Sobre a Arte da Escrita | Diálogos: como eles podem enriquecer seu texto

Resolvi criar uma coluna sobre dicas de escrita aqui no blog. Não que isso vá se tornar algo rotineiro (afinal, o que é rotineiro aqui neste blog semi-abandonado pelo blogueiro?). Talvez essa coluna nem passe desta postagem. Só sei que toda vez que eu tiver algo que julgar relevante para falar sobre o assunto, talvez eu fale (o fator preguiça também entra nessa equação).

Talvez você esteja perguntando com que propriedade eu falo sobre esse assunto. Em outras palavras: quem sou eu na fila do pão literário? Quase ninguém, para falar a verdade. Minhas credenciais nesse tópico resumem-se a minha experiência como leitor\aspirante a cinéfilo, alguma experiência com escrita (que não passa de uns poucos contos e um romance ainda não publicado) e uma dose de bom senso. Mas aprendi uma coisa ou outra sobre escrita enquanto estudava para finalizar meu romance. Espero que baste. Feito este disclaimer, podemos prosseguir.

Meu objetivo é tentar te convencer de como diálogos pode ser um recurso literário muito útil e, se usados de maneira inteligente, como tornam o texto mais rico. Eu, como escritor, gosto muito de utilizá-los. Meu texto é praticamente só isso. Bem, é coisa de estilo. Diálogos são a alma do texto. Se eu conseguir te convencer disso no final desta postagem, terei cumprido minha missão.

Vamos pensar assim: qual o objetivo de um livro? Contar uma história. Sim, mas não somente isso. A trama não é tudo em um romance. Um bom livro tem personagens cativantes, que devem ser construídos de maneira inteligente. Um bom livro não subestima seu leitor, dando todas as informações de mão beijada: ele tem subtexto, mensagens nas entrelinhas, temas sendo explorados. Alguns diriam que um bom livro faz mais uso de ‘show’ em vez de ‘tell’ ou não enche o saco do leitor com infodumps. Tomemos isso como premissa, para não ofender os mais sensíveis. Enfim, um bom livro tem tudo isso. E existem várias formas de se trabalhar esses elementos. Não tecerei comentários sobre todas essas maneiras. Veremos como fazer tudo isso utilizando um bom diálogo. Continuar lendo

Anúncios

As crônicas de Erys – capítulo 5

Olá pessoal! Ontem finalmente terminei de reescrever meu livro. Ele está bem diferente da versão que escrevi em 2015. Espero que as mudanças tenham melhorado o texto. Agora vou dar um pouco de tempo, depois vou revisar o texto. Mas como prometido, aqui vai o último capítulo de amostra do meu livro. Espero que apreciem. Até a próxima.

 


 

Capítulo 5 – O cartomante

 

O Feiticeiro entrou no prostíbulo e dirigiu-se ao balcão a passos comedidos. Não reconheceu o taberneiro.

— Não vejo Jöeba — disse, sentando-se. — Então é seguro supor que você é Rantö?

O taberneiro olhou de canto de olho, enquanto enxugava um copo.

— Não estou mais de cama, então Jöeba terminou seus serviços por aqui. E você é?

— Mueljen.

— Foi o que eu pensei. Jöeba falou sobre você. E seus amigos.

— Por falar nisso, onde ele está?

— Jöeba? Eu não sei. Acho que saiu da cidade. Só estava aqui de passagem mesmo. Algo para beber?

O Feiticeiro fez que não. Olhou em volta, mas ninguém parecia reparar nele. Estavam muito ocupados alimentados seus libidos. Deslizou uma moeda de ouro pelo balcão.

— Pelo seu silêncio.

Rantö pegou o vintém e indicou com a cabeça a porta que dava aos fundos do prédio.

— Você sabe o caminho. Um dos seus comparsas já está lá. — Mueljen levantou-se, mas quando deu dois passos, o taberneiro chamou-o. — Ei, amigo. O rapaz está chateado. A ruiva fugiu com Jöeba. A bebida é por conta da casa.

Ele agradeceu por isso e foi até os fundos. Desceu as escadarias empoeiradas. Chegando ao porão, encontrou o Paladino com um copo de aguardente na mão e lágrimas no rosto. Continuar lendo

As crônicas de Erys – capítulo 4

Terminei de escrever a quarta parte do meu livro. Como prometido, estou liberando o capítulo 4 da história. É o penúltimo capítulo que liberarei como amostra. Espero que gostem. Críticas, comentários e sugestões são bem vindos.

Leia os também os outros capítulos liberados:

Prólogo | Capítulo 1 | Capítulo 2 | Capítulo 3


Capítulo 4 – Lágrimas de Asun

Arisha não conteve sua curiosidade. Disse ao conselheiro Klëmayn:

— É um pouco estranha essa comitiva do conselheiro Äiden, não acha?

O velho olhou em direção à comitiva a sua frente e falou:

— De fato, é a mais diversificada. Mas não é de se admirar. A excentricidade do conselheiro Äiden é conhecida em toda a cidade. — Eles chegaram à charrete, onde já se encontravam a conselheira Nörah e seu filho. — Primeiro as damas.

A lyasse entrou e fez um leve aceno aos dois que já estavam lá. Klëmayn acomodou-se ao seu lado.

— Ouvi que estavam falando de alguém excêntrico — a conselheira falou. — Acho que não é difícil adivinhar de quem se tratava. As opções são poucas.

Arisha não soube o que dizer, mas Klëmayn deu um risinho e falou:

— A fama de Äiden o precede. Tem algumas ideias revolucionárias, mas é um homem de bom coração.

— Bastante revolucionárias, eu diria — Nörah comentou. — Onde já se viu convidar um camponês para o baile de honra.

— Quem são eles, afinal? — Klëmayn perguntou.

— O sujeito é um caçador. — a conselheira informou. — É o representante de uma das vilas da floresta. Veio para o Festival entregar as oferendas e trouxe a filha junto.

Arisha recordou o rosto do camponês, então comentou:

— Não acha que ele é muito jovem para ter uma filha daquela idade? Quantos anos ele tinha quando ela nasceu? Quatorze? Quinze?

— Ou menos — Nörah disse. — Quem se importa? Esses colonos não sabem quando parar quando conhecem os prazeres da carne.

Arisha continuava curiosa.

— A menina tem traços do clã da Lua. Mais que isso, viram os cabelos dela? A garota é tocada pela lua. Continuar lendo

As crônicas de Erys – prólogo

Olá, pessoal! Hoje trago uma novidade. Para quem não sabe, eu estou escrevendo um livro. É uma fantasia épica meio medieval. (Meio, porque o mundo não é bem medieval; tá mais para era pré-industrial, mas enfim…). Já faz algum tempo (dois anos?) que estou trabalhando nessa história. Já teve várias versões, passou por várias revisões e pelo olhar crítico de leitores beta e uma leitora crítica. Após muitas considerações, resolvi mudar toda a estrutura da história, e agora estou revisando os capítulos, excluindo alguns e adicionando outros.

Queria dizer que hoje terminei de reescrever (ainda falta revisar) a primeira (de cinco) partes da história. Para comemorar, resolvi disponibilizar o prólogo para degustação. Também queria dizer que eu sei que tem uma galera que não aprova essa parada de prólogo, mas eu acho que cada caso é um caso. Meu estilo de escrita é lento, a história demora para emplacar, eu gosto de ficar apresentando personagens, explorando worldbuilding, plantando as sementes dos mistérios, etc. Além de que, neste caso específico, a história é não-linear (eu gosto de dizer que se o livro fosse um filme, seria dirigido pelo Tarantino). Então como a história é lenta, pode ser que tenha leitor que queira desistir logo. Assim, o prólogo, que é curto, e vai direto ao ponto, é importante. Ele planta a curiosidade na mente dos leitores e prepara uma arma de Chekhov que será disparada mais adiante na história (desculpem o trocadilho ruim, não resisti). Eu acho importante o autor despertar a curiosidade do leitor, porque é isso que o fará continuar lendo sua história.

Então basicamente é isso. Você pode ler o prólogo logo a seguir. Leia também:

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Dicas, sugestões, críticas, opiniões são sempre bem vindas 😀


Prólogo

Cidade de Nova Aymon, Estados Unificados de Käli

13/13/2.358 EL

Viemos da luz das estrelas, e para elas retornaremos.

Jhören encarava o corpo do menino morto jazia sobre mesa de pedra. Já estava com as nádegas doloridas de tanto ficar sentado. Resolveu levantar-se. Recostou-se contra a parede fria e ficou a observar a dança monótona das sombras projetadas pelas chamas das velas na parede oposta. Não havia janelas no recinto. O ambiente era insalubre, mórbido. Um profundo silêncio imperava no local. A tensão e a impaciência dos que ali se faziam presentes era quase palpável. Jhören tentava não encarar o garoto, pois a visão lhe trazia memórias que gostaria de esquecer. As memórias vinham, mesmo assim.

Klaus Reolyn cochilava na cadeira, ao seu lado. Ou, talvez, fingia cochilar. Kir Jelhuká Tamëy lia um livro, do outro lado da sala, aproveitando a luz das velas. Era A última badalada dos sinos de Hali, de Deméon Shüny. Kir Dunza Davö estava sentado, encarando as paredes. Não parava de mexer os pés.

— É uma coisa trágica, a morte — ele disse. — Eu me lembro da primeira vez que a encarei de perto.

Kir Jelhuká olhou de relance por cima do livro. Klaus abriu os olhos e encarou Dunza. Jhören perguntou:

— E como foi isso, kir?

— Foi nas praias de Älju. Eu vi uma garotinha se afogar no mar — ele respondeu. — Pessoas correram, entraram no mar. Eu inclusive. Foi em vão. Era apenas uma garotinha, contra toda a força e imponência do mar. Foi levada pela maré.

— Realmente trágico — kir Jelhuká falou, e voltou a ler seu livro.

— Isso não é o mais trágico, kir. Eu soube depois a história daquela garotinha. Ela nunca havia visto o mar antes — Dunza continuou. — Quando a família mudou-se para Älju, a menina ficou encantada com a grandiosidade do oceano. Tudo dia, no final da tarde, a menina pedia para a mãe levá-la à praia, para contemplar o mar. Sua mãe disse-me que isso tornou-se sua obsessão. Um dia, a senhora se distraiu por um instante e o mar levou sua filha.

Kir Jelhuká abaixou o livro e disse:

— Uma tola, isso sim.

Ela voltou a ler. Dunza aquietou-se e recolheu-se na penumbra.

Jhören ouviu passos apressados subindo as escadas, que logo pararam à porta. Uma voz fez-se ouvir, perguntando pelo corpo. Ele pode escutar com clareza a resposta de Andälle Shwavz, que fazia vigia lá fora, dizendo que todos esperavam dentro da sala.

A porta abriu-se. Três cavaleiros entraram. Jhören reconheceu kir Lourath Evelyn e sua pupila Lynöre Flynn. Lourath era um homem alto, de andar desengonçado e fala rápida. Usava grandes óculos de lentes élficas, e, às vezes, seu bagunçado cabelo loiro caia por cima de seu rosto, encobrindo sua visão. Em seu pescoço, ele usava uma joia de Jyrah-A’lëvyn em forma de lua. Vestia roupas leves, e em seu cinto estava amarrado uma fita vermelha.

Já Lynöre era baixa e andava sempre com a expressão fechada, como se sentisse uma eterna dor de barriga. O que mais se destacava nela eram seus cabelos, de um belo tom prateado. Era tocada pela lua, como o povo de Lys costumava dizer. A moça usava um vestido solto e uma fita amarela na cintura. Quando seus olhares se cruzaram, ela desviou, e seu rosto tomou uma expressão ainda mais séria.

Como ela lembra a irmã, Jhören pensou. Tentou afastar o pensamento, mas foi em vão.

O terceiro guardião era um sujeito magro, de olhar severo. Sua pele era negra e seu cabelo, crespo. Usava uma faixa preta na cintura, donde Jhören concluiu que era o grão-mestre da Fortaleza da Torre. O homem entrou apressado e atirou uns pergaminhos na mesinha de canto.

— Quem é o vhan aqui? — ele perguntou. Jelhuká levantou-se. — Explique o que aconteceu.

— O rapaz matou treze pessoas numa praça, hoje cedo — ela respondeu. — Depois caiu morto.

— Isso eu já sei. Quero os detalhes. Ele é um nyflyn? Não haviam outras crianças com ele?

A guardiã ainda mantinha o semblante sério, inabalável.

— Sim, eram sete crianças no total — ela continuou. — É difícil dizer se são usuários de ny. Embora ele aparentemente tenha usado mágica, é muito jovem para fazer o que fez por conta própria. As outras perderam a memória, pelo menos temporariamente. Não lembram de nada, depois que entraram na Torre. Duas delas aparentam sofrer de grave distúrbio mental e uma perdeu a visão.

— Entendo. Bem, era esperado, não é mesmo? Foram vistas pela última vez entrando na Torre de Aymon! — o grão-mestre falou. — Onde está o garoto que deu o testemunho? Aquele que desistiu de entrar na Torre.

— Eu o dispensei. Já falou tudo que tinha para falar. Estava muito abalado. Tudo que precisa saber, kir, está no relatório — ela apontou para os pergaminhos.

— Mas este foi o único a falecer, não é mesmo? — ele insistiu, apontando para o corpo na grande mesa de pedra. — Diga-me, houve ou não uso de magia?

— É claro que houve — kir Lourath interrompeu. Começou a percorrer a sala. — Não consegue senti-la neste exato momento? Toda esta sala está envolta em um estranho thy. Mas, por favor, kir Jelhuká, continue seu relato.

— Bem, já que mencionou isso, realmente todos nós sentimos um poderoso thy emanando do garoto.

Só de ouvir isso, Jhören sentiu um arrepio na espinha. Suas mãos ficaram frias. Ele moveu o peso do corpo para a outra perna. Tentou apagar da memória a lembrança da terrível sensação que tomara conta de seu espírito naquela manhã. A sala parecia cada vez mais fria.

— Este é o momento que todos esperávamos ouvir, não? — Lourath falou, se aproximando do defunto. — Descreva esse thy.

— Demoníaco. Esta é a palavra. Foi a pior sensação que já senti em minha vida — Jelhuká disse. — Muitas pessoas que estavam na praça desmaiaram na mesma hora.

— Acha que isso é capaz de matar uma pessoa? — Lourath perguntou.

— Não acho isso, mas é um thy que incute um medo irracional em nossas mentes.

— O que matou os moradores então? — o grão-mestre quis saber.

— Já disse. Foi o garoto. Ele parecia um animal selvagem, estava descontrolado — Jelhuká relatou. — Armado com uma faca, ele foi capaz de atacar treze pessoas antes que pudéssemos fazer alguma coisa. As pessoas desmaiavam antes que pudessem fugir. Eram como presa fácil. Foi um pânico generalizado.

“Entendo, entendo”, Lourath disse, batendo na mesa de pedra com o nó do dedo. O grão-mestre virou-se para ele.

— Sabe o que se passa aqui, kir?

— Não teriam me chamado aqui se eu já não tivesse uma ideia, Tynald.

Lourath lançou um olhar para Jelhuká. Ela virou-se para os outros e falou:

— Saiam. Todos vocês. Você também Dunza. Seu trabalho aqui já acabou. E nem pensem em tentar ouvir pela porta. Andälle, Klaus e Jhören, voltem para a estalagem e espere por mim lá.

Jhören encarou os amigos. Klaus fez que ia argumentar, mas Andälle fez sinal com a cabeça pedindo que não. Os três dirigiram-se em direção à porta e Jhören cruzou olhares com Lynöre.

Muito bem, Jhören, como iniciar um diálogo civilizado com Lynöre sem que os dois acabem discutindo novamente?

Ouviu a voz de Lourath.

— Lynöre, você fica. Você também, Jhören. O resto de vocês, podem ir.

Jhören encarou Andälle, e com um meio sorriso ela se despediu. Dunza já saíra antes disso. O último a deixar o recinto foi Klaus, que fechou a porta com suavidade. Jhören olhou para kir Jelhuká e, após um momento de reflexão, ela assentiu com a cabeça. Ele posicionou-se ao lado de Lynöre, que lhe lançou um olhar severo, antes de se afastar um passo para o lado. Lourath ajeitou os óculos e tomou a palavra:

— Não é preciso dizer que o que será dito e visto aqui deve permanecer em segredo. É sigiloso nível 4, pelo menos. Confiarei que as palavras aqui ditas não sairão desta sala.

Ele percorreu a sala com o olhar. Quando fixou os olhos em Jelhuká, esta falou:

— É uma Relíquia da Eternidade, não é?

— Não tenho dúvidas — o guardião disse, dando a volta ao redor da mesa onde estava o defunto.

— Nós o revistamos, mas não encontramos nada.

— Ei! Gostariam de me explicar o que está acontecendo? — Tynald protestou. — O que é essa tal de relíquia da eternidade?

— Melhor que explicar, eu te mostrarei — Lourath falou. — Mas antes, precisamos saber com qual tipo de Relíquia estamos lidando. Livro das Magias, apareça.

O guardião esticou o braço. Um ny surgiu do nada e logo em seguida um livro se materializou, flutuando acima de sua mão.

— Pelo olho de Feiten! — Jhören disse. Lynöre e Tynald também proferiam palavras de espanto. — O que é isso?

— Isso é uma das Relíquias da Eternidade, meu jovem. É o Livro das Magias. — Lourath respondeu. — E eu posso usá-la para descobrir qual relíquia está em posse deste menino aqui. Vejamos.

O tal livro abriu-se. Jhören sentiu de novo um ny. Lourath pareceu ler o que estava escrito e falou:

— Hum… Fúria Milenar… Isso é interessante. Senhoras e senhores, estamos lidando com a Relíquia do Demônio.

— E o que esta relíquia faz? — Jelhuká perguntou. — É perigosa?

— Quase inofensiva sozinha contra um nyflyn. Segundo o Livro, ela precisa de um hospedeiro com forte afinidade empática — ele disse. Olhou para o defunto. — Não parece ser o caso. O menino nem devia saber utilizar magia. Morreu porque não suportou o ny da Relíquia.

— E onde está essa tal relíquia? — Tynald perguntou. — Não a vejo aqui.

— Se o Livro estiver correto, o cristal está dentro da cabeça do garoto — Lourath falou. — Precisamos tirá-la daí. Vejamos.

Lourath fechou o livro e este desapareceu, tão de repente como surgira.

Pelas barbas de Nuban, mas o que é isso? Lourath não estava brincando quando falou que isso envolvia assuntos sigilosos nível 4.

O guardião debruçou-se sobre o corpo e pôs a mão em sua testa. Fechou os olhos e pareceu se concentrar bastante. “Sim, sim, estou sentido…” ele murmurava. Elevou seu poder.

Pelo olho de Feiten! Mas que ny é esse?

Quase como uma reação natural, Jhören sentiu uma perturbação no thy, emanando do garoto morto. Sentiu um arrepio e a semente do medo foi plantada em seu espírito. A flutuação vinha em ondas, cada vez mais fortes. Lourath mantinha o semblante sério, mas os outros presentes pareciam abalados com aquela estranha manifestação de thy. A sensação de um medo primordial tomou conta do recinto. Lynöre soltou um grito abafado enquanto jogava seu corpo contra a parede. Jhören segurou sua mão, mas a jovem pareceu se assustar ainda mais com seu gesto que com poderoso thy que permeava a sala.

— Estou bem — ela disse, seca, puxando sua mão.

Lourath continuava se concentrando. “Vamos lá, vamos lá!” ele murmurava. Aos poucos, a presença ameaçadora foi desvanecendo. “Isso, isso!”, agora dizia o guardião. O grão-mestre tentava ver mais de perto o que acontecia. Todos foram tomados por uma súbita curiosidade, quando sentiram um ny emanando do garoto.

— Não é possível, ele está morto — Lynöre sussurrou. — Como pode emanar ny?

Neste momento ela olhou para Jhören, talvez procurando uma resposta, mas isso ele não poderia lhe dar. O corpo do rapaz começou a levitar. Lourath continuava com um mão sobre sua testa. O guardião elevou sua mão. Jhören vislumbrou um ponto luminoso na testa do garoto. Era como luz de uma estrela, cintilante e azulada. O homem afastava cada vez mais sua mão. “Está vindo” ele dizia. No instante seguinte Lynöre murmurou espantada, quando um pequeno cristal emergiu de dentro da cabeça do defunto. Era pequeno, do tamanho de uma joia de anel ou uma semente. Emitia uma pulsante luz azul que, Jhören percebeu, estava em sintonia com as ondas de ny que chegavam a ele. Lynöre expressou tudo que ele gostaria de dizer naquele momento:

— Eu não entendo. Este cristal está emitindo ny?

Seu mestre admirava a joia, que flutuava a poucos centímetros de sua mão. Seu brilho estava diminuindo.

— Sim, querida, o ny vem desta joia.

— Isso é um totem de intensificação? — o grão-mestre perguntou.

— Mais importante, — Jhören falou — o que isso estava fazendo dentro… da cabeça dele?

O homem esboçou um sorriso. O brilho do cristal agora estava quase morto, e já quase não havia sinal do ny.

— Muitas perguntas, muitas perguntas — o guardião murmurou. — Isto é mais que um simples totem de intensificação de magia, meus caros. Não é um artefato mágico qualquer. — Ele ergueu a mão, o cristal ainda flutuando. — Isso é o ápice da magia ysdiniana. Uma pequena amostra de um imenso conhecimento milenar. Senhoras e senhores, contemplem! Contemplem uma das Relíquias da Eternidade!