[Resenha] A mão esquerda da escuridão

Olá, pessoal. Hoje trago a primeira postagem do ano. Uma resenha de um livro que deveria ter finalizado a leitura em 2016, mas só o fiz agora no início de 2017. Bem, antes tarde do que nunca 🙂

Obra: A mão esquerda da escuridão

Autor: Ursula K. Le Guin

Editora: Aleph

Gênero: Ficção científica

Número de páginas: 292

maoesquerda

“O que é um amigo num mundo onde qualquer amigo pode ser um amante quando muda a fase da lua?”

Esta, para mim, foi a frase mais marcante deste que é um dos mais espetaculares livro que já li e sintetiza bem todo o conflito antropológico da trama. A mão esquerda da escuridão é, antes de tudo, uma reflexão sobre gênero e como a nossa sociedade é moldada a partir da dualidade masculino\feminino.

Genly Ai é um Enviado da Ekumen, uma espécie de federação de planetas e raças. Ele é mandado para o planeta Gethen, também chamado Inverno, a fim de tentar convencer os habitantes do gelado planeta a se unirem a esta comunidade universal.

Mas os habitantes de lá são por demais peculiares aos olhos de nosso protagonista. Eles são possuem sexo definido. São macho e fêmea e nenhum dos dois ao mesmo tempo. Os indivíduos são andrógenos e assexuados na maior parte do tempo e só desenvolvem uma sexualidade no que eles chamam de kemmer, uma vez a cada mês. Durante este período (que se assemelha muito ao cio), eles se tornam férteis, e cada ser pode assumir o gênero que quiser. Assim, um getheniano que foi homem no último kemmer pode muito bem ser mulher no próximo e engravidar.

Reside aí a genialidade do livro: na ideia de que os habitantes de Inverno são destituídos de sexo. E mais ainda: que todas as construções sociais oriundas da distinção entre masculino e feminino simplesmente não existem em Gethen. Embora seja algo fácil de entender, é difícil de assimilar ou imaginar, porque os padrões em nossas mentes não são esses. Assim como os padrões na mente de Genly Ai, que também é terráqueo.

A trama é sustentada em dois conflitos. O primeiro é esse conflito moral e psicológico de Ai, que não consegue compreender essa falta de dualidade na cultura getheniana. Pior que isso: ele é visto como uma aberração, um pervertido dentro da sociedade, por estar em permanente estado de kemmer. Genly é um alienígena em todos os aspectos deste conceito.

“A antiga Lei do Embargo Cultural proibia a importação de artefatos analisáveis ou imitáveis neste estágio, portanto não havia nada comigo além da nave e do ansível, minha caixa de fotos, a indubitável peculiaridade de meu corpo e a improvável singularidade de minha mente”.

O segundo conflito é social e político. O protagonista está lá para tentar convencer o povo de Inverno a se juntar ao Ekumen. O enviado encontra, porém, resistência por parte deles. Tratado desde louco até farsante, Ai tem dificuldades para concluir sua missão. Envolvido em intrigas políticas, sua própria vida começa a correr perigo.

Falando nisso, a ação do livro é bem posta. A maior parte da narrativa é calma e reflexiva. Porém tem momentos de ação pontuais. Quando ela começa, é de forma abrupta e inesperada, pegando tanto o leitor quanto os personagens despreparados.

Os personagens são únicos, certamente porque quase todos são seres difíceis de conceberem nossas mentes, mesmo sendo tão parecidos conosco. É interessante ver Ai tentando entendê-los utilizando padrões por demais humanos. A todo instante ele tenta classificar esse ou aquele comportamento ou aspecto como masculino ou feminino, quando, na verdade, esses conceitos não se aplicam aos gethenianos. E a angústia de Genly também é nossa, porque, assim como ele, esses são os parâmetros que temos para trabalhar.

Fora Genly Ai, o outro personagem de destaque, quase um segundo protagonista, é Therem Harth rem ir Estraven, um político da nação Karhide e o principal contado de Ai com o rei deste país. É interessante ver, através dos olhos de Estraven, o quanto Genly é diferente naquele mundo. É através dele que temos a perspectiva dos nativos dos fatos que estão acontecendo.

A narrativa também é singular. É em primeira pessoa, mas alternando entre Ai e Estraven. Achei interessante como a autora utilizou o tempo verbal no passado nos capítulos de Ai e no presente, nos capítulos de Estraven. De vez em quanto há uma espécie de interlúdio, com capítulos em terceira pessoa. Geralmente é um trecho de um documento oficial ou alguma lenda de Gethen. Eles ajudam a construir o worldbuilding. A escrita, porém, é cheia de infodump e tem longos trechos que são puro tell. Os diálogos não são memoráveis, mas são bem escritos. A leitura corre de maneira relativamente fluída.

Aliás, o worldbuilding é fantástico. Não somente o Ekumen e toda a comunidade galáctica formado por essas diversas raças de humanos. (Sim são todos basicamente humanos, todos frutos de algum tipo de experimento de uma raça, eras atrás). Mas também toda a forma como a sociedade em Inverno é organizada. Ela é sustentada em dois pilares: a singularidade do gênero e as condições climáticas adversas do planeta, que parece estar em uma eterna era glacial (por isso o nome Inverno dado pelos primeiros exploradores). Mas não entrarei em detalhes nisso. Leiam para saber.

Veredito final: Uma obra primorosa, que fará você repensar tudo que achava que sabia sobre gênero. Leia sem preconceitos.

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