[Resenha] HEX

Olá, pessoal! Hoje eu trago mais uma resenha de um livro sensacional.

Obra: HEX

Autor: Thomas Olde Heuvelt

Editora: Darkside

Gênero: Terror / terror psicológico

Número de páginas: 366

HEX-Capa

Ler HEX foi umas das experiências literárias mais intensas que tive nos últimos tempos. O livro já me pegou por sua premissa insana e original. O tipo de coisa que eu, como escritor (que já se aventurou pelo terror), olha e diz: “mano, eu queria ter tido essa ideia!”.

A história gira em torno de Katherine van Wyler, uma ilustre moradora da cidade de Black Spring. O que a torna tão peculiar é o fato dela ser uma bruxa de mais de trezentos anos que assombra a cidade desde o século XVII. A cidade inteira está amaldiçoada, e todos os seus cidadãos estão condenados a viver e morrer em Black Spring. Porque aqueles que se atrevem a deixar a cidade começam a ter pensamentos suicidas após algumas semanas. Para evitar que outras pessoas de fora (os Forasteiros) tenham contato com a “Bruxa de Black Rock” e acabem amaldiçoados também, existe toda uma força tarefa que monitora Katherine 24h por dia, através de um sistema de câmeras de segurança e até mesmo um aplicativo para celular, onde os cidadãos trocam informações sobre a localização da aparição.

Essa utilização da tecnologia como ferramenta numa história de terror foi uma sacada brilhante. Temos um confronto de dois mundos. De um lado, o mundo de Katherine, do século XVII, e do outro, o mundo dos smartphones e youtubers, do século XXI. Numa era onde as informações se espalham como vírus, manter em segredo do resto do mundo a existência de uma bruxa que atormenta uma cidade inteira é um grande desafio. Mas os membros da HEX, responsáveis pelo monitoramento e contenção da bruxa, conseguem realizar essa façanha, às vezes se utilizando de artifícios engenhosos.

autógrafo
Tenho uma

A ambientação é fantástica. O livro tem um clima sombrio mesclado com um tom de vislumbramento causado pelo ar holandês de Black Spring. E isso se mistura também com uma estranha sensação de acomodamento dos moradores com relação à bruxa. Katherine já está tanto tempo lá que já se integrou à própria alma da cidade, e sua presença constante já sedimentou na mente dos moradores a ideia de que ela é apenas mais um elemento do cenário. Obviamente as pessoas temem a bruxa (e o dia em que ela abrirá seus olhos costurados), mas vivem uma falsa impressão de segurança, e de que tudo estará bem se ninguém mexer com ela.

Os personagens que realmente importam para a trama são bem desenvolvidos, e o conflito deles é bem trabalhado. Temos o pai que faria tudo para proteger o filho; o adolescente youtuber revoltado com a situação; o adolescente porra louca sem nada na cabeça; o chefe proativo da HEX; e (clichêzão, mas bem colocado) a mulher louca. Porém, mesmo sem dizer uma única palavra (até porque sua boca está costurada), a personagem mais complexa e interessante é Katherine. Ela transmite ao mesmo tempo uma sensação de perigo urgente e fragilidade passiva. Chegamos mesmo a sentir pena dela em certos momentos da história. Ela é uma força da natureza mal compreendida por todos os habitantes de Black Spring. É um ser imprevisível e aleatório que vive seguindo suas próprias regras. O livro peca por não apresentar muitas personagens femininas, mas Katherine é um grande acerto.

A escrita do autor é ágil, embora eu não curta muito o estilo adotado (lembra um pouco Stephen King). Além do uso excessivo de “tell”, há uma falta de sutileza irritante na narrativa. O caso mais gritante é um diálogo que tira todo o brilho da surpresa da trama, pois o leitor mais atento e experiente vai logo sacar o que o autor pretende fazer no ato final. Fora isso, o autor está o tempo inteiro explicando coisas, que acho que seria mais interessante deixar para o leitor tirar suas próprias conclusões e interpretações.

Ainda assim, a trama é muito boa, acertadamente dividida em duas partes. A primeira tem um ritmo mais lento, que só faz crescer o sentimento de agonia, de que algo realmente ruim está para acontecer. A segunda parte descamba para uma espiral de acontecimentos alucinantes, de deixar qualquer leitor de boca aberta.

E o livro inteiro é um estudo sobre a natureza humana. Simbolicamente, Black Spring é um grande laboratório para analisar como o ser humano se comporta em situações de stress extremo. Quando a coisa aperta, vemos se revelar o grande vilão do livro. Não, não é a bruxa de Black Rock. É a natureza destrutiva e egoísta do ser humano. Acho que esse é o maior mérito dessa obra, o que torna o livro mais um terror psicológico do que qualquer outra coisa.

Veredito final: para aqueles que acreditam que o homem é o lobo do homem.

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