[Conto] A travessia

Nesse domingo trago mais um texto de minha autoria. Espero que apreciem 🙂


A travessia

 

A passarela para pedestres devia ter uns sete ou oito metros de altura, mas para mim parecia um prédio de trinta andares. Sob ela, uma larga avenida, com um intenso fluxo de veículos e nenhuma faixa de pedestres ou sinal à vista.

Suspirei e passei a mão pelo cabelo.

Descera do ônibus há pouco mais de um minuto e tudo que fizera nesse meio tempo foi encarar a passarela. Não muito, claro, pois o sol incidia direto em meu rosto. Passei a mão pela testa, limpado um pouquinho de suor. Verifiquei as horas no relógio.

Pus as mãos no bolso da calça jeans e caminhei bem devagar à escada que levava para a passarela. A cacofonia dos carros mal me deixava concentrar em meus pensamentos. O lixo jogado no muro perto do primeiro degrau não cheirava ruim, mas sua presença incomodava. Na parede, uma pichação qualquer ininteligível e ao lado a frase “Quem tem medo de viver não nasce” escrita em vermelho berrante. Continuar lendo

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Indicação da semana | [Conto] A última pergunta

A indicação desta semana é um dos textos mais belos e simbólicos que já li. Estou falando do já clássico A última pergunta, um conto de Isaac Asimov. O texto aborda um conceito da física chamado entropia. Calma, eu explico. Em termos físicos, a entropia mede a irreversibilidade de um sistema. Posto em termos mais humanos, digamos que ela mede o quanto um sistema está ‘desorganizado’, embora isso não seja muito preciso. A segunda lei da afirma que, num sistema termodinamicamente isolado, a entropia tende a aumentar. Ou, posto em termos imprecisos de senso comum, a desordem só aumenta. Reverter a desordem dá muito trabalho. Pense assim: é mais fácil quebrar um ovo do que reconstruir um ovo quebrado.

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Eu juro que Asimov explica e expõe melhor esse tema em seu conto. A última pergunta foi feita ao Multivac, um supercomputador, por um engenheiro embriagado. A pergunta, posta em termos simples, é essa: pode a entropia ser revertida? A resposta obtida não é satisfatória. O conto segue então dando saltos temporais cada vez mais longos, e em todos os momentos, a última pergunta continua perturbando as mentes humanas. Como a história termina, só lendo para saber, mas eu garanto que vale muito a pena. Aqui vemos a genialidade de Asimov, e este conto parece ser seu texto favorito. Ele trata de um tema que interessa a todos: será que haverá um fim para tudo? A busca pela imortalidade é o que está por detrás da insistente pergunta, a qual o computador mais potente do universo não consegue responder.

Você pode ler o conto (em português) aqui. Se preferir em inglês, leia-o aqui. Porém eu recomendo muito a leitura desta versão em quadrinhos do conto. É emocionante (malditos ninjas cortadores de cebola). Você pode também ouvir o audiobook do conto.

Gostaria de aproveitar o embalo, e indicar outro conto do Asimov, chamado A última resposta. É sobre um cientista que morre e se encontra com uma entidade chamada a Voz. Ouça o audiobook do conto aqui. Falarei apenas isto. Leia os contos A última pergunta e A última resposta nesta ordem e tirem suas próprias conclusões. Até a próxima!

 

[TAG] Oscar Literário 2017: indicados

Ano passado rolou aqui no blog o Oscar Literário. É uma tag muito legal que vi primeiro no blog Sem Serifa, mas que muitos outros blogs já participaram. A ideia é homenagear os livros lidos ano passado e escolhermos as melhores leituras através de um concurso estilo Oscar.

As regras são:

– Fazer entre 3 e 5 indicações em cada categoria;

– Indicar apenas livros que você leu no ano passado;

– Criar um post para as indicações e, depois de algum tempo (de preferência, na semana do Oscar), um post para a premiação.

Vi pela blogosfera muita gente fazendo a tag, mas não necessariamente a criada pelo Sem Serifa. Até as categorias eram diferentes. Aqui também tomei a liberdade de alterar algumas categorias.

Mas enfim, sem mais delongas, eis os indicados:

Melhor livro estrangeiro

Androides sonham com ovelhas elétricas? (Philip K. Dick)

O oceano no fim do caminho (Neil Gaiman)

A mão esquerda da escuridão (Ursula K. Le Guin)

A menina submersa: Memórias (Caitlín R. Kiernan)

A viagem ao centro da terra (Julio Verne) Continuar lendo

[Conto] O último pecado

Olá, pessoal! Hoje trago um conto especial para o Halloween. Espero que gostem 🙂

O último pecado

Adam tragou o cigarro e tossiu.

— Merda! Não achei que a sensação fosse tão ruim.

Tossiu mais. Evanne riu.

— É sério mesmo que nunca experimentou isso antes? Nenhuma vez?

— Nunca. Já disse, Eve.

— Tá, me dá isso aqui.

Ela tomou o cigarro de sua mão e deu uma longa tragada. Adam incomodou-se com a fumaça.

— Cheguei à conclusão que fumar pela primeira vez não é a última experiência de vida mais legal. Deveríamos tentar algo diferente.

Ele passou a mão pelo ventre nu de Eve e começou a subir até seus seios.

— Não, para. Não vem com este papo de novo, tá legal? Já teve seu prazer, ok?

— Tá bem, ok. — Começou a brincar com o isqueiro, acendendo e apagando várias vezes. Sentia um frio na barriga. — Tem certeza de que quer fazer isso?

Ela suspirou pesado. Pegou a mão de Adam e apertou. Ambas estavam frias.

— Já discutimos isso, Adam. Que mais podemos fazer? Está acabado, mano. Não temos mais salvação. Continuar lendo

[Newsletter] #03 – Lost, easter eggs, Star Wars e um desafio

Ponto de Acumulação

(de ideias, fatos e pensamentos)

 

O que repousa na sombra da estátua? (ou porque resolvi me tornar escritor)

Todo viciado possui sua droga de entrada. Aquela que lhe introduziu no mundo dos vícios. Não importa qual seja o vício, é certo que houve o primeiro. No caso do meu vício em séries de TV, minha porta de entrada foi Lost. E foi por causa deste seriado que resolvi me tornar escritor.

Lost não é a melhor série que já foi produzida. Mas ela foi um grande marco. Pioneira. Merece algum crédito. Seu problema é que os roteiristas se perderam (sim, o trocadilho foi intencional; sim, foi um trocadilho ruim). Mas apesar dos pesares, eu gostei. Não direi que não gostei do final, mas ao contrário de muita gente com quem conversei, ele pareceu bem claro para mim.

O motivo para eu apreciar tanto esta série é certamente o mesmo de ela ter feito tanto sucesso. É o fato de a trama ser recheada de mistérios. Mistérios atiçam a curiosidade. Atiçaram a minha. Atiçaram a milhões de fãs mundo a fora. Queríamos saber o que vinha depois; queríamos entender que p&@* estava acontecendo naquela ilha. Simples assim. Os caras sabiam como prender nossa atenção. Os fãs eram tão obcecados com a trama que discutiam teorias em fóruns na internet. (Eu era mais o cara que lia as teorias, mas tudo bem.) Continuar lendo

[Conto colaborativo] A guerra dos zíperes

Olá, pessoal! Hoje trago um texto especial. Para quem não sabe, este final de semana teve o anuncio dos vencedores do Oscar Literário, ideia inspirada no blog Sem Serifa. Juntamente com o pessoal do Clube de Autores de Fantasia, organizamos um evento virtual no Facebook, para anunciar o premiados. Mas não foi apenas isso. O evento contou com a participação de vários novos autores da fantasia nacional: Rodrigo Mesquita (Brasil cyberpunk 2115), Atlas Moniz (Capital Revelada, O historiurgo), Anderson Vitorello (Os guerreiros do universo), Janayna Bianchi (Lobo de Rua, Galeria Creta), Luana Minéia (Sete dias de Lázaro), Lauro Kocuiba (série Alvores), Ariel Ayres (O Quatro), Camila Guerra (A última chave; As flechas de Tarian) e este que vos fala, Renan Santos (Aquarela de sangue, Crônicas de Erys).

O evento foi bem legal e a galera interagiu bastante. Houve brincadeiras, desafios e sorteios de livros, ebooks e marcadores. Foi bem divertido. E, o melhor de tudo, houve a criação de um conto coletivo. Isso mesmo. Rodrigo Mesquita começou criando a história e passou a bola para o próximo (que era eu, só pra constar). Cada autor ia escrevendo sua parte, continuando a trama dos autores anteriores. Ah, detalhe. Tínhamos apenas uma hora para escrever nossa parte, enquanto fazíamos o papel de hosts do evento, interagindo com os leitores. Não foi fácil. Era todo momento subindo notificação do Facebook. Mas no final deu certo. Cada um escreveu sua parte o no final eu revisei e amarrei as pontas soltas da trama. O mais legal é que mesmo sendo uma única história, em cada parte transparece o estilo de escrita de cada um.

Eis o resultado de nossa brincadeira literária, fruto de várias mentes loucas que não tinham nada melhor para fazer num sábado. Continuar lendo

[Conto] Quarenta e dois

Olá, pessoal! Hoje trago a você um conto que escrevi ano passado, a pedido da galera do Clube de Autores de Fantasia. Isso foi por ocasião do Dia da Toalha, que queríamos comemorar em grande estilo. Entre outras coisas, rolou este conto, o qual me diverti muito escrevendo. Ele foi postado originalmente no site do CAF e depois no Wattpad. Mas como meu amigo Ariel Ayres (um grande fã de Adams) nunca o leu, resolvi revisá-lo (a revisão estava horrível) e postar aqui no blog. Agora não tem desculpa para não lê-lo, Ariel.

Bem, é isso. Espero que gostem. Ah, aviso logo que vai ser textão (7.467 palavras). Apertem os cintos, pois vamos ligar nosso motor de improbabilidade infinita.

Quarenta e dois

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Encontro marcado, no Milliways

Existe uma teoria que diz que se uma dia alguém descobrir exatamente para que serve o Universo, e porque ele está aqui, ele desaparecerá instantaneamente e será substituído por algo ainda mais estranho e inexplicável. Existe uma segunda teoria que diz que isso já aconteceu.

E existe ainda uma terceira teoria, defendida por um jovem físico da conceituada Universidade de Maximegalon, que diz que isso acontece toda quinta-feira, na hora do almoço.

Não que a hora do almoço seja um conceito absoluto. Na verdade, a hora do almoço é algo tão irreal e mutável quando a inflação ou a dívida externa. O que realmente importa, e os Frades Almoçadores de Voondon já sabiam disso, não é quando mas onde o almoço é feito. Estudiosos do Departamento de Cybercultura, Desing Exterior e Retropsicologia Reversa da Universidade de Maximegalon, após anos de estudos de campo pesados e sérios feitos em festas nas casas de praia de Santraginus V regadas à Dinamite Pangalática, chegaram à conclusão de que:

a) Do ponto de vista puramente fisiológico, filosófico, sociológico ou metafísico, não interessa quando a refeição é feita desde que

b) Seja feita em restaurantes ricamente decorados, com garçons-robôs altamente educados e com direito à um showzinho de cortesia. Continuar lendo