Sobre a Arte da Escrita | Diálogos: como os utilizei na prática

Na primeira parte dessa postagem, falei sobre diálogos e como eles deixam o texto mais rico. Comentei como o Quentin Tarantino escreve diálogos primorosos e como utilizar essa técnica para evitar infodump. Agora, na segunda parte, mostrarei como utilizei tudo isso na prática: no romance que escrevi.

Peço desculpas por está puxando a brasa para a minha sardinha, mas é a vida. Não é somente ataque de oportunidade pra falar do meu livro ou preguiça de pensar em outra coisa. Tem outros motivos. Primeiro, o texto já está lapidado. Diferente do exemplo que postei na primeira parte, no qual pensei por meia hora, aqui eu trabalhei o texto várias vezes, durante meses. Segundo, como é um texto meu, sei exatamente o que eu queria ao inserir essa ou aquela frase. Assim, fica mais fácil eu explicar as técnicas que apliquei, e o raciocínio que usei ao escrever dessa ou daquela maneira.

Farei isso em duas partes. Na primeira, mostrarei como lidei com infodump em meu texto. Na segunda, mostrarei como foi a construção de uma das personagens. Todo isso utilizando diálogos, claro. Continuar lendo

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As crônicas de Erys – capítulo 5

Olá pessoal! Ontem finalmente terminei de reescrever meu livro. Ele está bem diferente da versão que escrevi em 2015. Espero que as mudanças tenham melhorado o texto. Agora vou dar um pouco de tempo, depois vou revisar o texto. Mas como prometido, aqui vai o último capítulo de amostra do meu livro. Espero que apreciem. Até a próxima.

 


 

Capítulo 5 – O cartomante

 

O Feiticeiro entrou no prostíbulo e dirigiu-se ao balcão a passos comedidos. Não reconheceu o taberneiro.

— Não vejo Jöeba — disse, sentando-se. — Então é seguro supor que você é Rantö?

O taberneiro olhou de canto de olho, enquanto enxugava um copo.

— Não estou mais de cama, então Jöeba terminou seus serviços por aqui. E você é?

— Mueljen.

— Foi o que eu pensei. Jöeba falou sobre você. E seus amigos.

— Por falar nisso, onde ele está?

— Jöeba? Eu não sei. Acho que saiu da cidade. Só estava aqui de passagem mesmo. Algo para beber?

O Feiticeiro fez que não. Olhou em volta, mas ninguém parecia reparar nele. Estavam muito ocupados alimentados seus libidos. Deslizou uma moeda de ouro pelo balcão.

— Pelo seu silêncio.

Rantö pegou o vintém e indicou com a cabeça a porta que dava aos fundos do prédio.

— Você sabe o caminho. Um dos seus comparsas já está lá. — Mueljen levantou-se, mas quando deu dois passos, o taberneiro chamou-o. — Ei, amigo. O rapaz está chateado. A ruiva fugiu com Jöeba. A bebida é por conta da casa.

Ele agradeceu por isso e foi até os fundos. Desceu as escadarias empoeiradas. Chegando ao porão, encontrou o Paladino com um copo de aguardente na mão e lágrimas no rosto. Continuar lendo

As crônicas de Erys – capítulo 4

Terminei de escrever a quarta parte do meu livro. Como prometido, estou liberando o capítulo 4 da história. É o penúltimo capítulo que liberarei como amostra. Espero que gostem. Críticas, comentários e sugestões são bem vindos.

Leia os também os outros capítulos liberados:

Prólogo | Capítulo 1 | Capítulo 2 | Capítulo 3


Capítulo 4 – Lágrimas de Asun

Arisha não conteve sua curiosidade. Disse ao conselheiro Klëmayn:

— É um pouco estranha essa comitiva do conselheiro Äiden, não acha?

O velho olhou em direção à comitiva a sua frente e falou:

— De fato, é a mais diversificada. Mas não é de se admirar. A excentricidade do conselheiro Äiden é conhecida em toda a cidade. — Eles chegaram à charrete, onde já se encontravam a conselheira Nörah e seu filho. — Primeiro as damas.

A lyasse entrou e fez um leve aceno aos dois que já estavam lá. Klëmayn acomodou-se ao seu lado.

— Ouvi que estavam falando de alguém excêntrico — a conselheira falou. — Acho que não é difícil adivinhar de quem se tratava. As opções são poucas.

Arisha não soube o que dizer, mas Klëmayn deu um risinho e falou:

— A fama de Äiden o precede. Tem algumas ideias revolucionárias, mas é um homem de bom coração.

— Bastante revolucionárias, eu diria — Nörah comentou. — Onde já se viu convidar um camponês para o baile de honra.

— Quem são eles, afinal? — Klëmayn perguntou.

— O sujeito é um caçador. — a conselheira informou. — É o representante de uma das vilas da floresta. Veio para o Festival entregar as oferendas e trouxe a filha junto.

Arisha recordou o rosto do camponês, então comentou:

— Não acha que ele é muito jovem para ter uma filha daquela idade? Quantos anos ele tinha quando ela nasceu? Quatorze? Quinze?

— Ou menos — Nörah disse. — Quem se importa? Esses colonos não sabem quando parar quando conhecem os prazeres da carne.

Arisha continuava curiosa.

— A menina tem traços do clã da Lua. Mais que isso, viram os cabelos dela? A garota é tocada pela lua. Continuar lendo

As crônicas de Erys – capítulo 2

Como eu sou muito lesado, da última vez que eu postei um capítulo do meu livro, eu postei o capítulo 3, dizendo ser o capítulo 2. Para remediar este mal, agora sim eu postarei o verdadeiro capítulo 2. Espero que gostem 🙂

Leiam os outros capítulos

Prólogo

Capítulo 1

Capítulo 3


Capítulo 2 – O bêbado, o feiticeiro e a pupila

Barhend estava sentado no canto mais escuro da Taberna do Dragão Solitário, numa mesa ao fundo do salão, quase escondido na penumbra. A noite era fria, mas o ar ali era caloroso. De onde estava, via todo o recinto. Na mesa mais próxima, um casal comia em silêncio uma refeição simples. Poderiam ser pai e filha, não fosse tão distintos fisicamente. O homem era alto e magro, pele pálida e cabelos pretos desgrenhados. Trajava roupas escuras e um casaco negro. Aparentava ter meia idade. Já a garota devia ter uns nove ou dez anos. Era baixa e tinha os traços do Dragão: pele morena e cabelos castanho avermelhados.

As outras mesas estavam apinadas de camponeses e peões que trabalhavam nas plantações dos campos quase inférteis da região. A taberna estava movimentada, e Barhend observou por alguns instantes o andar macio de Kassandry, a taberneira, bailando entre as mesas. Um grupo de músicos se preparava para subir ao palco, enquanto um bardo solitário tomava um drinque no balcão. O cheio de álcool e suor impregnava no ar, assim como o sabor seco da poeira do deserto.

Eram quatro músicos: um trazia a rabeca, outro um violino e o terceiro se encarregava de um tamborete. A quarta era uma dama jovial, que ergueu sua mão e, quando se fez notar por todos na taberna, falou: Continuar lendo

As crônicas de Erys – capítulo 1

Olá, pessoal! Trago hoje mais uma amostra do livro que estou escrevendo. Não pretendo postá-lo todo aqui, talvez só os primeiros capítulos. Já postei o prólogo outro dia. Leia também os capítulos 2 e 3, aqui e aqui. Espero que gostem 🙂


Capítulo 1 – O homem do castelo na colina

Província de Lüpho, noroeste do Império Nyskar

04/05/2392 EL

A estrela de Asun surgira no céu, anunciando uma nova noite, com seu brilho azulado. Mryv’ seguia por uma estrada no meio da floresta. À sua frente, o sol se escondera por detrás das montanhas, não mais ofuscando sua visão. As grandes montanhas ainda estavam a vários dias de viagem, mas já poderiam ser vistas, em toda a sua grandiosidade. O destino de Mryv’, porém, era algo mais alcançável: uma colina que se erguia no meio da vegetação. Estava chegando; já era possível vislumbrar em detalhes o castelo negro no topo da elevação.

Hum, parece maior do que da última vez.

Ele notou uma movimentação atrás da carroça. Virou-se e, com uma voz doce, falou:

— Ei, querida, acordou? — Apontou para o castelo — Veja, já estamos chegando.

A menina pôs-se sentada, coçou os olhos, bocejou e disse:

— Estou com fome, papa. Posso pegar alguns biscoitinhos?

— Você comeu os últimos deles hoje de manhã, querida, não lembra?

A garota fez um gemido de frustração.

— Mas eu tenho fome, papa. Eu quero os biscoitinhos!

— Poderá comer quando chegarmos no castelo de lorde Moha’ra, querida.

Ele sentiu uma perturbação no thy. Parou a carroça. Dois homens surgiram, um de cada lado da estrada. Estavam escondidos detrás das árvores. O primeiro tinha uma espada de uma mão na bainha e o segundo tinha uma pistola no coldre. Mryv’ olhou de lado e viu que um arqueiro estava posicionado na linha das árvores, pronto para disparar sua flecha. A menina veio até ele e apertou seu braço.

— Isto é uma propriedade particular, forasteiro — o espadachim falou. — Pedimos que retorne por onde veio.

— Eu sei que é. Pertence ao lorde Juän Moha’ra — Mryv’ respondeu. Virou-se para o arqueiro. — Eu gostaria que, se possível, você abaixasse este arco, amigo. Não vê que estou com uma criança aqui comigo?

O arqueiro olhou para os companheiros e abaixou a arma. O espadachim perguntou:

— Quem é você?

— Meu nome é Lyuzäk, e desejo falar com lorde Moha’ra.

O outro respondeu:

— Lorde Moha’ra não recebe estranhos.

— Eu não sou um estranho.

— Pode provar isso?

— Não sem estar cara a cara com o lorde.

O pistoleiro cuspiu no chão e respondeu:

— Então temos um impasse.

— Podemos resolver isso fácil — Mryv’ falou. — Algum de vocês vai até o castelo e conversa com lorde Moha’ra. Tenho certeza que ele me receberá.

Os guardas se olharam. Depois o espadachim disse:

— Quem é a garota?

Mryv’ olhou para criança, que permaneceu o tempo todo quieta, sua mão segurando seu braço.

— Minha filha.

— O que quer falar com lorde?

— Negócios, jovem. E acredito que os negócios do lorde não lhe dizem respeito.

O homem ficou vermelho. O pistoleiro cochichou ao seu ouvido. O arqueiro continuava com o arco abaixado, mas Mryv’ sabia que estaria preparado para qualquer ação.

— Muito bem. Lavaremos vocês até a entrada do castelo, onde poderá conversar com o castelão — o espadachim disse. — Até lá, o lorde já deverá estar ciente de sua visita. Se fizer algo estúpido, não nos responsabilizamos pela sua segurança. Ou de sua filha.

— Muito justo, meu jovem. Agora vamos.

***

Após atravessarem um pátio, entraram no imponente castelo. O castelão conduziu-os por uma intricada rede de corredores que mais pareciam um labirinto. Ao contrário da noite quente de verão, o interior do castelo era frio e silencioso. Mryv’ pegou sua filha no colo após vislumbrar as escadarias e seguiu o velho homem. Subiram três lances de escadas, atravessaram uma antessala, caminharam por um longo corredor decorado com fina tapeçaria colorida. A menina estava admirada com as gravuras nos tapetes.

— Eu reconheço essas imagens — Mryv’ falou. — A guerra dos sete clãs, estou certo?

O castelão virou-se e ofereceu-lhe um sorriso.

— Impressionante, não é mesmo? Lorde Moha’ra mandou trazer de Lys, especialmente para as comemorações de sua quinquagésima primavera, há dois anos. Ali vemos um retrato da Queda de Ewón, depois a Batalha de Nüra. Mais adiante vemos Jyrah, o Justo, lamentando a morte de Amäné, sua amada.

— A famosa Batalha dos Campos Verdes.

— Você parece conhecer a história bem. Sim, é isso. Veja como o verde dos campos e o vermelho do sangue contrastam lindamente. O reino de Gouja foi reduzido a cinzas. Um reino tão próspero!

— Nenhum reinado é eterno. Tudo está fadado ao pó e à ruína.

O castelão lançou-lhe um olhar taciturno.

— Tão jovem e já perdeste a fé na humanidade? Não acha que valeria a pena crer em um futuro luminoso, pela sua filha?

A garota parecia não se interessar nem um pouco pela conversa. Estava distraída, contemplado as tapeçarias.

— Que ela decida como enxergar o mundo quando tiver maturidade para isso.

O castelão deu de ombros.

— Bem, a seguinte retrata a assinatura do Pacto de Myr. E a outra mostra a viagem de Jyrah pelos doze clãs. Vê as doze joias?

Ele fez que sim, acomodando a menina melhor em seus braços. Já estava ficando cansado.

— E a última seria a criação da Irmandade da Luz, certo?

— Na época se chamava Ordem dos Cavaleiros da Luz Sagrada. Como deve saber, foi fundada por Jyrah, o Justo, Hakön, o Bardo, e Kätelyn, a Maga, em honra à princesa Amäné de Myr.

Mryv’ meneou a cabeça. Seguiram o resto do caminho apreciando o silêncio.

Chegaram ao fim do corredor, e depararam-se com uma enorme porta de madeira nobre, vigiada por dois guardas armados com lanças. “Chegamos ao salão principal”, o castelão anunciou. Ele ordenou, em seguida, que os guardas abrissem a porta e entrou. Mryv’ pôs sua filha no chão e acompanhou o homem, puxando a menina pela mão. Ela olhava fascinada em todas as direções.

O salão na verdade era uma sala oval, coberta de puro luxo. As paredes eram pintadas com grandes afrescos que, Mryv’ notou, retratavam outras batalhas. No teto em abóboda, um gigantesco lustre oscilava calmamente. Percorrendo o salão de uma ponta a outra, havia uma larga mesa de madeira. O viajante contou quarenta e dois lugares. Na ponta mais afastava, Lorde Juän Moha’ra apreciava seu jantar. Ao seu lado, duas copeiras lhe serviam. Escorado próximo à outra porta, estava um homem que Mryv’ julgou ser um guarda-costas.

Moha’ra olhou na direção da entrada e, antes que o castelão dissesse algo, ergueu sua magra mão em um aceno convidativo. Os três se encaminharam a passos comedidos até ele. O lorde vestia uma suntuosa túnica branca e seu corpo estava adornado com várias joias, desde anéis e colares até brincos de pérola. Era tão alto que mesmo sentado era imponente. Seu rosto era magro e seus olhos, ágeis. Tudo nele inspirava elegância, desde os penteados e bem cuidados cabelos grisalhos até as unhas limpas e aparadas.

O castelão fez a apresentação:

— Lorde Moha’ra, este homem afirma…

O lorde cortou-o com um gesto brusco, porém amigável.

— Eu sei perfeitamente quem este homem é, meu caro Shimes — ele disse, exibindo um largo sorriso. — Lyuzäk, do Vale Cäbim, não é verdade?

Mryv’ assentiu. Moha’ra alargou seu sorriso.

— Ah, sabia. Graças aos deuses, minha memória ainda me é útil. — Ele indicou uma cadeira. — Por favor, faça as honras. Sirvam-se.

Mryv’ sentou-se e ajudou sua filha a acomodar-se na cadeira ao lado. Uma das copeiras pôs um prato de cerâmica e um jogo de talheres de prata à sua frente. A outra pegou uma taça, mas quando ela fez menção de pegar o vinho, Mryv’ fez uma mesura.

— Ah, não. Sem álcool, por favor. Obrigado. Não teria, por acaso, leite?

A empregada assentiu e saiu.

— Ah, os velhos hábitos! — Moha’ra suspirou. — São como árvores: suas raízes vão cada vez mais profundas, certo? — Voltou sua atenção para menina. — E você, coisinha pequena, tem um nome?

Ele lhe ofereceu seu melhor sorriso. Mas a garota parecia concentrar toda sua atenção em um bolo no meio da mesa. A copeira serviu a Mryv’ um avantajado pedaço de carne nobre, cujo aroma fez sua entranhas gritarem em júbilo.

— Filha, lorde Moha’ra fez-lhe uma pergunta.

Ela respondeu, ainda sem tirar os olhos do bolo.

— Ah, Arisha — o lorde repetiu. —É um belo nome.

A pequena apontou para o quitute.

— Eu quero aquele bolo.

— Tenha modos, filha — Mryv’ a censurou. — Bolo é sobremesa; pode comê-lo depois.

A garota fez cara feia, mas resignou-se. Mryv’ apreciou o sabor da suculenta carne. A outra copeira voltou, trazendo leite. Mryv’ agradeceu.

— Lorde, esta carne aqui… Divino, divino.

— Não é verdade? O mais nobre corte de gado nyscari, cozido com ervas élficas e temperos de Myr. Agora, meu caro Lyuzäk, você sempre me surpreende. Da última vez que o vi, você tinha uma filha a menos.

Mryv’ estava cortando a carne servida à Arisha em pedaços menores.

— E tu, milorde, tinha algumas tapeçarias a menos no castelo, que, aliás, é maior do que eu recordava.

— Acho que isso é o que chamam de progresso, meu jovem. — Virou-se para o castelão. — Shimes, como vão os preparativos para a apresentação de hoje à noite?

— Verei como andam, milorde.

Fez uma reverência e saiu. Mryv’ esperou que as copeiras e o guarda-costas também se ausentassem, mas não o fizeram, nem o lorde deu ordens para tal. Resolveu tocar em um assunto aleatório.

— Eu notei que tem um gosto peculiar para decoração, milorde. Não se sente mal jantando em meio a pinturas que retratam guerras?

— O jantar é um momento para contemplação. Eu gosto de refletir sobre a natureza humana retratada nesses afrescos.

— Eu preferiria contemplar a beleza das estrelas.

— É uma opinião justa. Oh, Lyuzäk, as sementes de telna que você trouxe das Terras do Fogo da última vez que me fez uma visita não germinaram.

— Sim, imaginei que o clima não fosse apropriado. Eu trouxe mais algumas sementes, de gëuba. Mas também acho que não germinarão aqui.

— Bem, não custa nada tentar, não é mesmo? — Moha’ra disse. Comeu um pedaço da carne. — Eu sempre maravilho-me com a natureza, Lyuzäk. Veja, em meus bosques, há árvores que chegam cinquenta metros. Mas a maior é uma mosha imperial. Uma vez a medimos. Cento e oito metros, do chão até a copa.

— É realmente impressionante, milorde — Mryv’ concordou. — Arisha, não faça isso com a comida, por favor. Seja educada.

— Desculpa, papa.

— É sim, meu caro Lyuzäk. E ainda assim, quando você vê a semente de uma mosha… — Moha’ra disse, pensativo. — Dá para botar três delas em cima da unha do meu polegar. E uma semente tão pequena se transforma numa árvore tão imponente.

— Mas leva anos para isso, milorde. Depende de vários fatores. Clima favorável, solo com os nutrientes corretos. A terra tem que ser muito boa, para que as raízes possam ir fundo. Por isso que penso que as sementes de gëuba não dão frutos aqui.

Moha’ra concordou. Chamou uma das copeiras, a mais jovem e disse:

— Querida, procure Vysëja e peça-a para preparar dois quartos para os nossos hóspedes, por favor. — E, voltando-se para Mryv’, perguntou — Onde conseguiu estas sementes?

Mryv’ terminou de engolir e respondeu:

— Consegui algumas nas terras de Lyás. Comprei direto com a fonte.

— Terras de Lyás? Vejo que suas andanças o levaram longe, meu amigo — o lorde disse, e lançou um olhar para a menina. — Como estão as terras do dragão?

— Quentes. Fervilhantes, na verdade.

— Oh, eu ouvir falar sobre isso. Outra revolta, hã? Contra a capital.

— A segunda em menos de um século. Eles chamaram de segunda revoada dos dragões. Mas, como a primeira, não levou a nada. Os revoltosos não tem força contra Vyzar.

— Dragões que não conseguem matar uma ninfa! Quase poético. Algo digno de um escrito de Deméon Shüny.

A copeira retornou. Arisha engasgou-se com um pedaço de carne.

— Oh, querida, coma devagar — Mryv’ falou. Deu palmadinhas nas costas da menina. Ela continuou tossindo. — Oh, deuses! Arisha, respira, amor, respira devagar. Tussa, com força.

A menina já estava ficando vermelha, e com lágrimas nos olhos. Mryv’ levantou-se, pegou-a pelos braços, abraçou-a pelo abdômen e pressionou a boca do estômago. A garota cuspiu o pedaço de carne.

— Arisha, quantas vezes eu já disse para comer devagar? — Mryv’ falou. — Olha o susto que você me deu!

A menina começou a chorar.

— Desculpa, papa. Não fique zangado comigo.

Mryv’ abraçou-a.

— Não, não estou zangado com você, amor. Só fiquei preocupado — ele disse, e beijou-a na testa. — Desculpe por isso, milorde.

— Oh, não há pelo que se desculpar, meu amigo. É a sua filha.

A qual provavelmente você deixaria morrer engasgada, e assistiria tomando vinho, não é mesmo?

Uma das copeiras apressou-se em limpar a mesa. Mryv’ sentou-se e passou o copo de leite para a menina.

— Aqui, beba isso, querida — ele disse. Arisha parou de chorar e bebeu. Ao lorde, Mryv’ falou — Falando em filhos, como anda o seu, milorde? Não o vejo aqui.

— Oh sim. Tokën está em Lys, agora. Entrou para a Academia. Está estudando Ciências Naturais.

— Bom para ele. Aposto que está muito orgulhoso, hã?

— Tokën tem a mente afiada. Puxou a mãe, que repousa nas estrelas, como os lysenos dizem.

— Posso comer o bolo agora? — sua filha interrompeu. — Eu quero bolo.

— Fique à vontade, pequena — Moha’ra respondeu. — Minha casa é sua casa.

A serviçal mais jovem adiantou-se e cortou um pedaço do quitute para Arisha. Moha’ra continuou a conversa anterior:

— Você chegou a conhecer minha esposa, não é mesmo Lyuzäk?

— Sim, milorde. Era uma bela e inteligente mulher. Uma pena ter partido tão cedo. Deve sentir-se solitário neste enorme castelo.

— Há sempre algo a se fazer, meu caro. Um bom livro, um bom vinho, animais para caçar. O segredo é manter a mente ocupada.

Arisha comeu com gosto, e deu a palavra final sobre o assunto:

— Obrigada, lorde Moha’ra. O bolo estava delicioso.

Ele fez uma mesura:

— Não há de quê, pequena. — Fez um sinal para a copeira. — Mande chamar Vysëja — Voltou sua atenção aos convidados. — Bem, está na hora dos negócios. Eu mandei preparar quartos para a sua estadia. Vysëja acompanhará a pequena Arisha aos seus aposentos.

A serviçal surgiu logo em seguida, quase como uma aparição. Todos se levantaram. Arisha aproximou-se de Mryv’ e agarrou sua mão.

— Não, eu quero ficar perto de meu papa.

Mryv’ agachou-se ao seu lado e pegou sua mão.

— Filha, não pode entrar. Eu e lorde Moha’ra temos assuntos sérios para discutir.

— Mas e se as serpentes voltarem? — ela disse, com voz chorosa.

— É apenas um sonho ruim, querida. As serpentes não irão te machucar. Eu prometo. — Ele beijou sua testa. — Agora vá com Vysëja. Eu estarei logo naquela sala.

A menina abraçou-o forte. Depois, a muito contragosto, foi com a tal Vysëja. Mryv’ seguiu Moha’ra até outra sala. O guarda-costas acompanhou-os, mas o lorde o barrou.

— Está bem, Brakud. Eu cuido disto.

Sem dizer uma palavra, o guarda deu meia volta e saiu. Moha’ra entrou e Mryv’ o seguiu.

***

O lorde fechou a porta e foi até a escrivaninha. A sala era escura, iluminada apenas por uma vela numa mesa. Mryv’ contemplou o bailar de sua chama por um instante. Via com clareza o calor que dela emanava.

— Sente-se — Moha’ra disse-lhe, enquanto enchia uma taça de vinho. — Eu te ofereceria, mas sei que não aceitaria mesmo.

— Como você mesmo disse, velhos hábitos.

O lorde virou-se e fitou Mryv’ com seus cansados olhos púrpuras. Degustou o vinho em silêncio por um tempo depois aproximou-se. Ao menos tirara seu sorriso cínico do rosto e mantinha uma expressão dura. Mas quando falou, as palavras saíram suaves e compassadas como sempre.

— Quem é a garota?

— Minha filha, já disse.

— Sua filha, hã? — Tomou mais uma dose do vinho. — Por acaso envolveu-se com uma humana em suas andanças.

— Arisha não é minha filha de sangue, sabe disso.

— Sei? Não tenho certeza. Talvez sejamos realmente compatíveis, nós e os humanos. Embora me parece ser uma ideia repugnante misturar nosso sangue com os deles.

— Você acha os humanos repugnantes?

— Bem, são claramente uma raça inferior. Então me pergunto porque alguém que é sangue do meu sangue perderia seu tempo criando uma humana.

Moha’ra lançou-lhe um olhar fulminante, embora seu tom de voz permanecesse o mesmo: calmo e frio.

— Ela é órfã.

— Isso é uma desculpa? Diga-me, Mryv’…

— Não use nossos nomes verdadeiros…

— Não ouse me interromper! — ele sibilou. Pigarreou. — Desculpe, acho é o vinho. Me deixa irritadiço. Diga-me, Lyuzäk, e os pais de garota?

Mryv’ abaixou o olhar.

— Eu os matei — murmurou.

— Desculpe, eu não ouvi.

— Eu os matei! — disse, mais alto. — É isso que queria saber, não era?

—Relaxe, não precisa se exaltar — Moha’ra falou. Começou a caminhar em direção à mesa. — Eu só quero que me ajude a entender a situação. Então, você matou os pais da garota e tomou-a como filha? Me desculpe, mas não vejo uma lógica aqui.

— Eles se opuseram a mim. Foi necessário.

— Então, eles eram dispensáveis? E a garota não?

— Quê?

— Você matou os pais da garota, mas poupou a vida desta. Por quê? Seria a vida dela mais valiosa que a dos pais?

— Ela era um bebê de colo!

— E como isso responde minha pergunta? — Fez uma pausa, encarando Mryv’. Seu desprezo saltava aos olhos e permeava o ar como um odor podre. — Eu digo como, jovem. Você está ficando sentimental! Está nutrindo simpatia por esses humanos, é isso que está acontecendo! Primeiro foi, como você chama mesmo, ah, a Trupe Celestial. Agora tem essa garota que você teima em chamar de ‘filha’.

A taça de vinho quebrou-se, espalhando a bebida pelo carpete. Moha’ra não dispendeu muita atenção nisso. Contornou a escrivaninha e sentou, pousando o que restou da taça sobre a mesa e continuou.

— Que se passa contigo, Mryv’? Estou começando a duvidar de sua lealdade.

O visitante precipitou-se sobre a mesa, mas conteve-se.

— Você me ofende com isto, Moha’ra. Minha lealdade sempre esteve com o Mestre. E sempre estará.

— Então prove.

Mryv’ retirou um anel do bolso e empurrou-o pela mesa. O lorde tomou a joia nas mãos e contemplou-a por um momento. Era banhada a ouro e tinha uma pedra escrutada, um cristal vermelho rubro.

— É o que eu penso que é?

— Sim. É a Relíquia do Dragão.

— Magnifico! Onde a encontrou?

Mryv’ sentou-se defronte ao velho e explicou a história.

— No deserto Lyás. Vaguei por aquelas terras áridas, seguindo uma pista. Após algumas buscas, descobri a Relíquia do Dragão em uma das tribos do deserto. Os locais a adoravam como se fosse um objeto sagrado. Diziam uma estrela caiu dos céus, e no local da queda estava o artefato. Eles achavam que era um presente dos deuses draconianos. Sabe como é, quando os humanos não entendem algo, inventam as religiões para explicarem.

— Quem os pode culpar por isso, não é mesmo? — disse o lorde, ainda admirando o anel. — Isso explica sua aparição depois de tantos anos. Mas não explica a garota.

— Os pais de Arisha eram os guardiões do templo onde estava a Relíquia. Tive que matá-los.

— E depois tomou a garota como própria filha. Porque não a ignorou?

A imagem de uma mansão em chamas veio à mente de Myrv’. Você nunca entenderia isso mesmo, Moha’ra, ele pensou.

— Ela é jovem. Posso treiná-la nas artes de combate e nas artes mágicas. A Trupe tem nos sido útil, mas eles podem não ser totalmente confiáveis. Arisha pensa que sou seu pai, jamais questionaria meus atos. Eu tenho a sua lealdade.

— E a tua lealdade é minha, certo?

— É do Mestre.

Moha’ra voltou a sorrir. Era aquele sorriso falso que Mryv’ gostaria de desfazer a tapas.

— É a mesma coisa.

Não, não é mesmo, seu sádico miserável.

Mryv’ viu então um semblante de incomodo no rosto do lorde. Este atirou-lhe o anel de volta, dizendo:

— Fique com ele. Se conseguiu pegar a Relíquia, quer dizer que ela o aceitou. Ao que parece, não sou digno de usá-la. O anel ficou tão quente que não pude mais segurá-lo. Mas com essa já temos três Relíquias.

—Três? Acharam mais outra.

— Sim. Tua irmã encontrou a Relíquia do Caos há alguns anos, em uma praia ao sul de Krujã, bem a leste de Nova Nyskar. Na verdade, pescadores a encontraram, junto ao, bem, como posso descrever? Um cemitério de sereias.

— Sereias? Nestes mares?

— É uma longa história, para outra noite. Aliás, Sónë’a deve chegar a qualquer momento.

Sim, mais uma louca para eu ter que tolerar.

— Isso é ótimo — Mryv’ disse. — Reunião de família.

Moha’ra fitou-o por um tempo, talvez apreciando a cinismo das palavras de seu visitante.

— E quanto às joias de Jyrah? — o lorde perguntou. — Sua irmã encontrou a joia da Torre.

Mryv’ remexeu-se na cadeira.

— Eu encontrei a joia da Espada.

Novamente, a imagem de uma mansão em chamas veio à sua mente.

— Isso é ótimo! — Moha’ra disse. — Como a encontrou?

— Estava em posse da filha de um aristocrata de Myr. Eu roubei dela.

E incendiei a mansão, matando um bebê inocente com isso. Carregarei esta culpa até meu último suspiro.

— Onde ela está? — Moha’ra perguntou.

— Guardada, em lugar seguro.

— Muito bom. Então, contando ainda com o brasão do Grifo, temos três joias. Bem, agora que você tem uma, será mais fácil encontrar as outras.

Mryv’ franziu o cenho. Perguntou o motivo. O lorde explicou.

— Quando Sónë’a me trouxe a joia da Torre, notamos algo maravilhoso.

— E o que seria?

— As joias reagem, quando estão próximas uma da outra. Já que tem uma delas, perceberá quando houver outra por perto. Agora, infelizmente ainda não descobrimos para que elas servem. Tem alguma ideia?

Mryv’ deu de ombros.

— Eu sou apenas o sujeito que as procura, milorde.

Houve uma batida na porta. Lorde mandou entrar, e o castelão informou-lhe que já estava tudo pronto para a apresentação. Moha’ra agradeceu, dispensou-o, e voltou-se ao convidado.

— Acho que deveria ver isto. É um espetáculo — disse, já se levantando. — Um bardo viajante muito talentoso está aí, para tocar sua harpa. E amanhã, teremos luta livre.

— Você disse que as joias reagem uma as outras. Como assim?

— Existe muita coisa que ainda não sabemos sobre elas. Para que servem, por exemplo. Mas eu te mostrarei isso amanhã. Temos ainda muito que conversar. Tenho novas instruções do Mestre para você. Já adianto que é uma tarefa grandiosa, mas tenho confiança em seu tato.

— O que seria exatamente?

— Os detalhes discutiremos amanhã, quando formos caçar. Pelo que me recordo, aprecia uma boa caçada, não é mesmo? As florestas daqui são muito ricas. — Mryv’ lançou-lhe um olhar impaciente. — Ah, estes jovens. Tudo bem, já adianto que se trata de guerra.

— Guerra? O Mestre pretende trazer os exércitos?

— Não fui claro o bastante, meu amigo. Não começaremos guerras entre nós e os humanos. Incitaremos guerras entre seus reinos.

As crônicas de Erys – prólogo

Olá, pessoal! Hoje trago uma novidade. Para quem não sabe, eu estou escrevendo um livro. É uma fantasia épica meio medieval. (Meio, porque o mundo não é bem medieval; tá mais para era pré-industrial, mas enfim…). Já faz algum tempo (dois anos?) que estou trabalhando nessa história. Já teve várias versões, passou por várias revisões e pelo olhar crítico de leitores beta e uma leitora crítica. Após muitas considerações, resolvi mudar toda a estrutura da história, e agora estou revisando os capítulos, excluindo alguns e adicionando outros.

Queria dizer que hoje terminei de reescrever (ainda falta revisar) a primeira (de cinco) partes da história. Para comemorar, resolvi disponibilizar o prólogo para degustação. Também queria dizer que eu sei que tem uma galera que não aprova essa parada de prólogo, mas eu acho que cada caso é um caso. Meu estilo de escrita é lento, a história demora para emplacar, eu gosto de ficar apresentando personagens, explorando worldbuilding, plantando as sementes dos mistérios, etc. Além de que, neste caso específico, a história é não-linear (eu gosto de dizer que se o livro fosse um filme, seria dirigido pelo Tarantino). Então como a história é lenta, pode ser que tenha leitor que queira desistir logo. Assim, o prólogo, que é curto, e vai direto ao ponto, é importante. Ele planta a curiosidade na mente dos leitores e prepara uma arma de Chekhov que será disparada mais adiante na história (desculpem o trocadilho ruim, não resisti). Eu acho importante o autor despertar a curiosidade do leitor, porque é isso que o fará continuar lendo sua história.

Então basicamente é isso. Você pode ler o prólogo logo a seguir. Leia também:

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Dicas, sugestões, críticas, opiniões são sempre bem vindas 😀


Prólogo

Cidade de Nova Aymon, Estados Unificados de Käli

13/13/2.358 EL

Viemos da luz das estrelas, e para elas retornaremos.

Jhören encarava o corpo do menino morto jazia sobre mesa de pedra. Já estava com as nádegas doloridas de tanto ficar sentado. Resolveu levantar-se. Recostou-se contra a parede fria e ficou a observar a dança monótona das sombras projetadas pelas chamas das velas na parede oposta. Não havia janelas no recinto. O ambiente era insalubre, mórbido. Um profundo silêncio imperava no local. A tensão e a impaciência dos que ali se faziam presentes era quase palpável. Jhören tentava não encarar o garoto, pois a visão lhe trazia memórias que gostaria de esquecer. As memórias vinham, mesmo assim.

Klaus Reolyn cochilava na cadeira, ao seu lado. Ou, talvez, fingia cochilar. Kir Jelhuká Tamëy lia um livro, do outro lado da sala, aproveitando a luz das velas. Era A última badalada dos sinos de Hali, de Deméon Shüny. Kir Dunza Davö estava sentado, encarando as paredes. Não parava de mexer os pés.

— É uma coisa trágica, a morte — ele disse. — Eu me lembro da primeira vez que a encarei de perto.

Kir Jelhuká olhou de relance por cima do livro. Klaus abriu os olhos e encarou Dunza. Jhören perguntou:

— E como foi isso, kir?

— Foi nas praias de Älju. Eu vi uma garotinha se afogar no mar — ele respondeu. — Pessoas correram, entraram no mar. Eu inclusive. Foi em vão. Era apenas uma garotinha, contra toda a força e imponência do mar. Foi levada pela maré.

— Realmente trágico — kir Jelhuká falou, e voltou a ler seu livro.

— Isso não é o mais trágico, kir. Eu soube depois a história daquela garotinha. Ela nunca havia visto o mar antes — Dunza continuou. — Quando a família mudou-se para Älju, a menina ficou encantada com a grandiosidade do oceano. Tudo dia, no final da tarde, a menina pedia para a mãe levá-la à praia, para contemplar o mar. Sua mãe disse-me que isso tornou-se sua obsessão. Um dia, a senhora se distraiu por um instante e o mar levou sua filha.

Kir Jelhuká abaixou o livro e disse:

— Uma tola, isso sim.

Ela voltou a ler. Dunza aquietou-se e recolheu-se na penumbra.

Jhören ouviu passos apressados subindo as escadas, que logo pararam à porta. Uma voz fez-se ouvir, perguntando pelo corpo. Ele pode escutar com clareza a resposta de Andälle Shwavz, que fazia vigia lá fora, dizendo que todos esperavam dentro da sala.

A porta abriu-se. Três cavaleiros entraram. Jhören reconheceu kir Lourath Evelyn e sua pupila Lynöre Flynn. Lourath era um homem alto, de andar desengonçado e fala rápida. Usava grandes óculos de lentes élficas, e, às vezes, seu bagunçado cabelo loiro caia por cima de seu rosto, encobrindo sua visão. Em seu pescoço, ele usava uma joia de Jyrah-A’lëvyn em forma de lua. Vestia roupas leves, e em seu cinto estava amarrado uma fita vermelha.

Já Lynöre era baixa e andava sempre com a expressão fechada, como se sentisse uma eterna dor de barriga. O que mais se destacava nela eram seus cabelos, de um belo tom prateado. Era tocada pela lua, como o povo de Lys costumava dizer. A moça usava um vestido solto e uma fita amarela na cintura. Quando seus olhares se cruzaram, ela desviou, e seu rosto tomou uma expressão ainda mais séria.

Como ela lembra a irmã, Jhören pensou. Tentou afastar o pensamento, mas foi em vão.

O terceiro guardião era um sujeito magro, de olhar severo. Sua pele era negra e seu cabelo, crespo. Usava uma faixa preta na cintura, donde Jhören concluiu que era o grão-mestre da Fortaleza da Torre. O homem entrou apressado e atirou uns pergaminhos na mesinha de canto.

— Quem é o vhan aqui? — ele perguntou. Jelhuká levantou-se. — Explique o que aconteceu.

— O rapaz matou treze pessoas numa praça, hoje cedo — ela respondeu. — Depois caiu morto.

— Isso eu já sei. Quero os detalhes. Ele é um nyflyn? Não haviam outras crianças com ele?

A guardiã ainda mantinha o semblante sério, inabalável.

— Sim, eram sete crianças no total — ela continuou. — É difícil dizer se são usuários de ny. Embora ele aparentemente tenha usado mágica, é muito jovem para fazer o que fez por conta própria. As outras perderam a memória, pelo menos temporariamente. Não lembram de nada, depois que entraram na Torre. Duas delas aparentam sofrer de grave distúrbio mental e uma perdeu a visão.

— Entendo. Bem, era esperado, não é mesmo? Foram vistas pela última vez entrando na Torre de Aymon! — o grão-mestre falou. — Onde está o garoto que deu o testemunho? Aquele que desistiu de entrar na Torre.

— Eu o dispensei. Já falou tudo que tinha para falar. Estava muito abalado. Tudo que precisa saber, kir, está no relatório — ela apontou para os pergaminhos.

— Mas este foi o único a falecer, não é mesmo? — ele insistiu, apontando para o corpo na grande mesa de pedra. — Diga-me, houve ou não uso de magia?

— É claro que houve — kir Lourath interrompeu. Começou a percorrer a sala. — Não consegue senti-la neste exato momento? Toda esta sala está envolta em um estranho thy. Mas, por favor, kir Jelhuká, continue seu relato.

— Bem, já que mencionou isso, realmente todos nós sentimos um poderoso thy emanando do garoto.

Só de ouvir isso, Jhören sentiu um arrepio na espinha. Suas mãos ficaram frias. Ele moveu o peso do corpo para a outra perna. Tentou apagar da memória a lembrança da terrível sensação que tomara conta de seu espírito naquela manhã. A sala parecia cada vez mais fria.

— Este é o momento que todos esperávamos ouvir, não? — Lourath falou, se aproximando do defunto. — Descreva esse thy.

— Demoníaco. Esta é a palavra. Foi a pior sensação que já senti em minha vida — Jelhuká disse. — Muitas pessoas que estavam na praça desmaiaram na mesma hora.

— Acha que isso é capaz de matar uma pessoa? — Lourath perguntou.

— Não acho isso, mas é um thy que incute um medo irracional em nossas mentes.

— O que matou os moradores então? — o grão-mestre quis saber.

— Já disse. Foi o garoto. Ele parecia um animal selvagem, estava descontrolado — Jelhuká relatou. — Armado com uma faca, ele foi capaz de atacar treze pessoas antes que pudéssemos fazer alguma coisa. As pessoas desmaiavam antes que pudessem fugir. Eram como presa fácil. Foi um pânico generalizado.

“Entendo, entendo”, Lourath disse, batendo na mesa de pedra com o nó do dedo. O grão-mestre virou-se para ele.

— Sabe o que se passa aqui, kir?

— Não teriam me chamado aqui se eu já não tivesse uma ideia, Tynald.

Lourath lançou um olhar para Jelhuká. Ela virou-se para os outros e falou:

— Saiam. Todos vocês. Você também Dunza. Seu trabalho aqui já acabou. E nem pensem em tentar ouvir pela porta. Andälle, Klaus e Jhören, voltem para a estalagem e espere por mim lá.

Jhören encarou os amigos. Klaus fez que ia argumentar, mas Andälle fez sinal com a cabeça pedindo que não. Os três dirigiram-se em direção à porta e Jhören cruzou olhares com Lynöre.

Muito bem, Jhören, como iniciar um diálogo civilizado com Lynöre sem que os dois acabem discutindo novamente?

Ouviu a voz de Lourath.

— Lynöre, você fica. Você também, Jhören. O resto de vocês, podem ir.

Jhören encarou Andälle, e com um meio sorriso ela se despediu. Dunza já saíra antes disso. O último a deixar o recinto foi Klaus, que fechou a porta com suavidade. Jhören olhou para kir Jelhuká e, após um momento de reflexão, ela assentiu com a cabeça. Ele posicionou-se ao lado de Lynöre, que lhe lançou um olhar severo, antes de se afastar um passo para o lado. Lourath ajeitou os óculos e tomou a palavra:

— Não é preciso dizer que o que será dito e visto aqui deve permanecer em segredo. É sigiloso nível 4, pelo menos. Confiarei que as palavras aqui ditas não sairão desta sala.

Ele percorreu a sala com o olhar. Quando fixou os olhos em Jelhuká, esta falou:

— É uma Relíquia da Eternidade, não é?

— Não tenho dúvidas — o guardião disse, dando a volta ao redor da mesa onde estava o defunto.

— Nós o revistamos, mas não encontramos nada.

— Ei! Gostariam de me explicar o que está acontecendo? — Tynald protestou. — O que é essa tal de relíquia da eternidade?

— Melhor que explicar, eu te mostrarei — Lourath falou. — Mas antes, precisamos saber com qual tipo de Relíquia estamos lidando. Livro das Magias, apareça.

O guardião esticou o braço. Um ny surgiu do nada e logo em seguida um livro se materializou, flutuando acima de sua mão.

— Pelo olho de Feiten! — Jhören disse. Lynöre e Tynald também proferiam palavras de espanto. — O que é isso?

— Isso é uma das Relíquias da Eternidade, meu jovem. É o Livro das Magias. — Lourath respondeu. — E eu posso usá-la para descobrir qual relíquia está em posse deste menino aqui. Vejamos.

O tal livro abriu-se. Jhören sentiu de novo um ny. Lourath pareceu ler o que estava escrito e falou:

— Hum… Fúria Milenar… Isso é interessante. Senhoras e senhores, estamos lidando com a Relíquia do Demônio.

— E o que esta relíquia faz? — Jelhuká perguntou. — É perigosa?

— Quase inofensiva sozinha contra um nyflyn. Segundo o Livro, ela precisa de um hospedeiro com forte afinidade empática — ele disse. Olhou para o defunto. — Não parece ser o caso. O menino nem devia saber utilizar magia. Morreu porque não suportou o ny da Relíquia.

— E onde está essa tal relíquia? — Tynald perguntou. — Não a vejo aqui.

— Se o Livro estiver correto, o cristal está dentro da cabeça do garoto — Lourath falou. — Precisamos tirá-la daí. Vejamos.

Lourath fechou o livro e este desapareceu, tão de repente como surgira.

Pelas barbas de Nuban, mas o que é isso? Lourath não estava brincando quando falou que isso envolvia assuntos sigilosos nível 4.

O guardião debruçou-se sobre o corpo e pôs a mão em sua testa. Fechou os olhos e pareceu se concentrar bastante. “Sim, sim, estou sentido…” ele murmurava. Elevou seu poder.

Pelo olho de Feiten! Mas que ny é esse?

Quase como uma reação natural, Jhören sentiu uma perturbação no thy, emanando do garoto morto. Sentiu um arrepio e a semente do medo foi plantada em seu espírito. A flutuação vinha em ondas, cada vez mais fortes. Lourath mantinha o semblante sério, mas os outros presentes pareciam abalados com aquela estranha manifestação de thy. A sensação de um medo primordial tomou conta do recinto. Lynöre soltou um grito abafado enquanto jogava seu corpo contra a parede. Jhören segurou sua mão, mas a jovem pareceu se assustar ainda mais com seu gesto que com poderoso thy que permeava a sala.

— Estou bem — ela disse, seca, puxando sua mão.

Lourath continuava se concentrando. “Vamos lá, vamos lá!” ele murmurava. Aos poucos, a presença ameaçadora foi desvanecendo. “Isso, isso!”, agora dizia o guardião. O grão-mestre tentava ver mais de perto o que acontecia. Todos foram tomados por uma súbita curiosidade, quando sentiram um ny emanando do garoto.

— Não é possível, ele está morto — Lynöre sussurrou. — Como pode emanar ny?

Neste momento ela olhou para Jhören, talvez procurando uma resposta, mas isso ele não poderia lhe dar. O corpo do rapaz começou a levitar. Lourath continuava com um mão sobre sua testa. O guardião elevou sua mão. Jhören vislumbrou um ponto luminoso na testa do garoto. Era como luz de uma estrela, cintilante e azulada. O homem afastava cada vez mais sua mão. “Está vindo” ele dizia. No instante seguinte Lynöre murmurou espantada, quando um pequeno cristal emergiu de dentro da cabeça do defunto. Era pequeno, do tamanho de uma joia de anel ou uma semente. Emitia uma pulsante luz azul que, Jhören percebeu, estava em sintonia com as ondas de ny que chegavam a ele. Lynöre expressou tudo que ele gostaria de dizer naquele momento:

— Eu não entendo. Este cristal está emitindo ny?

Seu mestre admirava a joia, que flutuava a poucos centímetros de sua mão. Seu brilho estava diminuindo.

— Sim, querida, o ny vem desta joia.

— Isso é um totem de intensificação? — o grão-mestre perguntou.

— Mais importante, — Jhören falou — o que isso estava fazendo dentro… da cabeça dele?

O homem esboçou um sorriso. O brilho do cristal agora estava quase morto, e já quase não havia sinal do ny.

— Muitas perguntas, muitas perguntas — o guardião murmurou. — Isto é mais que um simples totem de intensificação de magia, meus caros. Não é um artefato mágico qualquer. — Ele ergueu a mão, o cristal ainda flutuando. — Isso é o ápice da magia ysdiniana. Uma pequena amostra de um imenso conhecimento milenar. Senhoras e senhores, contemplem! Contemplem uma das Relíquias da Eternidade!

 

Mito de criação de Erys

Olá, pessoal! Hoje estou aqui para falar um pouco mais do meu livro. Mais precisamente, do mito de criação de Erys. Há vários mitos que contam como surgiu o mundo no qual se passa a história, cada povo ou cultura tem a sua. Essa é apenas uma das versões, a versão da religião lysiniana, a maior religião politeísta de Erys. Ela é fortemente baseada na ideia de ordem e caos e equilíbrio do universo. Espero que gostem! Continuar lendo