[Resenha] Passagem para a escuridão

Olá pessoal. Após algum tempo de inatividade, volto a escrever no blog, desta vez trazendo resenha de obra nacional.

Obra: Passagem para a escuridão

Autor: Danilo Sarcinelli

Editora: independente (disponível na Amazon e no site do autor)

Gênero: fantasia sombria

Páginas: 298

Sinopse:

Guiados pela crença no deus-sol Ravi, que ajudou a humanidade a derrotar a Legião Negra do demônio Arkmal, a família Dante tornou a Tibéria um reino próspero e pacífico. Ou, pelo menos, é o que parece na superfície.

Quando o herdeiro ao trono César Dante é exilado após um ato impensável, a corte tiberiana divide-se em facções com planos próprios para o reino. E estão dispostos a tudo para garantir que consigam chegar ao poder.

Às vésperas do aniversário de dezoito anos do príncipe Lúcio Dante, um atentado põe em movimento um plano que mudará a Tibéria e os reinos vizinhos para sempre.

cover

Passagem para a escuridão é uma boa pedida para quem procura uma trama fantástica nacional. O livro não é perfeito, mas pode-se dizer que Danilo entrou com o pé direito no hall dos autores brasileiros, já preparando o terreno para o próximo volume.

A obra toca em temas delicados. Religião, fanatismos religioso, seitas e ritos macabros são assuntos presentes ao longo de toda a história. Eu gostei da maneira como o autor os tratou, sem cair no exagero ou discriminação. Ao mesmo tempo, ele não teve receio de mostrar o lado negro do ser humano. Nesse sentido, é uma obra realista e sombria.

E, fazendo jus a essa vibe, os personagens são humanos e cinzas. O autor soube trabalhá-los bem, a fim de ganhar a empatia dos leitores. Há dois lados bem distintos na história, nenhum deles totalmente certo ou errado, e você entende suas motivações. Não raro, me vi torcendo para os dois. A caracterização de alguns personagens às vezes escorrega para alguns estereótipos, mas nada que tire muito do brilho deles.

César Dante, o príncipe exilado, é certamente o personagem mais complexo e interessante. Ele é o exemplo vivo do que falei acima sobre empatia. O leitor não necessariamente precisa concordar com as atitudes do personagem, mas deve entender suas motivações. Isso é empatia. César é um completo babaca (para não dizer um palavrão maior aqui), e mesmo assim você entende seu lado, pois ele combate as práticas demoníacas da família Martino, e foi injustiçado por isso. O príncipe Lúcio, o outro grande protagonista, por outro lado, não me cativou muito, talvez porque eu achei o namorinho dele com Pandora muito cri cri, mas isso sou eu. Marco e Diana me cativaram muito mais, mesmo sendo personagens menores. Também talvez por isso gostei mais da terceira parte, onde os dois ganham maior destaque.

O ponto forte do livro certamente é a trama. Ela prende o leitor do início ao fim. Ela começa simples e vai ficando cada vez mais complexa, em uma intrincada intriga palaciana. Há um toque de mistério que mantém a curiosidade do leitor até o final. É muito fácil imergir na história. O ritmo é muito bom, sempre dinâmico, com capítulos curtos. Você realmente sente que a história está andando a cada página. O que não me agradou muito foram os plot twists. O segundo é ok, mas o primeiro me deixou com a sensação de que foi um pouco forçado, além de fazer a trama cair para um aparente maniqueísmo bobo.

Mas o grande problema do livro, que é o que faz cair de ótimo para bonzinho, é a escrita. Não sei nem por onde começar, mas vamos lá. Primeiro, nada contra narrador em terceira pessoa onisciente. Dada a quantidade absurda de personagens, talvez essa seja até a escolha mais sábia. Mas eu acho que ele poderia ter sido um pouco menos onisciente e mais próximo dos personagens. Ele parece bem distante e genérico. E, por ser muito onisciente, ele vomita informações demais o que, além de criar vários infodumps, em alguns momentos quebra a sensação de mistério.

O narrador também salta demais entre os personagens, e as transições são feitas de forma nada suave, tornando alguns trechos confusos. Às vezes, era confuso com o mesmo personagem, quando subitamente, sem aviso prévio, o autor começava a narrar um flashback e então, do nada, voltava para o presente. Isso é ruim porque, como eu disse, o ritmo do livro é rápido, então quando ele quebra, é um baque grande.

Sem mencionar o clássico “show don’t tell”. Passagem para a escuridão não é um livro grande, e creio que um dos motivos disso é o fato de o autor condensar muitas informações em longos trechos de puro tell, em vez de desenvolvê-las de forma mais elegante e paciente, num diálogo por exemplo. Algo que ele faz muito é, sempre que introduz um personagem novo, dissertar longamente sobre o passado dele. Não me diga, por exemplo, que o capitão Argo era um cara fodão e enumere todos os seus feitos heróicos. Me mostre isso, ou mencione em um diálogo

Por fim, eu não mencionei ainda o worldbuilding porque queria falar junto com a escrita. De modo geral, eu gostei do mundo criado pelo Danilo. Ele é bem pé no chão e parece coerente. Talvez seja simplista demais. Por exemplo, é citada apenas uma religião em toda a história. Mas creio que isso é explicado pelo fato de que o deus-sol Ravi, os demônios, Arkmal, etc. realmente existirem naquele mundo. A magia está diretamente ligada a isso. Como mundo em si, está perfeito.

O problema do worldbuilding é que a escrita atrapalha a imersão no mundo. Mais precisamente, a maneira como os personagens falam. Eles usam expressões que lembram demais o mundo real. Quando eu lia coisas como “tirar o pai da forca”, “gostosinha”, “homem da hora”, todo o encanto daquele mundo fantástico era quebrado.

Apesar disso, os aspectos positivos se sobressaem. Pondo tudo na balança, o que temos é uma obra cativante de um autor promissor, que certamente merece sua atenção. Creio que Danilo tem ainda alguns pontos a melhorar, mas está no caminho certo. Espero um segundo volume arrasador.

Veredito final: recomendo àqueles que apreciam uma boa história com toques sombrios e não têm medo de encarar os piores demônios desse mundo: os humanos.

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