[Conto] A Passagem ou (A morte por dois pontos de vista)

Esse é um texto um pouco antigo, escrito na época que fiz o curso de escrita criativa com o Rodrigo van Kampen. Espero que gostem.

 

A Passagem ou (A morte por dois pontos de vista)

Acordei com uma trucidante dor no peito. Meu corpo inteiro tremia e minha garganta estava entalada. Meus olhos captavam nada, exceto uma brancura infinita. Tudo que chegava aos meus ouvidos era um chiado constante. Levantar foi uma tarefa mais difícil que imaginara. Meu coração parecia uma britadeira.

Naquele cenário branco sem fim, avistei um birô e um ser atrás dele. Caminhei até lá. O homem parecia um monge beneditino pálido, mas a túnica era de um púrpura berrante. Ele lia um livro cuja capa era completamente negra, mascava um chiclete azul e ouvia algo nuns fones de ouvido.

— Olá? — eu disse. — Poderia me dizer onde estou e…

— Você morreu — o homem respondeu, desviando o olhar apenas um pouco do livro. — Ataque cardíaco, no meio de um churrasco. Assine aqui.

Ele empurrou uma folha de papel A4, escrita até a metade. Minha boca estava seca.

— Ah, espere… Não pode ser…

— Tão certo quanto o sol nasce no leste. Assine a folha de ponto. Depois siga pela esquerda.

Encarei a folha, com a assinatura de várias outras pessoas. Nenhum conhecido.

— Esquerda? Isso leva ao Inferno ou ao Paraíso? Quem é você? É Deus?

Ele fez uma bola com o chiclete.

— É a Triagem. Agora assine e vá. Não me aborreça. Sou apenas o porteiro.

Suspirei, dei de ombros, rubriquei na folha. Sem saber o que me esperava, segui pela esquerda.


A música da playlist mudou. Era das boas.

Sweet dreams are made of this. Who am I to disagree?

Uma boa música era companhia perfeita para um bom livro. Os mortais, com seu cérebro ridículo, não conseguem, em geral, prestar total atenção aos dois, mas aquilo era uma trivialidade para X’nat 5A-3000. Falando em mortais, um deles acabara de chegar à Passagem. Era uma fêmea humana, fértil, míseros 22 anos terrestres. X’nat leu tudo isso na alma da moça, em um milésimo de segundo. Assumiu uma forma que julgou ser agradável a humana.

Everybody’s looking for something

Ela se aproximou e iniciou um tipo de comunicação verbal primitiva.

Some of them want to use you

— Você morreu. Ataque cardíaco, no meio de um churrasco — X’nat informou, no idioma dela, um tanto curioso quanto àquela estranha interação social chamada “churrasco”. Humanos e suas bizarrices. — Assine aqui.

Como a maioria dos mortais, a humana refutou a ideia. X’nat adotou a resposta padrão nº 42. A moça ainda pareceu desnorteada, falando de coisas fantasiosas, como Inferno e Paraíso. A isto, X’nat sabiamente respondeu com o protocolo nº 108.

Keep your head up (movin’ on)

A terráquea obedeceu hesitante ao pedido e seguiu pelo caminho da esquerda. X’nat então voltou a dedicar 30% de sua atenção ao livro. Estava começando uma parte nova.

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.”

X’nat riu. Adorava essas fantasias non-sense dos humanos.

Sweet dreams are made of this

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