Sobre a Arte da Escrita | Diálogos: como eles podem enriquecer seu texto

Resolvi criar uma coluna sobre dicas de escrita aqui no blog. Não que isso vá se tornar algo rotineiro (afinal, o que é rotineiro aqui neste blog semi-abandonado pelo blogueiro?). Talvez essa coluna nem passe desta postagem. Só sei que toda vez que eu tiver algo que julgar relevante para falar sobre o assunto, talvez eu fale (o fator preguiça também entra nessa equação).

Talvez você esteja perguntando com que propriedade eu falo sobre esse assunto. Em outras palavras: quem sou eu na fila do pão literário? Quase ninguém, para falar a verdade. Minhas credenciais nesse tópico resumem-se a minha experiência como leitor\aspirante a cinéfilo, alguma experiência com escrita (que não passa de uns poucos contos e um romance ainda não publicado) e uma dose de bom senso. Mas aprendi uma coisa ou outra sobre escrita enquanto estudava para finalizar meu romance. Espero que baste. Feito este disclaimer, podemos prosseguir.

Meu objetivo é tentar te convencer de como diálogos pode ser um recurso literário muito útil e, se usados de maneira inteligente, como tornam o texto mais rico. Eu, como escritor, gosto muito de utilizá-los. Meu texto é praticamente só isso. Bem, é coisa de estilo. Diálogos são a alma do texto. Se eu conseguir te convencer disso no final desta postagem, terei cumprido minha missão.

Vamos pensar assim: qual o objetivo de um livro? Contar uma história. Sim, mas não somente isso. A trama não é tudo em um romance. Um bom livro tem personagens cativantes, que devem ser construídos de maneira inteligente. Um bom livro não subestima seu leitor, dando todas as informações de mão beijada: ele tem subtexto, mensagens nas entrelinhas, temas sendo explorados. Alguns diriam que um bom livro faz mais uso de ‘show’ em vez de ‘tell’ ou não enche o saco do leitor com infodumps. Tomemos isso como premissa, para não ofender os mais sensíveis. Enfim, um bom livro tem tudo isso. E existem várias formas de se trabalhar esses elementos. Não tecerei comentários sobre todas essas maneiras. Veremos como fazer tudo isso utilizando um bom diálogo.

O que Tarantino pode nos ensinar sobre diálogos?

Sou um grande fã do diretor e roteirista Quentin Tarantino. O que eu e muita gente ama em seus filmes são os diálogos. Você pode até ter ressalvas quanto à sua perícia como diretor, mas como roteirista, o cara dá um show. E seus diálogos são magníficos. Há algo neles que, a princípio, parece ruim: muitas das conversas em seus filmes não tem muito propósito na trama. Porque então inserir um diálogo que não tem a função de fazer a narrativa andar? Bem, uma resposta é porque eles são interessantes por si só. Isso já seria motivo suficiente para mim. Mas eles fazem mais: ajudam a montar a imagem dos personagens envolvidos e\ou revelam algo que está escondido atrás de um subtexto.

Pegue, por exemplo, a famosa cena de abertura de Reservoir Dogs. Em resumo, temos alguns caras tomando café da manhã numa cantina, enquanto batem um papo. Mr. Brown tenta convencer os outros de que a música “Like a virgin” da Madona fala, na verdade, sobre uma mulher que conheceu um cara bem dotado (sim, nesse sentido mesmo que você está pensando). O que esta simples discussão nos diz sobre Mr. Brown (interpretado pelo próprio Tarantino)? Que ele é um cara sem noção, ou um sujeito da zoeira. Ao longo do filme, fica claro qual é a opção correta.

Mas a parte interessante vem logo em seguida, quando temos uma inteira discussão sobre pagar gorjeta para a garçonete. Mr. Pink é categórico: “eu não pago gorjeta; não acredito nisso”. Em seguida, usa vários argumentos tentando convencer os outros de seu ponto. O que vemos, na minha opinião, é uma das maiores pérolas em um roteiro de cinema. Transcreverei o texto aqui:

Nice Guy Eddie: Vamos, dê um dólar.

Mr. Pink: Eu não dou gorjetas.

Nice Guy Eddie: Não dá gorjetas?

Mr. Pink: Eu não acredito nisso.

Nice Guy Eddie: Não acredita em gorjetas?

Mr. Blue: Essas garotas ganham uma miséria.

Mr. Pink: Não me venha com essa. Se elas não ganham bem, podem pedir demissão.

Nice Guy Eddie: Nem um judeu teria coragem de dizer isso. Deixa eu ver se entendi direito: você nunca dá gorjetas?

Mr. Pink: Não faço isso só porque é uma convenção social. Se alguém realmente merece, eu dou uma gorjeta. Mas dar automaticamente é besteira. Além disso, é o trabalho delas.

Mr. Blue: Mas a moça foi gentil.

Mr. Pink: Ela foi ok, mas não fez nada de especial.

Mr. Blue: O que seria especial? Ela te levar para os fundos e te pagar um boquete?

Nice Guy Eddie: Eu daria mais de 12% por isso.

Mr. Pink: Veja. Eu pedi café. Fiquei aqui esse tempo todo e ela encheu minha xícara só três vezes. Quando eu peço café, quero que encham seis vezes.

Mr. Blonde: Seis vezes? E se ela estivesse muito ocupada?

Mr. Pink: “Estar muito ocupada” não consta no vocabulário delas.

Nice Guy Eddie: Desculpa, Mr. Pink, mas a última coisa que você precisa é outra xícara de café.

Mr. Pink: Elas não morrem de fome. Ganham salário mínimo. Quando eu ganhava salário mínimo, não tinha a sorte de receber gorjetas.

Mr. Blue: Não se importa com o fato de que elas dependem disso para viver?

Mr. Pink [esfregando os dedos] Sabe o que é isso? É o menor violino do mundo, tocando só para as garçonetes.

Mr. White: Você não tem ideia do que está falando. Elas trabalham pra valer. É um trabalho duro.

Mr. Pink: Assim como é trabalhar no McDonald’s e ninguém dá gorjetas. Mas porque não? Eles também servem comida lá. Mas a sociedade diz: não deem gorjeta para esses aqui, mas deem para aqueles. Besteira.

Mr. White: Ser garçonete é a ocupação número um de mulheres sem diplomas neste país. É o único trabalho que basicamente qualquer mulher pode pegar para sobreviver. A razão é por causa das gorjetas.

Mr. Pink: Que se dane tudo isso! Lamento que o governo taxe as gorjetas. Isso é esculhambação, mas não é minha culpa. As garçonetes não são o único grupo prejudicado pelo governo. Se houver um documento contra isso, eu assino. Dou meu voto, mas não entro nessa. Quanto a essa besteira de não ter diploma, elas deveriam aprender a digitar. Se esperam que eu pague o aluguel, terão uma surpresa.

Mr. Orange: Ele me convenceu. Devolva meu dólar.

Nice Guy Eddie: Ei. Deixe os dólares aí.

smallest violin
Mr. Pink tocando o menor violino do mundo para as garçonetes

Vamos analisar este diálogo. Ele é completamente irrelevante para a trama do filme. Tem zero influência sobre os acontecimentos. E, ainda assim, esse debate nos revela muita coisa sobre a personalidade dos envolvidos.

O mais óbvio é Mr. Pink, o centro das atenções. A partir deste excerto, podemos inferir que ele não é apenas pão-duro, mas um egoísta total, sem um pingo de empatia pelos outros. Sua prioridade número um é seu próprio bem-estar, e fodam-se os outros. Isso fica ainda mais evidenciado ao longo do filme.

Mais para o final, Mr. White entra na discussão e aqui temos uma rápida visão de sua personalidade altruísta. Mr. White se importa com as outras pessoas, a ponto de cultivar uma verdadeira amizade com um dos parceiros de crime. Na cena seguinte, vemos como ele tenta acalmar o desesperado e baleado Mr. Orange, enquanto este agoniza e grita dentro do carro. É um verdadeiro gesto altruísta para com alguém que ele mal conhece.

Com um simples, inocente e aparentemente inútil diálogo, Tarantino foi capaz de pincelar de leve as personalidades de dois dos personagens principais do filme. Esse é o poder do diálogo: ele revela informações. Às vezes de forma direta. Às vezes de forma sutil. E essa segunda maneira é deliciosa.

Mas o que realmente me fascina na maneira como Tarantino escreve seus diálogos é o senso de realidade e falta de propósito. Digo, a cena que acabei de transcrever e analisar é, vista de uma maneira superficial, apenas seis caras batendo um papo numa lanchonete. Ela parece realista. Parece o tipo de coisa que você veria na vida real. Ela é dinâmica. Flui bem, com o ritmo certo. O mesmo podemos dizer sobre outras cenas antológicas do mesmo diretor, como o “royal with cheese” e a cena dos hambúrgueres em Pulp Fiction ou a cena em que o coronel Hans Landa interroga Perrier LaPadite em Bastardos Inglórios. É tudo uma questão de subtexto. De que realmente os personagens estão querendo dizer ao se engajarem em conversas aparentemente sem propósito.

Quando Landa pergunta a LaPadite se ele pode fumar seu cachimbo, o coronel não está realmente pedindo permissão. Ele está querendo lembrar ao camponês que este não tem nenhum controle da situação. Que se ele se recusar a colaborar de alguma forma, Landa pode simplesmente ordenar aos soldados que fuzilem toda a família de LaPadite. E ele consegue transmitir essa mensagem com um simples “May I smoke my pipe as well?”.

Ainda na mesma cena, ao usar a metáfora que compara judeus com ratos, a intenção de Landa não é deixar LaPadite desconfortável com a situação ou insultar o povo judeu. Sua intenção é comunicar, de forma sutil, que ele está ciente de que LaPadite está escondendo judeus em seu porão. Confiram (in English, sorry):

Subtexto, meus amigos. Todo essa conversa entre o coronel Landa e LaPadite é baseada em subtexto. Ela é escrita de forma genial, com a intenção de provocar tensão. Mas ela nunca é explícita. Está nas entrelinhas. A todo momento, o coronel está ameaçando seu anfitrião, e o espectador sabe disso. Talvez se essa cena fosse em um livro (afinal, nosso foco é livros) em vez de em um filme, o efeito fosse diferente? É provável. No cinema, o diretor dispõe de vários recursos audiovisuais para passar sua mensagem. O roteiro não é tudo. Mas é o coração da coisa.

Transforme infodump em diálogo (de preferência, de forma sutil)

Podemos usar diálogos para cortar aquilo que muita gente que estuda escrita vem demonizando: infodump. Grosso modo, infodump é quando você vomita informações para o leitor, de maneira direta, nada sutil e sem nenhuma elegância. Você pode até enfeitar a coisa, escrever usando uma linguagem poética, leve, cheia de floreios, mas ainda continuará sendo um infodump. Isso não é necessariamente ruim. Mas se existir uma maneira mais elegante de passar uma informação para o leitor, porque não fazê-la?

O que farei agora é esboçar um exemplo de como fazer isso na prática. No próximo parágrafo, vomitarei informações sobre o passado de uma personagem. Em seguida, tentarei escrever uma conversa onde algumas dessas informações aparecem. Vamos lá!

Sara, 34 anos, trabalha como professora de literatura em uma universidade. Ela é muito boa no que faz e bem-sucedida, porém sente-se descontente com sua situação. Quando jovem, Sara tinha um grande talento para harpa. Todos diziam que ela iria longe. Um acidente de carro mudou tudo isso: sua mão direita nunca mais seria a mesma. O sonho de se tornar uma grande harpista morreu. Sara reaprendeu a escrever com a mão esquerda. Formou-se em letras francês, sua outra grande paixão. Atualmente, ela está escrevendo um livro sobre uma garota que tem o sonho de ser uma violinista famosa — uma metáfora para seu próprio sonho, e uma homenagem à sua filha, que toca o instrumento.

Bem, temos aí o backgroud de nossa personagem. Como a história se desenvolve, não importa muito. Antes de fazê-la andar, devemos apresentar nossa personagem ao leitor, e queremos fazer isso utilizando as informações do parágrafo acima. E, de preferência, encaixar isso em um diálogo. A primeira coisa que devemos ter em mente é: precisamos de várias cenas para diluir todos esse fatos. Jogar todos esses detalhes do passado em apenas uma conversa seria má escrita. Esse é lance: temos, em teoria, um livro inteiro para fazer isso, então vamos devagar.

Informações relevantes veem primeiro. Qual a mais relevante de todas? Creio que seja o fato de Sara estar desapontada com o fato de sua carreira como harpista ter acabado devido a uma fatalidade. Fazer isso vir à tona em uma conversa é mais difícil do que parece. Há várias maneiras de fazer isso, nem todas elas elegantes. Podemos, por exemplo, fazê-la reencontrar um amigo dos tempos de infância. Daí o sujeito pergunta pela sua vida, e Sara começa a falar do que aconteceu. É válido, mas não elegante. Pode ser que ela esteja discutindo com sua mãe. Daí, no meio de uma briga, a mãe joga na cara dela que ela está frustrada com a situação. Chama-a de “harpista que não deu certo”. É válido, mas nada sutil.

Outra coisa que dificulta é que diálogo não é tudo. Para construir essa personagem, devemos utilizar todos os bons recursos de escrita que temos à disposição: mostrar seus pensamentos, focar em ‘show’ em vez de ‘tell’, etc. Por melhor que seja o meu exemplo (e eu nem acho que seja tão bom assim), ele será incompleto. Mas vamos tentar.

Eis o contexto: Sara está em uma loja de instrumentos musicais. Está contemplando um violino, enquanto esfrega de leve a mão direita com a esquerda (um hábito que adquiriu após o acidente; note como estou mostrando as coisas, antes de iniciar a conversação). Uma vendedora se aproxima.

— Posso ajudá-la, senhora?

— Oh, talvez. Estava olhando esse violino.

— Está interessada? Este é um modelo muito bom. [insira aqui especificações técnicas, se quiser; mas faça pesquisa antes: isso é fundamental ao escreve uma história]. A senhora toca violino?

— Na verdade não. Minha filha toca. Desde os seis anos. Mas o dela está velho e seu aniversário está próximo

— Oh, entendo! Quantos anos?

— Fará dezesseis em uma semana.

— Está na fase difícil, hein?

— Nem me diga!

— Ela já deve estar muito boa com o instrumento. Afinal, são dez anos de prática.

— Ela é muito boa. Teve a quem puxar.

— Pensei que tinha dito que não tocava, senhora.

— Eu não toco. Não violino. Minha paixão era harpa.

— Harpa! Adoro isso. Ainda toca?

— Não exatamente.

— O que aconteceu? Se me permite perguntar.

— [Já um pouco aborrecida com a conversa] Minha filha aconteceu. Enfim, acho que vou levar aquele modelo.

— É uma boa escolha, senhora.

As duas se encaminham para o balcão. A vendedora informa que é preciso fazer um cadastro. Pergunta nome completo, idade, endereço. Por fim, ela pede que Sara assine um documento.

— Legal. A senhora também é canhota.

— Também?

— Minha família tem muitos canhotos. Eu e meus irmão e minha mãe.

— Entendo. Eu não nasci canhota. Aprendi a escrever com a esquerda.

— Oh sério? Isso é bem legal.

— Não é tão legal assim quando você sabe que nunca mais conseguirá escrever com a direita.

— Oh, desculpa.

Terminam o que tem de fazer sem mais tocar no assunto. Sara paga usando o cartão de crédito e vai embora.

Bem, esse é o exemplo. Não parece, mas eu revelei mais coisas do que parece. Porque as informações estão no subtexto. Como foi que eu revelei que ela não toca mais harpa devido a um acidente? Eis o truque: é só conectar duas informações separadas. E confiar no julgamento do leitor. Esta é minha segunda dica: não subestime seu leitor. Não dê tudo de mão beijada. Deixe que ele pense e conecte os fatos. Neste caso:

(…)

— Minha paixão era harpa.

— Harpa! Adoro isso. Ainda toca?

— Não exatamente.

— O que aconteceu? Se me permite perguntar.

— Minha filha aconteceu. [Aqui fica claro que Sara está desconfortável com a conversa. A princípio, o leitor nem sabe que ela contou uma mentira — ou uma meia verdade — para fugir da resposta, mas já dá pra sentir o clima. Mas enfim, a informação foi dada: Sara não toca mais harpa, embora não saibamos exatamente o motivo]

(…)

— Eu não nasci canhota. Aprendi a escrever com a esquerda.

— Oh sério? Isso é bem legal.

— Não é tão legal assim quando você sabe que nunca mais conseguirá escrever com a direita.

[Não sabemos ainda o motivo, mas sabemos que alguma coisa aconteceu que a impede de utilizar a mão direita. Se ela não consegue escreve com esta mão, é de se supor que sua habilidade de tocar harpa também esteja comprometida]

É isso. Perceba que diluir todos esses fatos que temos sobre a protagonista em uma conversa é bem mais dinâmico que simplesmente jogar os mesmos fatos em um parágrafo. O texto fica mais rico, mais potente, mais inteligente.

Minha intenção era desenvolver mais este exemplo, mas estou ficando com preguiça e o texto, muito longo. Acredito que consegui passar a essência do que queria dizer. Se você está lendo esta postagem, eu o desafio a escrever um segundo diálogo, no qual aparecem as outras informações: professora universitária, formada em letras francês e está escrevendo um livro. Creio que seja um bom exercício.

Mas eu tinha realmente mais coisas para mostrar, por isso resolvi dividir essa postagem em duas partes. Na próxima postagem mostrarei como trabalhei os diálogos no meu romance. Até lá!

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