhe sua adaga. Ele desequilibrou-se, mas o homem de preto o segurou. Vendo-o de perto, Barhend percebeu que seus olhos não eram azuis, como havia suposto de início, mas de vívido púrpura.

— Co… como fez isso?

O estranho o soltou e não se dignou a responder sua pergunta. Afastou-se dois passos para trás e examinou a adaga roubada.

— Não vai se importar se eu ficar com sua lâmina, não é mesmo?

Ele sorriu de uma maneira que Barhend não sabia se ficava aliviado ou ainda mais apreensivo. O rapaz tremia. Acomodou-se melhor no cavalo e ajeitou também seu irmão inconsciente na sela. Olhou em volta e via que a garota permanecia imóvel, observando tudo. Um arrepio subiu pela espinha.

— O que são vocês? Demônios?

O forasteiro suspirou.

— Nos ofende com essas palavras, rapaz. Somos nyflyns. Nunca ouviu falar de magia?

Ele engoliu em seco.

— Feiticeiros não são permitidos no reino. Há séculos que eles foram banidos. Feitiçaria é demoníaco.

— Ou divino. É uma questão de ponto de vista.

Neste momento, a garota estranha passou por eles. Sentiu um arrepio quando seu olhar cruzou com o dela. Eram os olhos mais lindos que já vira, mesmo assim não pode deixar de sentir medo. Ela pôs-se ao lado do homem de preto.

— O que querem?

— Queremos lhe fazer uma proposta. Estaremos na loja do boticário. Esteja lá antes da alvorada, caso decida “sim”. Após esse tempo, concluiremos que a resposta é “não”, e então partiremos. A escolha é sua, rapaz.

Ele deu meia volta e saiu. Foi embora a passos calmos, sem olhar para trás. A garota, entretanto, olhou.

***

 

Barhend viu-se batendo à porta da casa do boticário.

Isso é loucura!

Mas a curiosidade humana é grande e não se importa com os riscos.

A porta abriu, revelando a garota estranha. Ela vestia calças e camisa de couro, e trazia duas facas na bainha. Sem dizer uma palavra, ela virou de costas, deu três passos e parou. Barhend não se movera. A menina virou-se e questionou com um leve movimento da cabeça se ele não a acompanharia.

Ela é muda?

Ele apontou para fora.

— Meu irmão.

Ela fez uma expressão de tédio, revirando os olhos. Cruzou os braços e manteve-se nessa posição. Barhend suspirou. “Está bem”.

Com muita dificuldade conseguiu despertá-lo parcialmente. “Barhend?” ele disse, com voz sonolenta e embriagada.

— Estou aqui. Apoie-se em mim. Vamos dar um passeio.

Caminharam meio cambaleantes. A menina — que talvez fosse muda — apenas observava com curiosidade. Ela os conduziu por um lance de escadas e chegaram a um porão empoeirado e cheio de teias de aranha. A poeira e o forte cheiro de poções e produtos de alquimia irritava suas narinas. Havia uma prateleira cheia de potes e vasilhas e outra onde uma dúzia de livros repousava. Todo ali parecia velho, senil.

A garota fez uma mesura, esticando o braço na direção do feiticeiro, que estava sentado numa velha cadeira de balanço. Ele mudara de roupa. Vestia agora calças leves, uma camisa azul-escuro e sandálias. Barhend notou também algumas joias: um anel e um colar com um brasão em forma de duas espadas cruzadas, ambos banhados a ouro. Ele girava o anel distraído, contemplando o silêncio.

— Ah, então você veio!

Sem cerimônia, Barhend sentou seu irmão numa cama velha e empoeirada.

— Onde está o boticário?

— Ele teve que fazer uma viagem de emergência. Por isso eu estou responsável pela sua loja estes dias.

— O que quer de nós?

O homem levantou-se e caminhou em direção aos dois. Não tinha medo dele, apenas receio.

Se ele nos quisesse mortos, já teria feito.

Jurhent ainda sofria os efeitos da bebida no sangue. “Irmão? Onde estamos?” ele perguntou, encarando o ambiente.

— Acho que não podemos confabular decentemente se seu irmão estiver nesse estado.

— Pretende adiar essa reunião para depois?

— Farei melhor.

Aproximou-se de Jurhent e pegou suas mãos.

— Ei! O que vai fazer?

Barhend quis intervir. Mas a garota esticou seu braço, exibindo uma afiada lâmina e barrou sua passagem. Ela fitou-o com um olhar que acalmaria até o mais feroz dos animais. Aquele olhar, era o olhar mais lindo que já vira, do mais puro azul. Ela guardou a faca e acenou de leve com a cabeça, indicando que estava tudo bem. Aquele olhar o convenceu disso.

— Observe e aprenda, meu jovem. Observe o poder de um nyflyn.

Ele fechou os olhos e se concentrou. Barhend sentiu um calafrio cruzar seu espírito e logo em seguida viu o semblante de seu irmão mudar. Antes era um semblante de sono e embriaguez, mas agora era um semblante de total lucidez. O homem de preto afastou-se na hora certa, pois Jurhent curvou-se e vomitou toda a cerveja que bebera.

Correu para o irmão.

— O que aconteceu? Jurhent, você está bem?

Ele arfava. Parecia confuso. Tomou fôlego e disse:

— Acho que eu vomitei o jantar. Onde estamos? Quem são eles?

— Boa pergunta. Quem são vocês, afinal?

O feiticeiro fez uma reverência:

— Podem me chamar de Lyuzäk. Esta é milha pupila. Arisha, por favor, mostre-os a tatuagem.

A garota receou e fitou-o com cara de espanto.

— Está tudo bem, filha. Eles são de confiança.

Barhend cogitou a possibilidade de aquele homem ser louco. Não seria totalmente irreal.

Arisha olhou desconfiada. Depois virou-se de costas e levantou sua camisa, até a altura da cabeça, revelando a tatuagem. Uma bela tatuagem! Uma serpente verde-escura envolvendo uma espada de lâmina azulada. Barhend reconheceu-a.

— Oh, pelo Grande Dragão Branco! — murmurou, abismado. — Vocês são… da Trupe Celestial.

Lyuzäk sorriu. Dirigiu-se a uma mesa, e foi seguido pela menina. Pegou uma jarra e encheu três copos com um líquido branco. Fez tudo isso com muita calma. O coração de Barhend batia acelerado, apreensivo.

Não pode ser, estamos diante de assassinos treinados. O que estamos fazendo aqui?

Lyuzäk tomou um dos copos em suas mãos, enquanto Arisha aproximou-se e ofereceu os outros dois aos visitantes. Barhend olhou desconfiado.

— É apenas leite — Lyuzäk falou, e tomou um gole. — Ao que parece, conhece a nossa história.

Jurhent aceitou a bebida e falou:

— Nosso avô nos contou. Ele lutou contra a Trupe, em Saeth e nas terras élficas.

— Mas pensei que todos tivessem sido mortos — Barhend emendou.

Vendo que Arisha ainda oferecia a bebida humildemente, Barhend aceitou, mas não bebeu. A garota voltou ao lado de Lyuzäk, que estava escorado na mesa. Ele riu.

— Estão errados, jovens. Nem todos da Trupe foram mortos. Seu avô mentiu para vocês. Quem derrotou a primeira formação da Trupe foi a Guarda Suprema da Irmandade da Luz. Todos em Asmyr conhecem essa história. Eu recomecei com uma nova formação da Trupe. E estão errados também sobre seu avô Kaemyt. Ele não lutou contra a Trupe. Ele era da Trupe.

Não, não pode ser.

— Está mentido. Nosso avô foi um homem íntegro, não um assassino.

— Ele mudou seus ideais, sim, e saiu do grupo. Sem ressentimentos. As pessoas podem mudar com o tempo, mas o passado não pode ser apagado. Cabe a cada um saber lidar com isso. Alguns lidam distorcendo os fatos — ele tomou um pouco mais do leite.

Barhend sobressaltou-se:

— Você desonra a memória de nosso avô.

— Pelo contrário. Eu respeito a sua memória.

— Pare de dizer isso. Você nem chegou a conhecê-lo — sua voz saiu ríspida.

— Ah, meu jovem, está enganado novamente. Eu tive a honra de conhecê-lo. Eu era um rapaz mais jovem que vocês agora. — Apontou para Jurhent, sorrindo. — Eu me lembro de você, no colo de sua mãe Yabam e você — apontou para Barhend — ainda nem fora concebido naquele tempo. Isso foi antes de se mudarem para Króz, suponho. Moravam ao sul de Marjá, em Vila Solitária, em uma casinha branca, no final da última rua. Eu me recordo que havia uma velha gëubeira no quintal e Yabam fez um delicioso bolo de gëuba, o melhor que já comi em minha vida. Foi lá, sentados em um banco de pedra, à sombra desta árvore, que meu mestre confabulou com seu avô e aprendemos mais sobre a lendária Trupe Celestial.

Não é possível! Ele conhece muitos detalhes de nossa antiga casa. Deve ser verdade. A gëubeira nem existe mais!

— Está bem. Você conheceu Kaemyt — ele admitiu. — Mas o que quer de nós?

Eu quero ajudar vocês a fazer aquilo que Kaemyt não pode: reerguer o antigo império dragão.

Barhend riu.

— Isso só pode ser uma piada. O antigo império dragão hoje não passa de poeira do deserto.

— Mas nós temos o sangue dos antigos reis correndo em nossas veias — Jurhent protestou. — O tataravô do tataravô de nosso bisavô foi o último governante do Króz antes da queda do reino, quando fomos subjugados por Elderöth, o Conquistador.

— Você realmente acredita nas ilusões de grandeza de nosso avô?

O feiticeiro riu.

— Onde está a honra de Kaemyt agora?

— Cale-se! Já disse que não tem o direito de invocar a memória dele.

Lyuzäk deu de ombros.

— Bem, sendo verdade ou não que vocês tem o sangue da linhagem real, agora é irrelevante. O fato é que é chegada a hora de Króz e as outras cidades do Vale de Lyás que estão sob o domínio de Vyzar se libertarem. — Apontou para Jurhent. — Você mesmo falou isso, na taberna: os impostos são desumanos, e a ajuda que recebem da capital é ínfima. O reino mais idílico de Erys está sugando a vida do reino mais seco. Não é exatamente o que se pode chamar de justiça social.

— Ele estava bêbado — Barhend protestou.

— Ei, não me lembro as palavras exatas das coisas que disse, mas eu acredito nelas. Nosso avô acreditava.

— Isso é um completo absurdo!

Lyuzäk bebeu todo o leite e pôs o copo na mesa.

— Pode ser que sim, entretanto… imagine, apenas por um momento, que seja possível fazer o que Kaemyt pretendia. Imagine todas as tribos do Deserto Lyás unidas com um único propósito: recuperar a terra que um dia pertenceu aos seus antepassados. Imagine você, Jurhent, filho de Thuren, da linhagem do real do Dragão, conduzindo seu povo rumo à terra da eterna primavera. Canções seriam feitas contando sua jornada épica.

— Este é o maior absurdo que já ouvi em toda minha vida! — Barhend disse. — Se realmente acredita nisso, então é mais louco sóbrio que meu irmão bêbado.

— Pode ser que sim. Mas são os loucos que mudam o mundo.

— Talvez… talvez não seja uma loucura total — Jurhent ponderou.

Barhend ironizou.

— Ah, claro que não! Unir as tribos rivais do Deserto Lyás é somente a parte mais fácil do plano, e mesmo isso eu diria que é impossível. Aquelas tribos vivem em permanente guerra.

— Não custa tentar…

— Ah, custa sim. Vou lhe dizer, irmão, o que aconteceria caso partisse nessa jornada insana. Você chegaria a primeira tribo, afirmando ser o herdeiro legítimo do antigo e glorioso Império do Dragão e que os levará à terra prometida. Na melhor das hipóteses eles te matarão. Na pior das hipóteses, eles te comerão vivo, lentamente, enquanto você implora por uma morte rápida.

Jurhent engoliu em seco. Houve um silêncio constrangedor. Lyuzäk o quebrou.

— Tudo o que disse, Barhend, faz todo sentido. Mas agora, considere outra perspectiva. Suponha que em vez de chegar à primeira tribo afirmando ser o seu rei, Jurhent chegue à primeira tribo afirmando ser um enviado dos antigos deuses, que os levará a terra prometida. As tribos do deserto são muito religiosas e ainda cultuam os antigos deuses draconianos. Se chegarmos fazendo as maravilhas que as habilidades ny permitem, há uma possibilidade de eles realmente acreditarem que somos enviados dos deuses. Se o plano suceder, conquistaremos as tribos uma a uma e destruiremos as que se opuserem a nós, como prova da ira implacável dos antigos deuses para com os infiéis.

Disse isso e deixou as palavras no ar.

— Você diz feitiçaria? — Jurhent perguntou, não sem um leve medo na voz.

— Feitiçaria foi proibida em todo o reino pelo rei Othryth — Barhend lembrou.

Lyuzäk desdenhou o fato.

— Um grande tolo. Os reinos do Oeste e de Asmyr tratam a magia com a naturalidade que merece. Magia é parte essencial do mundo. Um não existe sem o outro. Eu posso ensiná-los a usar as artes mágicas e juntos poremos este plano em prática.

Desgraça! Feitiçaria é proibida, mas, no fundo, sempre quis saber como funciona.

— E se houverem outros… praticantes de magia entre membros das tribos? — Barhend perguntou, meio receoso.

— Se eles colaborarem conosco, são outros escolhidos dos deuses. Se eles se opuserem, são demônios que precisam ser destruídos, para a glória dos antigos deuses.

Tenho que admitir, Lyuzäk parece ter mesmo um bom plano em mente. Mas é muito arriscado.

— O plano todo é perigoso. Podemos ser mortos pelos guerreiros das tribos.

— Podemos ser mortos a qualquer momento, rapaz, até mesmo em nossas camas. Mas eu lhe garanto que não é fácil matar um nyflyn.

Lyuzäk fez um gesto com a mão e Barhend sentiu seu corpo elevar-se do chão. Sentiu uma força empurrando-o para trás e chocou-se contra a parede. O copo de leite caiu no chão. O ar logo faltou em seus pulmões, e ele começou a sufocar, sentindo o aperto de mãos invisíveis em seu pescoço. Jurhent começou a gritar “solte-o” repetidas vezes. Arisha pareceu bastante aflita, deu um passo para frente e começou a gesticular na direção de Luyzäk. Jurhent tentou dar um soco nele, mas o feiticeiro simplesmente o jogou para longe, como se fosse uma pena. Ele caiu na cama, levantando poeira. Barhend começou a ficar tonto e quando sua vista começou a embaçar, ouviu o grito da garota.

— Solte-o, papa, eu te imploro.

Barhend caiu de bunda no chão, ofegante. Respirou fundo e quando deu por si, Jurhent já estava ao seu lado, perguntado se estava bem. O rapaz, entretanto, tinha os olhos fixos na garota. Ela olhava para Lyuzäk com um misto de medo e respeito. Seus lábios tremiam e seus olhos estavam marejados.

— Eu… eu peço desculpas, papa. Eu não me contive. Falhei no teste. Eu rogo seu perdão.

Ela abaixou a cabeça, encarando o chão. Lyuzäk abraçou-a com carinho e acariciou sua cabeça.

— Está bem, filha. Está tudo bem.

— Eu recomeçarei o teste — ela disse, com voz de choro. — Eu prometo que farei certo desta vez.

— Não há motivo para isso, filha — ele falou amavelmente. Beijou sua testa. — Você já passou no teste há duas semanas. Eu queria testar seus limites. Agora vá, e deixe os adultos conversarem.

O que está acontecendo aqui?

Arisha ficou imóvel por um tempo, até que pareceu aceitar as palavras de Lyuzäk. Fez uma reverência e saiu. O homem de preto sentou-se na cadeira de balanço e começou a brincar com seu anel.

— Me perdoem pela demonstração exagerada de poder. Mas acho que a mensagem ficou bem clara. O que é a força de uma dúzia de guerreiros perante as habilidades de um nyflyn treinado? Eu mesmo já vaguei pelo Deserto Lyás por anos e estou aqui para contar a história.

— Você poderia ter matado o meu irmão — Jurhent gritou.

— Já disse. Se os quisesse mortos, só restaria seus cadáveres agora. Agora escutem com atenção.

Lyuzäk esticou o braço e logo o copo que Barhend deixara cair no chão voou até sua mão. Ele colocou sobre a mesa.

— Isso é o que os estudiosos de magia chamam de telecinesia. É uma das várias habilidades ny possíveis.

Barhend ergueu-se e sentou em outra cadeira e Jurhent sentou na cama velha.

Eu poderia ter morrido aqui, mas… tenho muita curiosidade de saber como ele faz isso.

— O que é ny?

O homem sorriu.

Ny é a força que move a magia. Não é possível fazer magia sem ny. Na verdade, ny é a magia.

— Então, se aceitarmos sua proposta insana, nos ensinará esse tal de ny?

— Este é o acordo.

Jurhent pareceu ainda mais animado.

— E poderemos fazer isso que você chama de… como é mesmo que se chama?

— Telecinesia. Sim e não. Depende da situação.

— O que quer dizer com isso? — Jurhent quis saber.

— Controlar ny é, em essência, captar as vibrações do plano espiritual. Para isso, é preciso abrir suas percepções áureas. Existem sete dessas percepções: intuitiva, empática, psíquica, elemental, extensiva, espiritual e etérea. As habilidades ny que você consegue controlar dependem diretamente do tipo de percepção com a qual você tem mais afinidade. Telecinesia, por exemplo, exige afinidade com a percepção extensiva, que é a que permite perceber a matéria física sem tocá-la. Mais alguma pergunta?

Isso é loucura, mas…

— Se aceitarmos a sua proposta… você nos treinará e nos ensinará a usar essas… habilidades ny. Depois peregrinaremos pelo Deserto Lyás recrutando os guerreiros lyasse para integrar um exército que assaltará Vyzar. É isso?

Lyuzäk deu um leve soco no ar.

— Exatamente! Devo avisar que será uma tarefa longa. Levará anos, pois será preciso treiná-los e também os nyflyns que se juntarem a nós. Aceitam a proposta?

Jurhent foi rápido na resposta: sim. Lyuzäk encarou o irmão mais novo. “E você?”

— Eu tenho uma pergunta, antes de responder.

— Pois não?

— Qual o seu preço?

Lyuzäk sorriu.

— Vocês podem ficar com Vyzar, governá-la, destruí-la, façam o que quiserem a cidade. Fiquem com as terras da eterna primavera. Eu me contendo com a secura do deserto. — Bateu com o dedo na mesa. — Eu quero o controle das cidades do Vale de Lyás. Temos um acordo?

Barhend ainda achava aquilo a maior de todas as loucuras. Mas sim, pelos deuses, eles tinham um acordo.

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