As crônicas de Erys – capítulo 5

Olá pessoal! Ontem finalmente terminei de reescrever meu livro. Ele está bem diferente da versão que escrevi em 2015. Espero que as mudanças tenham melhorado o texto. Agora vou dar um pouco de tempo, depois vou revisar o texto. Mas como prometido, aqui vai o último capítulo de amostra do meu livro. Espero que apreciem. Até a próxima.

 


 

Capítulo 5 – O cartomante

 

O Feiticeiro entrou no prostíbulo e dirigiu-se ao balcão a passos comedidos. Não reconheceu o taberneiro.

— Não vejo Jöeba — disse, sentando-se. — Então é seguro supor que você é Rantö?

O taberneiro olhou de canto de olho, enquanto enxugava um copo.

— Não estou mais de cama, então Jöeba terminou seus serviços por aqui. E você é?

— Mueljen.

— Foi o que eu pensei. Jöeba falou sobre você. E seus amigos.

— Por falar nisso, onde ele está?

— Jöeba? Eu não sei. Acho que saiu da cidade. Só estava aqui de passagem mesmo. Algo para beber?

O Feiticeiro fez que não. Olhou em volta, mas ninguém parecia reparar nele. Estavam muito ocupados alimentados seus libidos. Deslizou uma moeda de ouro pelo balcão.

— Pelo seu silêncio.

Rantö pegou o vintém e indicou com a cabeça a porta que dava aos fundos do prédio.

— Você sabe o caminho. Um dos seus comparsas já está lá. — Mueljen levantou-se, mas quando deu dois passos, o taberneiro chamou-o. — Ei, amigo. O rapaz está chateado. A ruiva fugiu com Jöeba. A bebida é por conta da casa.

Ele agradeceu por isso e foi até os fundos. Desceu as escadarias empoeiradas. Chegando ao porão, encontrou o Paladino com um copo de aguardente na mão e lágrimas no rosto.

— Eu pensei que ela me amava, Mueljen — ele disse, desolado. — Ela disse que me amava e já havia comentado sobre fugir deste lugar — virou mais uma dose.

Oh, Feiten, dai-me paciência!

Mueljen arrancou o copo de sua mão a atirou-o na parede. Esbofeteou o rapaz.

— Recomponha-se, Inbert! Ela é uma prostituta, o que mais você esperava?

— Ela era tão linda, o cabelo ruivo…

— Cale-se! Comporte-se como um homem! Ela se foi, Inbert, encare os fatos.

Arisha chegou e, vendo aquela cena patética, perguntou o que estava acontecendo. O Feiticeiro respondeu:

— Inbert está desamparado porque a prostituta pela qual se apaixonou fugiu da cidade com o taberneiro do prostíbulo.

A lyasse encarou o conterrâneo com um olhar severo.

— Ah, pelo Grande Dragão Branco, Inbert! Não tenho tempo para suas desilusões amorosas. Há problemas mais importantes aqui.

— Que se passa? — Mueljen perguntou.

— A maldita cavaleira! — ela gritou, batendo na mesa com violência. — A puta sobreviveu.

Era possível ver a veia do seu pescoço pulsando, e seu olhar assassino estava particularmente afiado.

— Er, não estou entendo. Sobreviveu a quê?

Arisha respirou fundo e depois lhe respondeu, com voz quase sussurrante:

— Eu pus lágrimas de Asun em seu vinho ontem no baile. Ela passou mal, foi levada para a casa do conselheiro, mas sobreviveu!

— Então a serpente deu seu bote, mas a peçonha não surtiu efeito.

— Não me aborreça, Mueljen! Estou irritada. Ai, que ódio!

Ela olhou para mesa com expressão séria. Fechou seu punho. O Feiticeiro percebeu a tempo. Correu e segurou sua mão, e Inbert saltou para o lado, assustado.

— Arisha, não! Está louca? — Mueljen falou. — Não pode usar ny aqui dentro desta cidade, esqueceu? — Ela o encarou. Seu olhar era fumegante. — Conte até dez, lembra?

Ela respirou fundo, fechando os olhos. Mueljen sentiu as mãos dela tremerem, até que pararem.

— Viu, está bem? Melhor que descarregar sua raiva na mesa inocente, não acha?

— Desculpa — ela disse, com voz miúda. — Quase perdi o controle.

Ela sentou-se. Inbert, ainda meio enebriado, ofereceu um copo, e Arisha olhou desconfiada.

— É apenas água — o rapaz disse.

Ela bebeu com um grande gole. Pareceu se acalmar por completo.

A raiva desta mulher ainda será sua perdição. Ou sua salvação. Não quero está perto para ver.

— Sangue élfico — o Feiticeiro opinou. — Se não me engano, os elfos são resistentes ao veneno.

— Não, não é isso — ela falou. — Ela tem umas feições diferentes, mas é coisa dos povos do Oeste. Nada élfico. Ela é humana. Deveria ter morrido com as lágrimas de Asun.

— Talvez, talvez não tenha sido o suficiente — Inbert opinou.

— Uma gota é suficiente para derrubar uma pessoa por um ou dois dias. Três ou quatro gotas são o bastante para derrubá-la e nunca mais levantar. Eu joguei todo o conteúdo que restara no frasco. Pelo menos umas dez gotas, ou mais!

O Feiticeiro sentou-se.

— Como você descobriu que ela sobreviveu?

— Acabei de voltar do mercado. Encontrei a comitiva da princesa de Kàrv. Eu fiz amizade com alguns deles, ontem no baile. Então, fingido preocupação, perguntei pelo estado da cavaleira. Onde está Aullys?

— Está de ressaca — Mueljen disse. — Passou a noite bebendo em uma taberna.

Arisha balançou a cabeça em sinal de reprovação. Depois resmungou algo sobre as bebedeiras do noivo. Em seguida, voltou aos assuntos importantes.

— Eu tenho uma tarefa para vocês dois. — Retirou um papel da bolsa. — Quero que entreguem esta mensagem à Lyuzäk. Se tudo estiver como planejado, os exércitos estão a seis dias de viagem. Vão e voltem o mais rápido possível. Quero a resposta de meu pai antes dos exércitos chegarem.

Mueljen pegou o bilhete. Virou-se para o seu parceiro.

— Vamos, Inbert. Temos uma longa cavalgada para fazer.

***

Feiticeiro e o Paladino atravessaram as muralhas da cidade e se embrenharam no bosque. Mueljen percebera que estavam sendo seguido há algum tempo, mas não comentara nada com o companheiro. Inbert estava bem abatido e calado, o que não era ruim. Quando, porém, começou a falar, o assunto foi a ruiva.

— Ela me disse que conheceríamos as Terras do Fogo, onde nascera.

Mueljen suspirou.

— Pensei que ela fosse de Hárvyn.

— Não, não. Ela foi vendida como escrava em Hárvyn, mas é do clã da Fênix. Não viu os cabelos dela?

— Está certo. Qual é mesmo o nome dela?

— Gilly.

Provavelmente nem é seu nome verdadeiro.

— E você disse que ela tinha a tatuagem de um anjo em suas costas? Como as nossas tatuagens?

Inbert parou o cavalo.

— Porque insiste neste assunto, Mueljen?

— Eu acho que ela é da Trupe Celestial.

O outro riu.

— Não diga besteiras, Mueljen. Nós somos a Trupe Celestial. Lagrya é quem tem a tatuagem do anjo, e ela definitivamente não é Gilly.

Sim, e não recebemos notícias de Lagrya e seu grupo há meses.

— Eu ouvi algumas histórias.

— Que histórias?

Ele fez seu cavalo chegar mais perto. A presença que sentia estava mais próxima, e não poderia ser ignorada.

— Conto depois. Agora me diga, notou que estamos sendo seguidos?

Pela expressão que o outro fez, a resposta era não. Mueljen olhou ao redor, tentando ver algo por entre as árvores.

— É um nyflyn? — Inbert perguntou, aos sussurros.

— Com certeza — o Feiticeiro respondeu. Depois, gritou aos ventos. — Quem está aí? Apareça, sentimos a sua presença.

Mueljen viu o sujeito se aproximar, vindo por detrás das árvores. Reconheceu-o logo. Era o mendigo que passava o dia na rua defronte o prostíbulo. Estava sem barba, mas o reconheceu mesmo assim. Seu olho esquerdo branco e cego era inconfundível. Era um homem alto e pele alva. Vestia um grosso e longo casaco, luvas negras e botas de cano alto. Seus cabelos negros eram rebeldes. Enquanto andava, embaralhava cartas de yvck. Ele deixou-se ficar à vista, e escorou-se numa árvore. Falou, com voz despretensiosa:

— Eu ficaria decepcionado se não tivessem sentido minha presença.

E abaixou a cabeça, concentrando-se em suas cartas, que pareciam voar em suas habilidosas mãos.

— Quem é você? — Mueljen perguntou.

— Quem sou eu? Eu sou o que você vê, nada mais que isto.

— Não respondeu a pergunta — Inbert disse, irritado. — Quem é você e o que quer?

O cartomante ignorou-o.

— Vejamos o que o destino nos reserva. — Parou de embaralhar as cartas e pegou uma aleatória. — Oh, o Anjo da Morte! Uma carta enigmática. Significa morte, mas também ressurreição, recomeço.

— Deixe de palhaçada — Inbert gritou — e nos diga quem é você!

— Cale-se, Irbent! — Mueljen cortou. Depois se virou para o outro. — Por que está nos seguindo?

— Eu tenho um assunto para discutir. Com você. De preferência, longe deste rapaz mimado ao seu lado. É um assunto de homens, sabe?

O Paladino desceu do cavalo, irritado.

— Ora, seu puto! Quem você chamou de mimado?

— É melhor você não se meter, rapaz, — o cartomante disse — ou poderá se arrepender.

— O que pretende fazer?

— Já que perguntou, eu pretendo vencê-lo em um duelo.

— Você pode tentar!

— Não tenho medo de você — o estranho falou a Inbert. — Parece ter muita marra, mas não deve ser grande coisa.

— Não seja insolente! — Inbert falou. — Acha que pode vencer a nós dois? Sabe por acaso quem somos?

— Vocês são dois membros da Trupe Celestial — o cartomante respondeu. Deu de ombros. — Grande coisa.

— Não nos insulte, seu puto! — Inbert gritou, já elevando seu ny. — Morrerá por causa disso.

— Acalme-se, Irbent — Mueljen falou.

O rapaz praguejou. O Feiticeiro desmontou e dirigiu a palavra ao cartomante:

— Você desafiou dois membros da Trupe Celestial, sabendo quem somos nós. Ou você não tem noção do perigo ou deve ter um truque muito bom. Nós somos poderosos e perigosos.

Ainda embaralhado as cartas, ele gargalhou.

— A formação inicial da Trupe era poderosa — ele retrucou. — Mas isso foi há cinquenta anos. Qualquer um dos treze era tão poderoso quanto um cavaleiro da Guarda Suprema da Luz. Já vocês… Bem, talvez eu esteja prestes a descobrir. Acho que já sei a resposta.

“Ora, seu…” Inbert sibilou, elevando ainda mais seu ny. Ele queria atacar o sujeito das cartas, desejava isso, Mueljen podia perceber. Inbert transpirava um thy de fúria, e um desejo de matar.

Acho que é justamente isso que ele quer. O cartomante quer que o ataquemos.

— Acalme-se, Irbent — tornou a dizer.

— Calma? Esse puto está nos insultando, Mueljen. Vou acabar com ele!

Não é muito diferente de Arisha.

— Acho que você só sabe falar — o estranho desafiou. — Não tem coragem de me atacar.

O ny de Inbert explodiu em fúria. Ele atacou.

***

Inbert foi em direção ao cartomante. Correu rápido, levantando algumas folhas secas do chão, e gritando. Seu punho ergueu-se, em um movimento de arco. No último instante, o outro desviou para o lado. O adversário subiu sua perna, acertando uma joelhada no estômago de Inbert, fazendo-o emitir um grunhido oco. Em seguida, ergueu o braço esquerdo. Numa explosão de ny, o Paladino foi jogado para cima, depois atirado com violência contra o tronco de uma árvore.

Ele tem um poder telecinético acurado e movimentos rápidos. Sua afinidade deve ser extensiva.

Mueljen agiu rápido. Voltou-se para o cavalo e pôs a mão na bolsa pendurada na cela, procurando sua zarabatana. Percebeu a vibração de thy tarde demais. Ouviu um som alto, curto e seco. O cavalo tombou. Relinchava desesperado, debatendo-se, enquanto sangue jorrava de um buraco perto de seu olho. O Feiticeiro virou-se, seu olhos procurando alguém. Viu, na linha das árvores, um homem mulato e calvo. Com uma das mãos, mirava uma pistola em sua direção, e com a outra, fazia um sinal para que ficasse parado. Mueljen ergueu as mãos e, resignado, voltou sua atenção para a luta.

Inbert erguera-se e praguejava alto. Estava ferido, o lado esquerdo do seu rosto coberto de sangue. Seu ny, porém, vibrava furioso.

— Miserável, vai morrer agora!

As folhas no chão ao redor dele rodopiaram de leve, quando seu ny explodiu numa fúria louca e descontrolada. Correu em direção ao cartomante. Este segurava o baralho, as cartas dançando em suas mãos, e um meio sorriso esnobe nos lábios. O Paladino avançou em sua direção como um touro bravo. Seu ny pulsava naquela tarde outonal, seu braço erguia-se preparando-se para o golpe. No ápice de sua fúria, o rapaz gritou o nome de sua skiv:

Punho do Titã!

Mueljen já vira Inbert derrubar muros e esmagar cabeças com aquela habilidade. O cartomante, entretanto, não esboçava um sinal de preocupação. Segurou uma carta entre os dedos de sua mão direita, erguendo o braço e esperou. Mueljen ainda gritou:

— Inbert, cuidado!

Tarde demais. O Paladino descreveu um arco com seu punho. O inimigo gingou para o lado e parou o soco com a mão esquerda. Seu braço descreveu um pequeno arco, mas não pareceu sofrer nenhum dano. “Impossível!” Inbert gritou. Com um movimento rápido e preciso, o adversário desceu o braço direito, descrevendo um arco. A carta atravessou carne e osso do braço de Inbert, como uma faca atravessa um bolo. O grito de dor foi de gelar a espinha. O inimigo atirou o membro no chão.

Não é possível! Ele transferiu a energia do golpe de Inbert para o próprio golpe.

O cartomante descreveu outro movimento em arco, e a carta dilacerou a garganta do Paladino, fazendo espirrar sangue. Ele levou a mão que ainda tinha ao pescoço, mas não parecia possível parar o sangramento. Em pouco tempo, tombou no chão, inerte.

Mueljen engoliu em seco e nem se importou quando o pistoleiro veio em sua direção. “De joelhos!” ele rosnou, e o Feiticeiro obedeceu. O cartomante aproximou-se, alongando seu braço esquerdo.

— Esse golpe é realmente forte — ele disse. — Acho que meu braço ficará dolorido por um tempo. Estique seu braço.

Mueljen hesitou, mas o mulato empurrou a pistola na sua cabeça.

— Faça o que ele diz, mano.

Esticou seu braço, e reparou como suas mãos tremiam. O outro agarrou seu antebraço, pegou a carta e passou na manga do casaco, limpando o sangue.

— Obrigado — ele disse. — E desculpa pelo seu parceiro. Às vezes eu me empolgo. Não se preocupe, faremos um enterro digno.

Mueljen respirava curto. Seu coração palpitava rápido. O pistoleiro guardou a arma no coldre e afastou-se. Ele olhou para o cartomante, e este fez um sinal afirmativo com a cabeça. O mulato então pegou a bolsa de couro que trazia nas costas e jogou no chão, perto de onde Mueljen estava prostrado. Ele olhou para a bolsa, depois para o cartomante.

— O que vocês querem?

— Levante-se — ele respondeu, encarando as cartas que embaralhava. — E pegue a bolsa.

Ele assim o fez. O outro guardou as cartas em um bolso do casaco e aproximou-se. Tocou seu ombro e disse:

— Eu tenho uma proposta, meu amigo, e nem pense em recusá-la. Dentro desta bolsa, há ouro, prata, joias, pedras preciosas. Ele poderá ser todo seu, se me fizer um favor.

— E o que seria?

— Primeiro, quero que entregue uma mensagem ao seu chefe. Depois, quero que esqueça que um dia fez parte da Trupe Celestial. Isso é parte do passado, meu caro, e deve permanecer lá. Isto aqui — disse, apontando para a bolsa — deve ser o suficiente para começar uma nova vida. Vá para as Cidades Livres, ou para as Terras de Tuva, mas vá.

Mueljen encarou o chão.

Ele é um nyflyn tão poderoso quanto Lyuzäk. Ou mais. Não tenho chances contra ele.

— Muito bem. Qual a mensagem que devo entregar?

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