Indicação da semana | [Filme] Deus da carnificina

Continuando a coluna na qual eu indicarei livros, filmes, músicas ou qualquer outra coisa que achar interessante, hoje falarei sobre Deus da carnificina.

Título: Deus da carnificina (Original: Carnage)

Diretor: Roman Polanski

Gênero: drama\comédia

Ano: 2011

Duração: 80 min

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Este é um filme baseado na peça de teatro Le Dieu du carnage (“O deus da carnificina”) da roteirista e atriz francesa Yasmina Reza. A adaptação ficou por conta do diretor Roman Polanski (O bebê de Rosemary, O pianista, Chinatown) e conta com um elenco de peso, como é possível ver no poster acima. Continuar lendo

[Resenha] A mão esquerda da escuridão

Olá, pessoal. Hoje trago a primeira postagem do ano. Uma resenha de um livro que deveria ter finalizado a leitura em 2016, mas só o fiz agora no início de 2017. Bem, antes tarde do que nunca 🙂

Obra: A mão esquerda da escuridão

Autor: Ursula K. Le Guin

Editora: Aleph

Gênero: Ficção científica

Número de páginas: 292

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“O que é um amigo num mundo onde qualquer amigo pode ser um amante quando muda a fase da lua?”

Esta, para mim, foi a frase mais marcante deste que é um dos mais espetaculares livro que já li e sintetiza bem todo o conflito antropológico da trama. A mão esquerda da escuridão é, antes de tudo, uma reflexão sobre gênero e como a nossa sociedade é moldada a partir da dualidade masculino\feminino. Continuar lendo

A luz está vencendo

Quando me disseram que eu deveria assistir True Detective porque a série era pura poesia, achei isso puro exagero. Mas quem me recomendou é uma pessoa com bom senso, então supus que a série seria muito boa e que valeria a pena assistir.

Até agora vi somente a primeira temporada e para mim já valeu a experiência. E não havia exagero nas palavras de meu amigo. É pura poesia. Há muitos diálogos incríveis e profundos, mas o melhor, na minha opinião, é este. Quero deixá-lo registrado aqui. Quem sabe no futuro minha memória falhe e pelo menos terei esta postagem para me fazer recordar tão poéticas palavras.

(Aviso de possíveis spoilers à frente. É por sua conta e risco.)

Rust: Vou te dizer, Marty. Estive naquele quarto, olhando pela janela, pensando… Só existe uma história. A mais antiga.

Marty: Qual é?

Rust: Luz versus Escuridão.

Marty: Bem, não estamos no Alasca, mas parece-me que a escuridão tem muito mais território.

Rust: Sim. Você está certo.

Momentos depois, Rust retoma o assunto anterior:

Rust: Acho que você está entendendo errado, sobre o assunto do céu.

Marty: Ah, é?

Rust: Antigamente, só havia escuridão. Na minha opinião, a Luz está vencendo.

 

[Resenha] A Chave do Monarca Azul

Obra: A chave do Monarca Azul

Autor: Bruno Moraes

Editora: publicação independente (por financiamento coletivo, via Catarse)

Gênero: horror cósmico\terror psicológico

Número de páginas: 195

Sinopse:

“65 em cada 100 crianças tem um amigo imaginário até os 7 anos de idade. 1 adulto em 7 bilhões descobre que o seu é real”

A história segue um autor de terror best seller , consagrado no cenário da ficção nacional como um dos maiores de sua geração. Às vésperas do lançamento do seu quarto romance, porém, ele recebe em casa uma correspondência que não havia encomendado. Era uma caixa. E o remetente se identificava como “Arlequim”, a entidade-pesadelo que o visitava em sua infância. E se ninguém mais sabe a respeito desta história, poderia o remetente estar falando a verdade?

Olá, pessoal! Aqui estamos com mais uma resenha para o blog. O livro de hoje é mais uma publicação de um autor independente e iniciante. O gênero é horror cósmico, mas eu diria que é mais que isso. Você entenderá quando ler o livro.

Para começar, quem é esse Monarca Azul? Além de ser uma referência ao Rei de Amarelo (pelo menos eu acho que é, um dia eu pergunto ao autor se isso procede), o Monarca Azul é uma entidade cósmica que atormentava a vida de um garotinho de sete anos. Sim, entidade cósmica, estilo Lovecraft mesmo. O cara é um figurão assustador, com uma boca que mais parece um buraco negro e uma roupa que lembra um bobo da corte. Mas de engraçado ele não tem nada. Daí o moleque batizou o ser de “Arlequim” e tentou se convencer de que era apenas um amigo imaginário, do tipo que não é divertido. Continuar lendo

[Conto] Libertação em três atos

Olá, pessoal! Este pequeno texto é uma resposta ao desafio lançado por Fábio M. Barreto e Rob Gordon em seu podcast Gente que Escreve (por sinal muito bom, todos deveriam ouvir). Espero que gostem.

Libertação em três atos

– Mas que porra é essa, Júlia?

Ângelo segurava furioso um pequeno pedaço de papel, no qual estava esboçado um simples desenho em tons cinzas.

Júlia tremia. Inspirou profundamente e tentou falar com voz equilibrada.

– Ângelo, é apenas um desenho.

– Pro caralho com esses estúpidos desenhos! Vá fazer minha janta, estou morrendo de fome. Uma vagabunda dessas, não faz nada que preste nessa casa!

– Não me chame de vagabunda!

Júlia recuou ante o olhar de ódio do homem. Não deveria ter falado aquilo e agora todo seu corpo temia.

– É vagabunda sim! – Rasgou o papel em vários pedaços.

– Não!

Jogou os pedaços no chão.

– Limpe esta porra agora e faça minha janta. Continuar lendo

[Conto] A Revelação

Naquela noite, na igreja, o pastor falava sobre amor ao próximo, boas ações, benevolência, o bom samaritano, mas seu sermão era vago; apenas palavras soltas ao vento. A Garota Revoltada estava lá, mas apenas de corpo presente, porque seu espírito estava em outro lugar. Um lugar distante da realidade, o mundo dos seus pensamentos.

Mas foi a própria realidade que lhe trouxe de volta. A dura realidade da sociedade. De repente lembrou-se do maltrapilho mendigo que mendigava na praça, quase em frente à igreja. Deu-se conta que jamais prestara atenção nele. Não realmente. Mas aquele sermão vago do pastor juntamente com a lembrança do esfomeado morador de rua abriu sua mente para uma verdade clara e seca. Uma verdade simples, inegável, mas que ninguém ousa dizer em voz alta. Uma verdade dura e afiada como uma faca de dois gumes que corta o orgulho humano.

No fim, o pastor aproximou-se da Garota e perguntou o que achou do sermão da noite.

– Foi iluminador, irmão. Acho que entendi a natureza humana.

– Ah foi? E qual é essa natureza humana?

– É bem simples. Todos nós sonhamos com um mundo melhor; um mundo belo, sem mágoa e dor; um mundo de sonhos. Mas dentre nós, são poucos aqueles que estão dispostos a se sacrificar verdadeiramente por este sonho.

E saiu a passos largos, com uma resolução pura e simples no coração.

por Renan Santos

[Conto] A verdade no fundo do oceano

E naquele momento crítico, em que nada parecia fazer sentido, ou na verdade, não parecia haver sentido nenhum em sua vida, ela resolveu investigar, pensar, analisar sistematicamente sua vida, seus conceitos, suas crenças, seus gostos e desgostos, seus defeitos e qualidades. Resolveu repensar sua essência. E para isso, precisava fazer uma análise profunda de si mesma, olhar sem preconceitos para seu eu interior e sentir verdadeiramente sua alma.

E assim o fez.

Mergulhou profundamente no oceano de sentimentos e ideias abstratas que existia dentro de si. Após muito tempo, chegou ao mais profundo, escuro e gélido nível, onde habitava a mais pura e simples verdade. Viu sua alma desnudada, como fora concebida, imaculada, sem impurezas e preconceitos; sem trajes mundanos ou máscara de sentimentos. Apenas sua alma, pura e simplesmente, o ser humano em si, em sua essência mais primordial e divina. Aquilo que viu foi ao mesmo tempo belo e assustador; simples e complexo; misterioso e revelador. Totalmente universal e geral, mas ao mesmo tempo estranhamente particular.

Aquilo era a verdade há muito tempo esquecida. Divina. Iluminadora. Purificadora.

Sentiu-se bem com sua descoberta e toda dúvida fora expurgada de seu espírito.

Desejou gritar, escrever um poema, cantar a antiga canção.

Desejou amar, em todos os sentidos do conceito.

Quis compartilhar com o mundo sua descoberta, para que todos os outros também sentissem a verdade em seus corações.

Mas ninguém a escutara. Estavam cegos, estavam surdos, estavam loucos. Estavam corrompidos e maculados com a dúvida, a dúvida que dilacera o espírito e apaga a luz que brilha dentro de cada ser. A dúvida que congela a chama que nos mantém vivos. A dúvida cruel.

Perguntou-se por que não a escutavam, por que não entendiam, por que não queriam entender.

E então compreendeu que não poderia mostrar-lhes o caminho. Cada um tem seu próprio caminho. Cada um deve trilhar seu próprio caminho para a verdade, porque a verdade no âmago de cada espírito é única e intransferível.

Compreendeu que cada um deveria mergulhar no próprio oceano e vislumbrar a sua verdade particular.

por Renan Santos