[Resenha] Ardil-22

Olá, pessoal! Hoje trago nova resenha aqui no blog. Trata-se do clássico, porém pouco conhecido, romance de Joseph Heller, Ardil 22.

Obra: Ardil-22

Autor: Joseph Heller

Editora: BestBolso

Gênero: romance satírico

Páginas: 560

ardil22

O livro é ambientado na segunda guerra, e nele acompanhamos a saga do capitão Yossarian, um bombardeador da Força Aérea Americana. Este livro consagrou o autor, Joseph Heller, e a história é inspirada livremente em sua experiência pessoal durante a guerra. A trama se desenrola, na maior parte, na ilha de Pianosa, onde se localiza o acampamento do esquadrão de Yossarian.

O que é diferente neste livro é seu tom. Joseph fala da guerra e de seus horrores, mas o faz de uma maneira bem satírica. Como está escrito na própria capa, trata-se de um “romance bem-humorado sobre a neurose da guerra”. E não há descrição mais precisa. A escrita de Joseph Heller me lembrou um pouco a de Douglas Adams, apenas um pouco mais sombria e mais pé no chão. Mas essência está lá: personagens icônicos, situações absurdas, diálogos non-sense, humor debochado, porém inteligente, e uma trama caoticamente envolvente.

A primeira coisa que você tem que saber sobre isso é: o que diabos é o ardil 22? Bem, “catch-22” é uma expressão usada em inglês para significar uma situação paradoxal, decorrente de duas regras conflitantes. A expressão foi cunhada justamente por Heller nesse romance. Ninguém melhor que o próprio autor para explicá-la:

— Claro que há um ardil. O Ardil-22. Quem quer que queira esquivar-se à luta não está doido.

Só havia um ardil, e este era o Ardil-22, que dizia que a preocupação com a própria segurança, em face de perigos reais e imediatos, era o processo de uma mente racional. Orr estava doido, e podia ter baixa. Tudo que ele tinha que fazer era pedir. Mas, assim que pedisse, não estaria mais doido e teria que voar em mais missões. Orr seria doido se voasse em novas missões e são se não o fizesse. Mas se estivesse são teria que voar novamente em missões de combate. Se voasse, então estaria doido e não teria que fazê-lo. Mas se ele não quisesse fazê-lo, então estaria são e teria que fazê-lo. Yossarian ficou profundamente impressionado com a simplicidade dessa cláusula do Ardil-22 e deixou escapar um assovio de admiração.

— É um ardil e tanto, o Ardil-22 — comentou ele.

— O melhor que existe — concordou Doc Daneeka.

É isso. Eis o Ardil-22, em sua essência. O interessante é que, ao longo do texto, aparecem diversas pequenas situações que são exemplos de ardill-22. Eu deveria ter anotado pelo menos um, mas eu, muito lesado, não o fiz. Porém o do trecho acima é o melhor, e o que está mais diretamente ligado à trama. E, porque ainda não ficou muito claro qual é a trama, digo agora. Yossarian está paranoico, pois tem certeza de que alguém quer matá-lo. Ele está sofrendo a pressão da guerra, e deseja desesperadamente receber baixa e retornar para casa. Porém, antes disso acontecer, ele precisa voar as missões obrigatórias. Mas seu superior, o coronel Cathcart, a todo momento aumenta o número de missões. E fora isso há outra coisa que impede Yossarian de voltar para casa. Sim, isso mesmo, o Ardil-22.

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Curiosidade: uma edição brasileira do livro aparece em um dos episódios da série Lost.

A escrita de Heller é totalmente desleixada e despretensiosa, no maior estilo Douglas Adams mesmo. É do tipo que para toda a história para divagar sobre o passado de algum personagem, geralmente narrando alguma situação absurda. O texto é cheio de infodump, mas é tão envolvente que facilmente relevamos isso. E nos envolvemos porque a construção de personagens é muito boa. Cada um deles, sem exceção, é inesquecível, de tão peculiar que é.

Como esquecer do soldado de branco, todo engessado, que fora contrabandeado para a enfermaria na calada da noite, e cuja identidade é um total mistério? Ou do coronel Cathcart, com suas paranoias e sua obsessão de tornar-se general? Ou do major Major (sim, o nome dele é Major, e ele foi promovido ao posto de major por um computador da IBM, quatro dias após ingressar na Força Aérea), responsável pelo esquadrão, e que sempre fugia pela janela, para evitar falar com as pessoas? Ou de Nataly, com seu nacionalismo exacerbado e idealismo cego, que se apaixonou por uma prostituta? Ou de Orr, companheiro de barraca de Yossarian, que sempre caía com seu avião no mar? Ou do Chef Halfoot, que jurou cortar a garganta do companheiro de barraca? Ou de Hungry Joe, que acordava o acampamento inteiro, toda noite, com seus gritos, após os constantes pesadelos (em geral envolvendo um gato dormindo em cima de sua cara, o que, de fato, era o que estava acontecendo)? Sem falar no próprio Yossarian, com sua mania de perseguição. Enfim, é esse tipo de personagem com o qual estamos lidando aqui, e nós os amamos assim que os conhecemos.

Aliás, eu achei a estrutura dos capítulos interessante. O nome de cada um deles é o nome de um dos personagens, supostamente o centro das atenções. Devo dizer que os melhores capítulos, em termos de sátira e histórias absurdas, são a do major Major e a do major _______ de Coverley (sim, o nome do major é um travessão gigante, e ninguém sabe o motivo)

O tipo humor que estou falando que existe no livro são coisas do seguinte naipe:

– Um soldado ir receber totalmente nu a medalha de condecoração pelos seus feitos.

– O chefe do rancho comprar toda a produção de algodão egípcio, superfaturar a coisa, e depois decidir explodir os próprios depósitos. Ah, mas para obter algum lucro com isso, ele negociou com os alemães e arranjou para que as forças nazistas fossem responsáveis pelo ataque. Sim, eu sei que não faz sentido.

– Yossarian ficar entendiado no hospital, censurando cartas, e decidir assinar todas elas como Washington Irving. E isso acabar causado a vinda de agentes para investigar o caso, gerando uma paranoia no grupo.

– Chegar um soldado novo, mas ele não passar pelo tenente que oficializa sua chegada e ser mandado direto em uma missão, deixando suas coisas na barraca de Yossarian. Daí ele morrer na sua primeira missão, e Yossarian não poder tirar as coisas do defunto de sua barraca porque, oficialmente, o soldado nunca chegou a fazer parte do esquadrão (Ah, tá aí um exemplo de ardill-22.)

catch22_nakedyossarian
Curiosidade: o livro foi adaptado para o cinema. O filme homônimo estreou em 1970. Na imagem, a hilária cena do soldado indo receber nu uma medalha de honra ao mérito.

Talvez você tenha ficado um pouco chateado pelo fato de eu estar revelando alguns pequenos spoilers da trama. Não se sinta assim, pelo seguinte motivo: na prática, não existe trama neste livro. Ele é quase um compilado caótico de fatos sobre o cotidiano no esquadrão de Yossarian, sem nenhuma intenção de fazer algum sentido. Tanto é que a narrativa é totalmente não-linear. Ela é a própria definição de não linearidade. É a ponto de você estar lendo um parágrafo e, sem que perceba, o parágrafo seguinte estar contado algo que se passou meses antes, e você levar um tempo para entender o que estava acontecendo. Mas, por mais louca que a narrativa seja, quando você lê o final, a única coisa que pensa é “puta merda, que brilhante”. No meio da bagunça que é a trama desse livro, Heller conseguiu tecer uma história fechada e genial.

Sobre diálogos (porque eu tenho que falar deles): há poucos no livro, e como tudo nele, são completamente sem sentido. Metade dos diálogos termina com alguém dizendo “você está doido” (ou quase isso). A outra metade envolve alguma situação tipo ardil-22, ou seja, um paradoxo. Há, porém, um diálogo muito inteligente, entre Nataly (o que se apaixonou por uma prostituta) e o velho dono do puteiro, no qual eles discutem sobre a guerra, nacionalismo, a efemeridade das nações e o absurdo que é a vida. É uma das melhores cenas do livro.

Como prova de que tudo nesse livro é aleatório, vou abrir em uma página qualquer e selecionar um trecho. Eis o resultado.

— Esta é uma árvore muito boa.

— É a árvore da vida — disse Yossarian, mexendo os dedos dos pés. — E também a árvore do conhecimento do bem e do mal.

Milo examinou atentamente o tronco e os galhos, e depois afirmou:

— Não, não é. É uma castanheira. E sou entendido nisso, pois vendo castanhas.

— Como quiser.

Juro que foi realmente numa página aleatória, mas esse diálogo passa bem o espírito da maioria dos diálogos do livro.

Se há algo a reclamar deste livro é o ritmo. Ele é mais lento do que aparenta ser. Na verdade, acho que o problema dele é que é maior do que deveria. Mesmo a trama sendo a coisa caótica que mencionei, acho que a autor se estendeu além do que deveria. O livro poderia ter umas 200 páginas a menos, sem prejuízo à história.

Veredito final: perfeito para aqueles que curtem uma trama tão caótica, sem sentido e sem propósito quanto uma guerra.

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