[Resenha] Araruama: o livro das sementes

Obra: Araruama: o livro das sementes

Autor: Ian Fraser

Editora: Moinhos

Gênero: Fantasia

Número de páginas: 242

 

araruama

 

Esse é outro livro que se destaca pela construção de mundo. O universo criado por Ian é inspirado em diversas culturas indígenas da América, e eu acho essa ideia totalmente válida. Assim como falei na resenha de O homem de azul e púrpura, é um tipo de abordagem necessária, e que se destaca pela originalidade, e pela iniciativa do autor de escrever em um universo fora do padrão Europa medieval.

Achei legal que é um mundo muito jovem que está amadurecendo, digamos assim. Ele ainda está em formação, a cultura está mutando, as pessoas estão mudando, coisas estão sendo inventadas, novas ameaças estão surgindo, novas coisas que antes não tinham nome estão sendo nomeadas. Por isso mesmo que o subtítulo da obra é O livro das sementes. É um mundo que ainda florescerá. Ou, como está escrito na sinopse: essa é uma história de quando o mundo ainda era cru.

(SPOILER dentro desse parêntesis. Por exemplo, há um capítulo onde a personagem Apoema inventa o arco e flecha. Há outro capítulo onde o personagem Eçai inventa uma palavra para descrever um sentimento novo, que eu só posso entender como sendo “amor”. Aliás, Apoema tem uma luz cuja cor não tinha nome, até Eçai nomeá-la. O livro inteiro fala sobre como o homem está desenvolvendo sentimentos novos, sentimentos esses que são ruins: ódio, cobiça, inveja. Eventualmente, isso traria a ruína do homem.)

Eu arriscaria dizer que o tema do livro é mudança e descoberta, e como as pessoas lidam com elas. Por exemplo, algo que marca toda a trama é o Turunã, que é um ritual de passagem que alguns jovens devem se submeter para serem considerados adultos. Ritual de passagem é algo muito presente em culturas mais primitivas, e eu sempre achei interessante. A diferença aqui é que a coisa é realmente perigosa, e alguns podem morrer no processo (c’est la vie), e por isso eles passam a infância e adolescência inteira se preparando para o evento.

Outra coisa que achei legal é toda a mística envolvendo o aman paba. Isso seria algo como o tempo de vida de uma pessoa, que seria pré-determinado. Logo após o nascimento, uma Majé (outro conceito muito interessante do livro) lê o aman paba do recém-nascido e diz quantos motirõ Monâ, a deusa do tempo, reservou para aquele bebê. Quanto maior o aman paba, maior será a posição daquela pessoa na hierarquia social. Mas aí fica o questionamento: será que é isso mesmo? A pessoa realmente precisa morrer quando chegar a sua hora estipulada?

Não fica claro. Aliás, no que se refere a deuses, eu classifico os universos fantásticos em duas categorias: aqueles nos quais as divindades realmente existe e aqueles nas quais as divindades são apenas mitos. Em Araruama, não está claro em qual categoria estamos. Apesar de alguns personagens questionarem ou outros darem a entender que os deuses são mitos, é também claro que existe magia nesse mundo, e as pessoas realmente morrem no seu “motirõ de Monã”. Esse mistério me agradou.

Agora, a maneira como a autor escreve tem alguns deslizes. Primeiro, ele é muito expositivo. O texto tem muito infodump, ou às vezes ele enche o texto com uns diálogos cujo objetivo é explicar algo do mundo para algum personagem (e, por conseguinte, para o leitor). No começo do livro, por exemplo, Ian faz algo que achei horrível, que é contar uma história intercalando narração em terceira pessoa e o relato em primeira pessoa do protagonista da história. Não que isso por si só seja ruim, mas a maneira como o autor o fez ficou estranho.

Mas dá para ver que Ian escreve com paixão, e suas palavras têm um quê de poesia. Ele sabe lidar com as palavras. E, aliás, o livro tem todo um vocabulário próprio que achei maravilhoso. Me perdi algumas vezes no meio de tantas palavras desconhecidas, mas nada que atrapalhasse o fluxo da leitura. E há um apêndice no final do livro explicando cada termo.

Outro ponto que deixou a desejar foi a trama. A impressão que tive é que o livro inteiro é apenas um primeiro ato de uma história que merecia um livro solo. Ian constrói um senso de ameaça ao longo das páginas, deixando claro que há um conflito inerente. Ele também cria plots menores para cada personagem, cada um com seu próprio clímax, a fim de dar um pouco de ação ao texto. Entretanto, eu realmente senti falta de um clímax maior para a história como um tudo. Em vez disso, o livro acaba num cliffhanger agoniante.

Veredito final: para aqueles que desejam ver um mundo amadurecer.

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