[Conto] A travessia

Nesse domingo trago mais um texto de minha autoria. Espero que apreciem 🙂


A travessia

 

A passarela para pedestres devia ter uns sete ou oito metros de altura, mas para mim parecia um prédio de trinta andares. Sob ela, uma larga avenida, com um intenso fluxo de veículos e nenhuma faixa de pedestres ou sinal à vista.

Suspirei e passei a mão pelo cabelo.

Descera do ônibus há pouco mais de um minuto e tudo que fizera nesse meio tempo foi encarar a passarela. Não muito, claro, pois o sol incidia direto em meu rosto. Passei a mão pela testa, limpado um pouquinho de suor. Verifiquei as horas no relógio.

Pus as mãos no bolso da calça jeans e caminhei bem devagar à escada que levava para a passarela. A cacofonia dos carros mal me deixava concentrar em meus pensamentos. O lixo jogado no muro perto do primeiro degrau não cheirava ruim, mas sua presença incomodava. Na parede, uma pichação qualquer ininteligível e ao lado a frase “Quem tem medo de viver não nasce” escrita em vermelho berrante.

Dei o primeiro passo, tomando cuidado para iniciar a subida com o pé direito. No segundo degrau, segurei com força o corrimão de ferro, áspero e sujo. No quinto degrau, um carro passou pela rua e buzinou bem próximo à passarela. Quase cuspi meu coração pela boca. Um senhor me ultrapassava no mesmo instante e olhou para mim, quase rindo. Sorri de volta, meio sem graça e tentado disfarçar a leve tremedeira nas pernas.

Suspirei e avancei os últimos degraus com súbita pressa.

Lá em cima, o vento soprava calmo. A passarela era larga o suficiente para quatro pessoas andarem de lado. Mas não era de concreto sólido e estável. Era feita de ferro vacilante. Em minha imaginação, até mesmo aquele ventinho seria capaz de balançar a estrutura — ou seria apenas minhas pernas bambas?

Caminhei devagar, mirando o chão. Meus pés suavam frio dentro do tênis. Não conseguia erguer a cabeça por mais de um instante. Gostaria de me convencer que era devido ao sol, mas não tinha ilusões quanto a isso. Nos dois sentidos da travessia, pessoas iam e viam. As que iam ultrapassavam-me com facilidade, concentrados que estava em sua pressa rotineira. Toda a minha atenção estava nos passos que dava. E nos carros que voavam lá embaixo.

Era inevitável vê-los, visto que eu andava com a vista baixa. Seria eles que faziam a estrutura vibrar, causando-me um frio na barriga? Seria a tontura que me atingiu causada pela insolação? Em nenhum momento eu deixei de segurar o corrimão, mas naquele instante eu apertei tão forte que minha mão doeu.

Suspirei e notei que estava ofegante. Minha boca amargava algo seco.

O vai e vem dos carros zunia em minha mente. O destino parecia distante, quase uma miragem no deserto. As pessoas que iam e viam eram apenas vultos indiferentes.

Tentei andar mais rápido. Estava dando certo, até que ouvi uma cantada de pneus épica. Lá embaixo, um quase-acidente, evitado por muito pouco. Em cima, eu segurava o corrimão com as duas mãos, como se minha vida dependesse disso. Minhas pernas estavam moles, como um boneco de pano. Sentia uma gota de suor escorrer pela minha testa. Algumas pessoas pararam por um instante para contemplar a cena, depois seguiram apressadas com suas vidas. Fiquei lá, fingindo que contemplaria por mais algum tempo e que não tinha pressa. Podia jurar que as batidas de meu coração estavam sincronizadas com a passagem dos carros sob a passarela.

Olhei o relógio. Precisava chegar ao meu destino em dez minutos, se quisesse evitar o atraso. Segui com a travessia. Ao meu lado um jovem passou assobiando “Twisted Nerve”. Com aquela melodia reverberando em minha mente, completei o trajeto, quase me arrastando pela lateral de ferro.

Ao me deparar com os degraus, quase sorri. Com muita calma e precisão, desci, ainda me segurando à estrutura de ferro. Quando pus os pés na calçada, expirei forte. Esfreguei as mãos frias. Conferi a hora no relógio. Confiante, dei meus primeiros passos em terra firme.

Tropecei numa saliência do terreno. Alguns transeuntes se incomodaram em me prestar ajuda. Mas, fora o susto e um leve arranhão no braço, eu estava bem.

Eu estava rindo.

Anúncios

Um comentário sobre “[Conto] A travessia

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s